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Caiu na rede é piche

Documentário Pixo se infiltra no universo da pichação, este movimento que precisa ser criminoso para ser autêntico, na opinião do codiretor Roberto Oliveira

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 03/11/2009, às 11h36

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Atualizada em 3/11, às 11h30

Todas as quintas-feiras, cerca de 300 deles se juntam em frente à Galeria Olido, no centro de São Paulo, para planejar a próxima intervenção. Foi numa dessas reuniões que os irmãos João Wainer, fotógrafo da Folha de S. Paulo, e Roberto Oliveira, fundador da produtora Sindicato Paralelo, ficaram sabendo dos planos de Rafael Guedes Augustaitiz.

Ele era bolsista no Centro Universitário Belas Artes e decidiu se formar em grande estilo. Por volta das 21h de 11 de junho de 2008, o estudante comandou cerca de 40 camaradas, todos munidos com latas de spray, para montar o que seria sua maior obra de arte até então: pichar a fachada da instituição com aquela caligrafia que, para os de fora do movimento, pode ser tão inteligível como um filme russo com legenda em mandarim.

Ações como essa estão documentadas em Pixo, feito por Wainer e Oliveira para mostrar como funciona o universo daqueles que expõem todos os dias na maior galeria a céu aberto do país: São Paulo. "Andar por aqui e não ver a pichação é como morar na China e não falar chinês", explicou à reportagem do site da Rolling Stone Brasil Oliveira, que diz gastar um bom tempo "tentando decodificar" o dialeto urbano.

Augustaitiz, que estava prestes a se formar, acabou expulso da faculdade. Oliveira acompanhou o drama de perto: "A faculdade foi super autoritária. O reitor chegou a modificar estatuto para garantir que ele saísse". No embate Justiça vs. Pichadores, Caroline Pivetta da Mota também se deu mal: a jovem passou mais de 50 dias na prisão após pintar as paredes do Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, durante visita à 28ª Bienal de São Paulo.

Na calada da noite, estes homens-aranha da fauna paulistana escalam prédios e deixam sua marca. Mas a justiça quer deles outra espécie de borrão: o da impressão digital, na ficha criminal. Lá fora, eles estão no topo. Os Gêmeos são chamados para grafitar castelos na Escócia, enquanto na França a Fundação Cartier, dedicada à arte contemporânea, pirou com o trabalho de Djan Ivson. Protagonista de Pixo, ele saiu de São Paulo para pichar a fachada da entidade. Só não gosta de usar a nomenclatura para o que fez em Paris. "Ele diz que pichação é na rua, é em São Paulo", comenta Oliveira.

O diretor continua a tese: "Pichador é maltratado a vida inteira, das maneiras mais violentas. Apanham e até morrem. Em Paris, todo mundo paparica. [Ivson] não achou legal [pichar em Paris], para ele não faria sentido. Dizia que a cidade era bonita, bem cuidada, tudo antigo". Um corte de Pixo, atualmente exibido na fundação, já foi assistido por mais de 85 mil pessoas.

Sem tribunal

Oliveira, que dirigiu vídeos para nomes tão diversos como Racionais MC's, Moby e The Kooks, já "escreveu o nome na parede umas duas, três vezes quando era moleque", mas, assim como seu irmão, nunca foi do círculo de pichadores. Mas, como qualquer um que já tenha andado pelo menos um quarteirão no centro de São Paulo, cresceu junto àquela cultura única no mundo, de estética prima (mas à parte) do "Wild Style", movimento grafiteiro precursor em Nova York.

"É vandalismo, é crime, tá na cara", ele diz mesmo assim sobre o tema. Contradição? Nem tanto: para Oliveira, a condição de marginalidade (no sentido de opor arte a sistema) é necessária aos compradores compulsivos de lata de spray. Tanto que, se o assunto é pichação, "só serve a rua". "Na hora que vai para galeria, vira representação", acredita.

Feito sem qualquer tipo de patrocínio público, o documentário não quer discutir se a justiça está certa ou não em tratar a pichação como crime. Oliveira deixa escorrer alguma ironia nas próximas palavras: "Deixa isso para especialistas. Aliás, tá cheio disso por aí. Sociólogos, críticos de arte, advogados". Justamente para secar a verborragia, "mostrar o movimento de dentro", a dupla de diretores decidiu "tirar todo o blábláblá e deixar o pichador".

O longa, que traz músicas inéditas de Racionais, Sabotage e Jorge Du Peixe, integra a programação da Mostra de São Paulo. Após a exibição desta quarta, 4, haverá um debate com os diretores (veja detalhes abaixo).

Pixo na Mostra de SP

3 de novembro, às 18h40

Unibanco Artiplex - Shopping Frei Caneca - Rua Frei Caneca, 569

Informações: 3472-2362

4 de novembro, às 21h50

Cine Bombril - Av. Paulista, 2073

Informações: 3285-3696

Após a sessão, debate com os diretores, João Wainer e Roberto Oliveira, e convidados: Os Gêmeos e o alemão Robert Kaltenhäuser, diretor do documentário Arte Inconsequência