James Brown completaria 80 anos nesta sexta, 3

Cantor revolucionou a música negra e viveu loucamente até a morte, em 2006
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por Paulo Cavalcanti
3 de Maio de 2013 às 13:00

Se estivesse vivo, James Brown completaria 80 anos nesta sexta, 3. Brown não só revolucionou a música dançante e “inventou” o funk, como também foi um dos maiores e mais polêmicos nomes do showbusiness norte-americano.

James Joseph Brown, nascido no dia 3 de maio 1933 em Barnwell, Carolina do Sul, começou a vida na total pobreza. Quando o futuro astro tinha cerca de 4 anos, a família dele se mudou para Augusta, Geórgia, local que ele sempre considerou sua cidade do coração e onde morou até morrer. Quando adolescente, Brown tentou ser boxeador, mas foi parar no reformatório depois de se envolver em um roubo a mão armada. Lá, se disciplinou e se envolveu com a música gospel. Quando saiu do cárcere, fundou o grupo The Famous Flames ao lado do amigo Bobby Byrd, fundamental na criação da identidade do cantor.

Na metade dos anos 50, a cena de R&B se tornava cada vez mais forte, lançando a base para o emergente rock and roll. A suplicante “Please Please Please”, creditada a James Brown e o The Famous Flames, foi sensação em 1956 quando saiu em compacto simples pela Federal, subsidiária da King Records. Mas depois desse hit Brown voltou a estava zero. Seus singles seguintes eram competentes, mas não passavam de imitações genéricas de sucessos de Little Richard e Ray Charles. Mas em 1958, com o estouro da balada “Try Me”, a carreira dele se reergueu. A partir daí, Brown teve hit atrás de hit, entre eles "I'll Go Crazy", "Think", “Lost Someone” e “Night Train”.

Vídeos: dez grandes momentos de James Brown.

Em 1962, o disco Live at The Apollo foi um verdadeiro fenômeno, chegando ao segundo lugar da parada pop. Era um disco ao vivo gravado no lendário Apollo Theater, em Nova York, onde Brown apresentava vários medleys das canções que tinha gravado até então. No final de 1964, a eletrizante aparição dele no TAMI Show roubou a cena, mesmo tendo como concorrentes outras lendas como Marvin Gaye, Beach Boys, Rolling Stones, Supremes e outros. O concerto, que foi filmado e exibido nos cinemas, abriu as portas do universo de James Brown para muita gente. É o registro definitivo desta fase do cantor: ele canta de forma intensa e dança freneticamente.

Funk e política
No ano seguinte, Brown lançaria os hits gigantescos "I Got You (I Feel Good)" e “Papa’s Got a Brand New Bag”, conquistando de vez o público branco. A música de Brown foi se tornando minimalista, buscando cada vez mais as raízes africanas, com o ritmo prevalecendo sobre a melodia. Sucessos como "Cold Sweat", "I Got the Feelin'" e "Mother Popcorn" já não eram chamados de soul, mas sim de funk. Mas Brown não se contentava apenas em mudar o rumo da música popular. Ele começava abertamente se envolver com política. Suas palavras e atitudes influenciavam a população negra, justamente em um momento extremante tenso da questão racial nos Estados Unidos. No dia 5 de abril de 1968, um dia depois do assassinato do reverendo Martin Luther King Jr., ele fez um show em Boston que ajudou a acalmar os ânimos da população da cidade, que explodia em meio à violência e a saques.

Mas o cantor confundia a opinião pública. Ele lançou a explosiva "Say It Loud - I'm Black and I'm Proud", que muitos encaravam como um hino não oficial dos Panteras Negras. Só que Brown não pregava a revolução – era, sim, um republicano ferrenho. Apoiava o presidente Lyndon B. Johnson e foi cantar para as tropas dos Estados Unidos que estava no Vietnã. Brown advogava que o governo deveria ajudar as comunidades negras, mas também era um grande defensor da livre iniciativa.

Pouco tempo depois, em 1970, Brown juntou a J.B.’s, considerada sua melhor banda, tendo no baixo Bootsy Collins, que logo se tornou um dos nomes mais importantes da funk music. Com o J.B.’s, Brown lançou o mega-hit "Get Up (I Feel Like Being a) Sex Machine".

O Declínio do Chefão
A essa altura, Brown, que era chamado de Godfather of Soul (padrinho do soul), excursionava pelo mundo todo e quando ia a África, era tratado como um verdadeiro rei. Ele também se tornou um poderoso homem de negócios, dono de uma cadeia de restaurantes e de várias emissoras de rádio, sempre procurando dar emprego a população negra desprivilegiada. Na primeira metade da década também fez trilhas para filmes de blaxpoitation como Black Caesar e Slaughter's Big Rip-Off. Mas na segunda metade da década de 70, o horizonte de Brown ficou escuro. Maus negócios fizeram seu patrimônio encolher substancialmente e ele também teve problemas com impostos. Brown, que era um feroz disciplinador, frequentemente perdia os músicos de suas bandas, que não concordavam com seu rígido esquema de multas e a forma arrogante com que eram tratados pelo cantor. O pior é que, com a chegada da disco music, a música de Brown perdeu um enorme espaço nas paradas de sucesso e nas casas noturnas. Em 1979, ele lançou o disco The Original Disco Man, feito para provar que ele tinha lançado as bases para a o estilo. Mas o álbum não fez sucesso, confirmando o mau momento dele. Em 1981, Brown dispensado pela gravadora Polydor.

Ressurgimento e problemas
Os anos 80 foram erráticos e complicados para James Brown. O bom é que novas gerações tomavam conhecimento da arte dele. Ele apareceu em filmes como Os Irmãos Cara de Pau e Rocky IV – neste último, Brown apresentou “Living in America”, seu último grande sucesso. Ele começou a ser constantemente sampleado. In 1984, se juntou a Afrika Bambaattaa na canção "Unity", provando que se não fosse por ele, o rap e o hip-hop teriam que surgir de outra forma. Mas a vida pessoal do cantor degringolou. Ele, que sempre foi contra qualquer tipo de droga, se tornou viciado quando chegou à meia-idade. Em 1988, foi preso e sentenciado a seis anos depois de fugir da polícia quando foi pego com drogas e armas. No final, cumpriu cerca de metade da sentença. Até o fim da vida Brown esteve envolvido em casos de violência doméstica. O artista se casou oficialmente três vezes e teve nove filhos, alguns fora do casamento.

O mito e a morte
Nos últimos anos de vida, James Brown, em meio a uma confusão ou outra, aproveitou o status de lenda viva. Os antigos álbuns eram agora lançados em CD – a premiada a caixa retrospectiva Star Time, lançada em 1991, foi considerada um marco. Ele gravava apenas ocasionalmente e ganhava todo tipo de homenagem da indústria e da Geórgia, seu estado natal. Mas não parava: fazia questão de estar sempre na estrada com sua nova banda, The Soul Generals.

James Brown esteve várias vezes no Brasil, tendo sido a última em agosto de 1999. Em 2006, ele ainda seguia se apresentando ao vivo e não tinha intenção de parar. Mas no segundo semestre daquele ano começou a ter problemas de saúde. No dia 23 de dezembro, depois de uma visita ao dentista em Atlanta, Brown passou mal. Foi internado e morreu dois dias depois, aos 73 anos. A causa foi um ataque cardíaco, consequência de uma pneumonia. O velório durou dias – um verdadeiro carnaval, com o caixão de Brown rodando os Estados Unidos. Foram realizadas cerimônias fúnebres no Apollo Theater, em Nova York, e em Augusta. Finalmente o corpo do cantor foi enterrado no dia 10 de março de 2007 em uma cripta na casa de Deanna Brown Thomas, uma das várias filhas do cantor. Mas a família ainda pretende construir um suntuoso mausoléu para colocar os restos mortais de Brown.

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