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Os detalhes da ascensão profética e caótica do N.W.A, o grupo de rap mais perigoso do mundo

Brian Hiatt Publicado em 22/10/2015, às 16h00 - Atualizado em 28/10/2015, às 17h34

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Os detalhes da ascensão profética e caótica do N.W.A, o grupo de rap mais perigoso do mundo - Mark Seliger
Os detalhes da ascensão profética e caótica do N.W.A, o grupo de rap mais perigoso do mundo - Mark Seliger

Dr. Dre tem um programa online de rádio para gravar, um álbum quase secreto para mixar e uma ligação do empresário musical Jimmy Iovine para receber a qualquer momento. Mas, no meio de uma tarde movimentada de julho, Dre – criador de batidas que ajudaram a formatar o gangsta rap, MC relutante, mentor de Snoop Dogg, Eminem e Kendrick Lamar, marca ambulante de fones de ouvido – emana uma aura leonina de serenidade e controle, como se fosse o produtor executivo do próprio comportamento, minuto a minuto. Usa um relógio cheio de diamantes no pulso (“Acho que é Rolex – ganhei de presente”) e tênis Air Force One brancos e imaculados nos pés (diz a lenda que ele usa um par novo todos os dias). Está sentado em um pufe no lounge mal iluminado de um condomínio fechado de estúdios de gravação em Sherman Oaks, Los Angeles, que acabou de comprar e reformar, depois de anos pagando aluguel.

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Nas atuais circunstâncias, foi uma aquisição trivial. “Do ponto de vista financeiro, estou bem pra caralho”, afirma Dre, um tanto modestamente. Em meados da década de 1980, alguns anos antes de ajudar a formar, ao lado de Ice Cube, Eazy-E, MC Ren e DJ Yella, o seminal grupo de rap N.W.A (sigla para Niggaz With Attitude, algo como “pretos com atitude”), Andre Young dormia no sofá do primo – estava tão duro que não conseguiu pagar a própria fiança para sair da cadeia, enquanto amontoava pilhas de multas por excesso de velocidade. Hoje, as coisas são muito diferentes. Em 2014, quando vendeu junto ao parceiro de negócios Iovine a marca Beats para a Apple Inc., levou para casa cerca de US$ 500 milhões.

“Ainda não sou um bilionário, cara”, diz Dre. “Um dia serei, tomara. Um dia. Mas vou te contar uma coisa: nunca mais vou precisar ganhar um dólar na vida. Até o dia em que morrer, o negócio será só me divertir, ser criativo.” Dre fez 50 anos em fevereiro e tem tido muitas chances de pensar na amplidão de sua trajetória de vida. O filme Straight Outta Compton – A História do N.W.A estreou em primeiro lugar nos Estados Unidos e chega aos cinemas brasileiros neste mês. Ele e Ice Cube tiveram envolvimento profundo como produtores.

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Straight Outta Compton (1988), o disco, se destacou pela atenção dada à realidade da vida na cidade de Compton e no sul da Califórnia nos anos 1980, quando era mais fácil encontrar uma metralhadora AK-47 do que um emprego. “Você tinha de ver por que fizemos aquelas músicas”, afirma Ice Cube. “Sabe, não só aquilo de ‘Éramos jovens negros furiosos da periferia de South Central’, mas por que gravamos aquilo? Estávamos vivendo no meio do tráfico de drogas, gangues, brutalidade policial, a porra da economia da era Ronald Reagan, e não havia para onde fugir.”

As cenas mais angustiantes do filme são inquietantemente atuais neste 2015 pós-Ferguson, dramatizando o assédio rotineiro e degradante da polícia de Los Angeles que inspirou Cube a fazer um rap sobre policiais que “acham que têm autoridade para matar uma minoria” em “Fuck Tha Police”. A música de protesto irritou o FBI e serviu de prenúncio para os tumultos que ocorreriam na cidade três anos depois. “O triste é que ‘Fuck Tha Police’ foi gravada com uns 400 anos de atraso”, afirma Cube, rindo um pouco. “Há mil policiais violentos todos os anos e não ficamos sabendo deles – só agora, com a tecnologia, conseguimos realmente ver a porcaria com a qual os pobres lidam desde sempre, mas essa merda ainda é normalmente feita no escuro – e é isso que torna nosso filme e o N.W.A relevantes hoje.”

O papel triplo de Eric “Eazy-E” Wright como integrante do N.W.A, astro solo e presidente do que viria a ser a gravadora do grupo, a Ruthless, aliado à forte parceria com o empresário Jerry Heller, foi uma força desestabilizadora: enquanto o N.W.A terminava sua primeira turnê, Ice Cube saiu, sentindo que era mal pago. Dois anos depois, assim que foi finalizado o segundo LP, Niggaz4life (musicalmente mais sofisticado, mas com letras muito menos brutas), Dre foi embora, também reclamando das finanças.

As consequências foram feias, especialmente quando Dre e o rapper The D.O.C. abriram a Death Row Records com Suge Knight. Dre fez boa parte de sua estreia solo, The Chronic (1992), para zombar de Eazy. Só que, apesar das rixas, os membros sobreviventes insistem que o N.W.A estava à beira de uma reunião pouco antes da morte de Eazy, em 1995, por complicações decorrentes da aids. “Realmente achei que estávamos consertando o que deu errado”, afirma Cube. “É triste, cara, porque eu tinha muita esperança.”

“Se Eric não tivesse morrido”, garante Dre, “definitivamente teríamos trabalhado em outro disco do N.W.A e teria sido incrível. Eric e eu conversamos sobre como fomos estúpidos em criticar um ao outro”.

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Eazy-E era uma mistura curiosa de manipulado e manipulador: apesar de dono e presidente da Ruthless, como artista estava à mercê de seus ghost-writers e produtores. A ideia de formar um grupo surgiu enquanto ele, Cube, Dre e Yella estavam no estúdio, trabalhando em músicas para Eazy; pareceu tão natural que ninguém consegue lembrar quem sugeriu (Yella acha que foi Dre, enquanto que, na versão de Jerry Heller, Eazy planejou tudo).

Quando Cube se mudou para o Arizona por quase um ano para estudar arquitetura, eles chamaram outro rapper, Ren, amigo de Eazy, para escrever as rimas. A última peça no quebra-cabeça do estilo forjado por Eazy- -E veio quando Dre encorajou um rapper ágil do Texas, que ficaria conhecido como D.O.C., a se mudar para a Califórnia e começar a trabalhar com ele. The D.O.C. compôs para a estreia solo de Eazy, Eazy-Duz-It (1988), e para os dois discos do N.W.A. “Juntando Cube, Ren e eu, tínhamos todas as partes necessárias para montar o Eazy”, afirma D.O.C. “Fizemos e transformamos aquele filho da mãe provavelmente no maior rapper que já existiu. Porque em 1988, 1989, ele fazia rap com a minha voz, com a voz do Cube e até com a do Ren como se fossem a dele.”

Completando seu plano, Eazy contratou o obstinado e baladeiro Heller, um veterano da indústria da música que havia trabalhado com Creedence, Elton John e Pink Floyd e que ouviu um potencial para abalar o mundo com a faixa “Boyz-N-the Hood”. Como Heller lembra em sua autobiografia, Ruthless, Eazy lhe disse que ele foi o primeiro branco com quem falou que “não estava tentando cobrar aluguel ou me prender”. Os dois viraram amigos – e, até hoje, os outros membros do N.W.A culpam Heller, não Eazy, pelas discórdias nos negócios do grupo (Heller não quis conceder entrevista).

O empresário, a princípio, não conseguiu um grande contrato para o N.W.A. Todas as grandes gravadoras rejeitaram o quinteto, fazendo com que Heller resolvesse fazer negócio com a Priority Records, um selo indie cujo único grupo de peso era o California Raisins. “Ouvi ‘Fuck Tha Police’ e pensei: ‘Vou amedrontar muitos brancos com isso’”, conta o fundador da Priority, Bryan Turner.

Inicialmente, a MTV e a maioria das estações de rádio baniram o N.W.A, mas o álbum vendeu mesmo assim, chegando a disco de platina alguns meses após o lançamento graças a pouco mais do que boca a boca. No entanto, a relativamente inócua “Express Yourself” finalmente fez o grupo ser ouvido nas rádios. Além disso, um impulso inesperado foi dado por Milt Ahlerich, diretor assistente do Escritório de Assuntos Públicos do FBI, que mandou uma carta ameaçadora à Priority Records, repreendendo a gravadora por propositadamente defender “violência e desrespeito” contra policiais. “Isso deixou o grupo ainda mais perigoso”, Turner relembra. “Então, a molecada falou: ‘Tenho que ouvir esse disco, o FBI não quer que eu escute!’ Provavelmente vendemos cerca de 1 milhão de cópias depois daquela carta”

Ice Cube, que depois do N.W.A acabou fazendo carreira como ator em comédias familiares, deu um conselho sobre atuação para o filho de 24 anos, O’Shea Jackson Jr., que faz uma estreia impressionante no cinema no papel do próprio pai em Straight Outta Compton: “Não me faça franzir a testa o tempo todo!” Só que Cube era o rapper mais raivoso de sua geração, então uma certa quantidade de caras feias era obrigatória. “Conheço todos os lados do meu pai”, afirma Jackson Jr. “Tive de humanizá-lo um pouco.”

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Cube cresceu na região de Crenshaw, South Central, Califórnia, com pai e mãe em casa, além de um irmão mais velho. Não foi o suficiente para mantê-lo totalmente longe de encrenca. “É difícil crescer em South Central e sair de lá limpinho”, ele afirma, tendo já confessado roubos de rádios de carros e outros crimes menos graves. “Toda aquela merda acontece bem na sua porta. Ou você adota isso ou passam por cima de você. Felizmente comecei a fazer coisas positivas antes que me afundasse. Praticar esportes, fazer hip-hop.”

Como praticamente cada jovem negro que conhecia, desde cedo Cube foi frequentemente abordado pela polícia de Los Angeles. “Quando você está na periferia, eles te pegam logo. Começam a te ferrar quando você tem 9, 10 anos, só para intimidar, sabe? Tiram você da bicicleta, te fazem colocar as mãos no capô. Você está sentado na grama, depois de jogar futebol, e os f lhos da puta te pegam e te fodem. Isso acontece sua vida inteira. Fazem isso se você é bom, se é mau – não importa.”

Atualmente, apesar de um casamento de 22 anos e quatro filhos, Cube afirma que não mudou muito. Ao longo de duas entrevistas, não tirou os óculos escuros enormes e inicialmente se mostrou impassível, como se deixasse seu carisma considerável apenas para as câmeras de cinema. Mas ele solta o riso e fica animado quando vai fundo na história de sua juventude. “Eu me vejo como o mesmo moleque – só que velho. Minha raiva ainda está lá. Mas, quando você é jovem, às vezes não entende nada e simplesmente detona tudo. Foi fácil, para mim, dizer ‘foda-se a polícia, foda-se tudo, foda-se o mundo’, mas isso não vai te ajudar. O que te ajuda é que eu diga ‘foda- -se a polícia e aqui está a maneira de fazer isso’ ou ser um exemplo de como sair da periferia.”

Quando fala do retrato que o N.W.A fazia das mulheres, Cube parece canalizar seu eu mais jovem, com uma retórica saída diretamente de 1993. “Se você for uma bruaca, provavelmente não vai gostar de nós. Se for uma puta, provavelmente não vai gostar de nós. Se não for puta nem bruaca, não corra para defender essas mulheres desprezíveis, como eu não deveria correr para defender vagabundos ou covardes ou trapaceiros filhos da mãe. Nunca entendi por que uma mulher decente pensaria que estamos falando sobre ela”.

Dr. Dre sempre foi mais distante e misterioso do que Ice Cube. Nunca chegamos nem perto de nos esquecermos dele, mas também não chegamos a realmente conhecê-lo. Ele é uma presença imponente, mas estoica, em videoclipes; jamais tentou esconder o fato de que todos os seus versos de rap foram escritos por outras pessoas (sempre os melhores, de Cube a The D.O.C., de Eminem a Jay Z) e nunca falou muito em entrevistas. Então, é quase chocante ver as fraquezas humanas do Dre cinemático em Straight Outta Compton, representado pelo relativamente novato Corey Hawkins: na primeira cena, vemos seus olhos encherem de lágrimas quando a mãe lhe dá um tapa forte no rosto. Mais tarde, ele chora depois de saber da morte do irmão mais novo, Tyree; o Dre da vida real teve de sair do set quando filmaram essa sequência.

“Tenho ansiedade social. Não gosto de estar sob os holofotes, então fiz uma escolha esquisitíssima de carreira”, afirma. Ele ri: “Este é o motivo para minha aura misteriosa e a razão para eu ser tão recluso e ninguém saber nada sobre mim. Acho que isso acrescentou ao personagem no filme, porque as pessoas têm a chance de ver os bastidores.”

Há pouco tempo, ele abandonou discretamente seu álbum solo, Detox, originalmente previsto para 2004 (e que foi sendo adiado anualmente desde então). “Fiz um disco que não era bom e me recusei a lançar”, desconversa. Só que quanto mais tempo Dre passava no set de Straight Outta Compton, mergulhado no passado, mais quis voltar ao estúdio. Em menos de um ano, gravou Compton, uma coletânea de músicas inspiradas pelo filme que é, ele garante, seu último álbum como rapper, com convidados como Cube, Eminem e Kendrick Lamar. As gravações do filme renderam, porém, algumas recordações menos positivas: a parceria antiga com Suge Knight.

Foi The D.O.C. quem primeiro fez amizade com Knight e ajudou a persuadir Dre a deixar o N.W.A, em 1991, para formar a gravadora Death Row Records. Ele ainda era contratado da Ruthless, então Knight supostamente tentou uma solução no estilo Poderoso Chefão: Eazy-E alegou que capangas segurando canos de metal o abordaram em uma reunião enquanto Knight (falsamente) lhe dizia que seus homens tinham uma arma apontada para a cabeça de Jerry Heller em uma van nas proximidades, além de terem ameaçado a mãe de Eazy (Knight nega essa parte). Easy assinou a liberação de Dre, mas ele e Heller imediatamente entraram com um processo na Justiça para invalidar a papelada. Enquanto Jimmy Iovine tentou comprar a Death Row para a Interscope, ajudou a negociar um acordo – e Eazy-E acabou recebendo royalties pelo disco solo de Dre, The Chronic.

Dre se desvinculou de Knight em meados dos anos 1990, mas nunca conseguiu se separar dele de verdade. No que pode ser o último capítulo desse conflito, Knight apareceu no set de um comercial para A História do N.W.A, aparentemente descontente com sua inclusão no filme. Acabou matando uma pessoa atropelada na frente de um restaurante nas proximidades e está sendo acusado de homicídio (ele conhecia a vítima e testemhunas afirmam que a colisão pareceu intencional).

Apesar de tudo, Dre considera seu período com Knight “um mal necessário”. “Acho que não voltaria no tempo e mudaria nada do que aconteceu na minha carreira, porque talvez essas coisas tenham sido degraus para onde estou agora. Talvez eu precisasse daquele tipo de elemento na minha vida. A música teria soado muito diferente se eu tivesse ficado com outro grupo de pessoas. Houve muitas mortes, foi realmente sério pra caralho, mas acho que alguma coisa naquela tensão, raiva e estupidez toda ajudou a alimentar a criatividade que gerou The Chronic, Doggystyle [Snoop Dogg], o álbum Dogg Food, do Tha Dogg Pound, e All Eyez on Me, do Tupac.”

Só que há coisas de que Dre se arrepende. O filme menciona brevemente o infame incidente em 1991 no qual ele agrediu a apresentadora de TV Dee Barnes e não aborda alegações novas de sua namorada na época, a cantora de R&B Michel’le, de que Dre era violento – ela o acusou de quebrar seu nariz e costelas e lhe deixar com os olhos roxos. “Cometi alguns erros terríveis na vida”, afirma o rapper. “Era jovem e estúpido. Diria que nem todas as alegações são verdadeiras; algumas são. Gostaria de voltar atrás em algumas coisas. Era realmente fodido, mas paguei por esses erros e não cometerei mais nenhum daquele tipo na vida.”

Caminhando sozinho, Dr. Dre segue por um corredor até o outro estúdio do complexo em Sherman Oaks. É hora de gravar a mais nova edição de seu programa de rádio, The Pharmacy, para o Beats 1 da Apple, com Ice Cube e o diretor de A História do N.W.A, F. Gary Gray, como convidados. Cube está usando uma camiseta do N.W.A que parece nova, óculos escuros e boné do Dodgers.

Gray agradece aos dois. “É sério, estou honrado por terem me deixado contar isso tudo”, diz. “É um retrato da história norte- -americana.”

Eles terminam o programa fazendo Cube apresentar a faixa-título do discoStraight Outta Compton. “Fala aí, aqui é o mano Ice Cube. Sabem com quem estou? Meu parceiro Dr. Dre. Fizemos história em 1988.” Ele faz uma pausa. “Dre, conta o que estão prestes a presenciar.”

Dr. Dre sorri e, como fez em um estúdio de gravação a 50 km, 26 anos e muitas encarnações de distância dali, chega perto do microfone e diz algumas palavras, relembrando o emblemático verso da música – mais reverentemente desta vez, como se estivesse lançando um feitiço: “Vocês estão prestes a testemunhar a força do conhecimento vindo das ruas”.

FIDELIDADE PARCIAL

MESMO DEIXANDO DE LADO PONTOS IMPORTANTES, CINEBIOGRAFIA DO N.W.A É OBRIGATÓRIA

Straight Outta Compton – A História do N.W.A é um filme explosivo que mostra algumas verdades sobre racismo e brutalidade policial, tão atuais agora quanto eram nos anos 1980 em Compton, na Califórnia. O diretor, F. Gary Gray, não santifica seus protagonistas. Sexo, drogas e bandidagem aparecem com destaque. O’Shea Jackson Jr., filho de Ice Cube, faz um trabalho incrível no papel do próprio pai, misturando sensibilidade e intensidade. Cube e o amigo Andre “Dr. Dre” Young (vivido pelo cativante Corey Hawkins) são os responsáveis por persuadir o traficante de drogas Eric “Eazy-E” Wright (Jason Mitchell) a financiar a gravadora Ruthless Records. O destemido retrato criado por Mitchell para Eazy tem potencial para ganhar prêmios, especialmente pela cena em que ele faz os vocais da música “Boyz-n-the-Hood”. Straight Outta Compton é melhor quando tem coragem de ousar, mostrando o poder do N.W.A e as consequências do abuso dele. O filme seria melhor se não contornasse a misoginia, homofobia e as brigas da banda? Não. O que fica é um pedaço eletrizante da história do rap que fala urgentemente ao agora

MARCO DAS RUAS

O DISCO STRAIGHT OUTTA COMPTON ABRIU CAMINHO PARA O GANGSTA RAP

Muitos grupos musicais se desfazem rapidamente, especialmente aqueles cheios de talento e ego, mas o N.W.A deve ter estabelecido um recorde de velocidade. A formação defi nitiva – Dre, Cube, o falecido Eazy-E, MC Ren e DJ Yella – gravou apenas um disco, Straight Outta Compton. Foram só seis semanas de trabalho, com uma produção que Dre, hoje, acha primitiva. Com a mistura perturbadora de versos niilistas, misóginos, de narração da vida no gueto e de protestos furiosos, Straight Outta Compton foi não apenas um ótimo álbum mas um ponto de mudança cultural. O disco precedeu a dominação do gangsta rap e todas as suas derivações; criou, em Eazy-E, o arquétipo do traficante que virou rapper, um manto vestido por artistas de Jay Z a Migos; consolidou o status anteriormente instável do hip-hop da Costa Oeste norteamericana; abriu caminho para Snoop Dogg e Tupac Shakur; inspirou filmes como Os Donos da Rua (1991) e atingiu milhões de garotos brancos de classe média sem fazer concessões. A ascensão do N.W.A também indicou que, a partir dali, bandas de rock teriam muito mais dificuldade para chocar pais preocupados. “Achávamos que éramos tão fodões”, disse Axl Rose mais tarde. “Então o N.W.A veio fazendo rap sobre este mundo em que você sai de casa e leva um tiro. Ficou muito claro que éramos apenas branquelos estúpidos cheios de pose.”