Milton Nascimento relembra as histórias do Clube da Esquina

E histórias de outras esquinas de sua vida

Marcus Preto Publicado em 09/01/2008, às 11h35 - Atualizado em 12/02/2008, às 16h05

Ele gosta de responder até as perguntas mais práticas com narrativas longas - costuma olhar para o infinito e viajar nas próprias palavras e histórias. No ano passado, Clube da Esquina, seu álbum mais importante, completou 35 anos e, junto com Clube da Esquina 2 (1978), ganhou uma reedição comemorativa. Quisemos saber o que esses discos significam para seu principal criador e ouvimos... mais algumas histórias.

Há quem considere o Clube da Esquina um movimento musical como a bossa nova ou a tropicália. É assim que ele é para você?

O lance do primeiro Clube foi o seguinte: no começo dos anos 70, fui a Belo Horizonte visitar a casa dos Borges. Encontrei o Lô chegando por ali e o convidei para ir comigo a um boteco. Pedi uma caipirinha para mim e um guaraná para ele. Mas Lô quis pedir também uma caipirinha. Olhei com uma cara de desaprovação - ele ainda era um menino. Lô começou a dizer que me adorava, que adorava a música que estava fazendo, minha voz, meu violão, mas que tinha uma grande tristeza: que a gente não gostava dele.

Por que ele achava isso?

Disse que saíamos pela noite e nunca o levávamos. Dividi a história da seguinte maneira: até a hora que Lô pediu aquela caipirinha, ele era uma criança. A partir daquele momento, saquei que ele tinha crescido. Essa outra fase da gente ia começar naquele momento. Nesse dia, ele me mostrou pedaços de músicas que vinha fazendo. Uma hora, sentou no chão e começou a tocar uma coisa que parecia um acompanhamento para uma música. O negócio era tão bonito que fechei os olhos, peguei outro violão e comecei a fazer uma melodia em cima. Ficamos umas três horas naquilo. Abri os olhos e vi o Marcio [Borges, irmão de Lô] com um caderno na mão escrevendo uma letra. E a mãe deles, do lado da porta, chorando de emoção.

Resultou em uma canção?

Virou "Clube da Esquina", nossa primeira parceria e a primeira música completa dele. A letra falava da rapaziada que tocava na esquina da casa deles e também do pessoal que estava no Brasil sob aquela pressão da ditadura, procurando sua própria esquina.

E daí para o álbum em dupla?

Cheguei na [gravadora] Odeon dizendo que queria fazer um disco com um menino que tinha descoberto. Eles foram contra, não achavam viável nem queriam gravar um cara desconhecido. Insisti por um tempo e eles continuaram negando. Mas Adail Lessa, que era conhecido como "o pai dos músicos" e fazia parte da diretoria da gravadora, conseguiu, enfim, convencer o pessoal. Por causa de perseguições [da ditadura militar], a gente foi passar um tempo em Niterói, em uma prainha chamada Mar Azul. Ali, fizemos a maior parte do repertório do Clube da Esquina. Entramos no estúdio, trouxemos alguns amigos de Minas, outros daqui [Rio] e gravamos o disco, todo feito a partir da amizade - que é o que me move. É por causa da amizade que faço música.

O disco foi bem recebido?

Quando saiu, foi uma confusão. Os intelectuais, como sempre, teciam seus comentários - daqueles que podiam ter guardado para eles. Diziam que o povo não ia entender aquela música e perguntavam: "Onde já se viu um menino de 17 anos [Lô Borges] gravando?". Mas Clube da Esquina foi vendendo e conquistando a todos, aqui e fora do Brasil. Na hora que o pessoal sacou que não existia nada em lugar nenhum parecido, aí foi.

Sua música é inclassificável?

Tem uma história que explica isso muito bem. Nessa mesma época, me convidaram para fazer um show em um festival em Copenhague. Aceitei na hora, sou apaixonado pela Dinamarca. Quando cheguei, vi um cartaz do festival. Tinha lá: "Miles Davis - jazz"; "Fulano de Tal - blues"; "Não Sei Mais Quem - rock"; "Milton Nascimento - Milton" [risos]. Eles foram precisos.

O Clube da Esquina 2 foi gravado seis anos depois do primeiro. Por que retomou o projeto?

Já fazia muito tempo que não via o Lô, tem horas que ele desaparece. Estava morrendo de saudade e fui atrás dele. Marcio me disse que Lô estava no Rio de Janeiro e me levou à casa dele. Quando a porta abriu, ele estava sentado no chão, tocando violão. Eu disse: "Acabou a preguiça. Vamos fazer o Clube número 2". Essa idéia nasceu ali, naquela hora. Desta vez, decidi que ia reunir bastante gente e fazer um disco bem recheado.

Ali você já tinha entendido que o clube não era simplesmente um disco, mas um movimento musical importante.

Ali, sim - coisa que nem imaginava no primeiro. O Clube da Esquina 2 caiu nas graças e, como era o segundo, acabou chamando atenção para o primeiro.

Entre os dois Clube da Esquina, você gravou clássicos absolutos da música brasileira, como Milagre dos Peixes (1973), Minas (1975) e Geraes (1976). A que se deve a fertilidade daqueles anos?

A gente era muito maltratado pela ditadura. E, quando a gente está sofrendo dessa maneira, sempre tem alguma coisa que empurra você para fazer algo que bata de frente com aquilo.