“Adivinha doutor quem tá de volta na praça?”

Planet Hemp volta aos palcos depois de 11 anos de hiato com performance em São Paulo

Pedro Henrique Araújo Publicado em 15/11/2012, às 13h28 - Atualizado às 16h32

O Planet Hemp voltou aos palcos depois de 11 anos de hiato

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“É porque a galera tá fumando demais, cara”. A frase sampleada do clássico esfumaçado Cheech & Chong é uma das mais célebres do grupo carioca Planet Hemp, que desde 1995 que vem levantando, dichavando e acendendo todas as bandeiras sobre a legalização da maconha. Um vídeo com o humorista Gil Brother defende e apoia a causa, que está ainda mais em pauta depois da recente descriminalização no estado do Colorado, nos Estados Unidos, ou a estatização da produção e comércio realizada no Uruguai. Mas este não parecia ser um tabu para as mais de 15 mil pessoas que encheram o Estância Alto da Serra, casa de shows com atrações normalmente voltadas à música sertaneja.

Por volta das 21h, os portões se abriram e uma horda se acotovelou para chegar ao gargarejo. O show, que estava programado para 0h, tardou, atrasou e deixou parte do público impaciente. Não foi uma noite fácil para a atração de abertura Projota, que foi apresentado à plateia com entusiasmo por Marcelo D2. Exatamente à 1h, o rapper começou a cantar acompanhado do eficiente Projetonave, banda de apoio do programa Manos e Minas, da TV Cultura. No repertório “Desci a Ladeira”, “Pode Se Envolver” e “A Rezadeira”, mas mesmo estando entre os grandes nomes do novíssimo rap nacional, o cantor parece não ter agradado ao coletivo, que estava ávido pelos “maconheiros mais famosos do Brasil”. Ele até deu uma chacoalhada na bandeira da legalização, mas talvez este discurso caísse melhor na boca de outros nomes do gênero como, a Cone Crew Diretoria. Depois de 30 minutos Projota deixou o palco.

Às 2h, o Planet Hemp começou a fazer barulho. O show foi dividido em atos. O primeiro deles representava o disco de estreia da banda, Usuário, de 1995. “Legalize Já”, "Dig Dig Dig (Hempa)" e “Fazendo a Cabeça” foi a tríade que mais animou, muitos fãs estavam desde 2001 esperando por este momento. Com Pedro Garcia na bateria, Formigão no baixo, Rafael Crespo na guitarra e, nos vocais, a dupla Marcelo D2 e BNegão, o Planet Hemp voltou com uma formação simples, sem frescura e com muito rap, rock and roll, psicodelia, hardcore e ragga (para aproveitar mais um chavão) para mostrar.

O segundo ato cantou Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára, de 1997, que tem “Zerovinteum”, “Queimando Tudo”, “Adoled”, “Seus Amigos”, “Hip Hop Rio”, todas cantadas, puladas e fumadas pelo público, que conseguiu burlar a revista quase minuciosa na entrada da casa.

Já o terceiro ato foi representado pelas canções do CD A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, lançado em 2000. “Ex-Quadrilha da Fumaça”, canção que ironiza a prisão do grupo em 1997, foi o abre-alas. Se o ex-ministro da justiça Iris Rezende, que acompanhou de perto o caso na época, decidisse colocar em prática o artigo 12, parágrafo 2º, inciso 3º da Lei Antitóxico, talvez, mesmo depois de 15 anos, o fim do grupo pudesse ser a prisão. O flagrante por apologia foi claro, mas o uso do entorpecente se deu pelo vocalista Marcelo D2, que perguntou à plateia quem tinha maconha e compartilhou alguns tragos. Nada que comprometesse o andamento do show, que teve ainda “Stab”, “Contexto”, “Quem Tem Seda?”, "Procedência C.D." e uma homenagem ao cantor Chico Science com “Samba Makossa”. Foi uma dessas apresentações em que não há falta de nada. O Planet Hemp cumpriu o que prometeu. Voltou aos palcos com energia, pegada e muita vontade de presentear os velhos e os novos fãs. O show bem ensaiado e a dupla de MCs afiada à frente foi uma surpresa agradabilíssima. O Planet Hemp continuará fazendo a cabeça das novas gerações, com ou sem legalização da maconha.