“Foi como perder um irmão”, diz Mike Inez, do Alice in Chains, sobre a morte de Layne Staley

Lançando disco novo, banda de Seattle enfim encontra estabilidade com novo integrante

Pablo Miyazawa Publicado em 14/05/2013, às 12h02 - Atualizado às 12h19

Mike Inez
AP

Prestes a lançar o novo disco, The Devil Put Dinosaurs Here, e com show marcado para o Rock in Rio (19 de setembro, no mesmo dia do Metallica), o Alice in Chains finalmente entrou nos eixos com o novo membro, William DuVall, que divide vozes e guitarras com Jerry Cantrell. “Foi após a turnê por 32 países que passamos a nos sentir mais como uma banda de verdade”, diz o baixista Mike Inez, que relembra a estranheza de estar no estúdio e sentir a ausência de Layne Staley, vocalista morto em 2002 em decorrência de uma overdose de heroína. “Foi estranho. A gente ficava meio que olhando para os lados: ‘Cadê a porra do Layne?’”

Aos 47 anos completados nesta terça, 14, Inez é o lado mais ensolarado do Alice in Chains, uma das bandas de caráter mais cavernoso a surgir em Seattle no final dos anos 80. Inez, que só não participou das gravações dos dois primeiros álbuns e do EP SAP, entrou na banda em 1993, no lugar do baixista Mike Starr (que morreu em 2011, também de overdose de heroína). Falando de Los Angeles (“Está um lindo dia, você deveria estar aqui”), ele se declarou empolgado com a presença de certos vizinhos ilustres no estúdio onde ensaia com o Alice in Chains. “Estamos ensaiando do lado do Black Sabbath! Nem consigo explicar quão divertido tem sido. Fiz parte da banda do Ozzy por uns dez anos, ele e Sharon são como meus pais!”

The Devil Put Dinosaurs Here soa bastante distinto dos discos anteriores, quase como se fosse outra banda. Durante a gravação, vocês perceberam que o resultado seria tão diferente? Ou isso foi algo planejado desde o início?

Eu e o Jerry [Cantrell] falamos muito sobre isso: para nós, um disco é como um retrato de um determinado momento. E tentamos nos manter fieis a essa ideia. Seja lá o que estiver acontecendo em certos pontos de nossas vidas, nós colocamos isso na gravação. Levando isso em conta, tem sido como sempre foi. A razão principal pela qual faço isso para viver é a interação humana. Tipo, imagine que eu e você estamos sentados na mesma sala agora, e sei que temos condições de escrever uma música juntos. Pode não ser uma grande música, mas pode ser a melhor de todos os tempos, vai saber? A interação entre nós é o que há de importante, entende? É quase como se eu estivesse indo à igreja, ou algo assim: eu vou lá pela minha “fraternidade”, para fazer um disco com os meus amigos. Nós nos mantivemos fieis ao que sempre fomos. Fomos lá gravar o disco e esperamos pelo melhor resultado.

Nesse sentido, eu tenho muito orgulho de ainda estar fazendo isso com meus dois melhores amigos, Sean [Kinney, baterista] e Jerry. Fazemos isso juntos há 20 anos. Acho que têm quatro ou cinco músicas no novo disco que foram escritas desse jeito, todos juntos. É claro que Jerry também compôs sozinho, você nunca sabe de onde as canções vão surgir. Ele operou o ombro e escreveu “Stone” cantando os riffs de guitarra no iPhone! Foi algo fantástico de se ver. Ele não podia tocar guitarra por meses e meses, e aliás, foi por isso que demoramos tanto para finalizar o disco.

No último disco, Black Gives Way to Blue, não estava bem claro se William DuVell estava ou não substituindo Layne Staley. No novo disco, parece mais claro que o papel dele não é o mesmo de Layne. Ele não é exatamente o vocalista principal, o frontman, como Layne era. Você concorda?

Bem, é uma questão de perspectiva. Eu não poderia estar mais orgulhoso do William. Não poderíamos esperar que ele fosse mais corajoso, especialmente cantando as músicas antigas. Desde que lançamos o disco em 2009, acho que tocamos em 32 países – Brasil sendo um deles, e nós adoramos o Brasil. Viajando junto e tocando as músicas ao vivo... tive tanto orgulho do Will. Nas músicas antigas, ele canta as partes [ que eram] do Layne. E mesmo com as críticas no início, ele levantou a cabeça diante das plateias de modo muito corajoso, dando tudo de si.

Então, durante o andamento do ultimo disco e após a turnê, começamos a nos sentir mais como uma banda de verdade. No início da produção do disco anterior, nós mesmos o financiamos, não havia nenhuma gravadora por trás – não queríamos estar sob contrato se a gente não gostasse do que estivéssemos fazendo – porque aí não íamos querer lançá-lo. Agora, com esse disco novo funciona mais como uma banda, e eu me sinto muito orgulhoso dos caras. Ele e Jerry criaram os vocais de modo bem natural, não ficaram daquele jeito, “eu canto isso, você deve cantar aquilo”. Eles trabalharam juntos como uma equipe, e isso acabou transparecendo no modo como as vozes soam no disco.

Deve ter sido mais confortável para vocês gravarem agora, já que no disco anterior havia essa questão de ter de lidar com um novo integrante no grupo...

Sim, e não apenas um novo integrante, mas o fato de não ter o Layne ali, sabe? A gente meio que ficou olhando para os lados, “onde está a porra do Layne?”, entende? Foi muito diferente para nós, estar em uma situação de gravação em estúdio sem a presença dele. E não há como substituir o Layne. Nunca pensamos em fazer isso, é impossível. Como você substitui alguém como o Freddie Mercury, por exemplo? O Paul Rodgers foi lá, foi fantástico, mas criou um tipo diferente de som do Queen dependendo de como você escuta as músicas... É uma linha bem delicada em que é preciso transitar.

No fim das contas, são os fãs que decidem quais músicas que se tornarão hits. Nós lançamos “Hollow” no nosso site, de graça, como um presente para os fãs, e a música passou sete semanas em primeiro lugar em duas paradas nos Estados Unidos. A gente nunca planejou isso. E é muito legal receber esse apoio deles, que são os caras que vão aos shows, escutam nossos barulhos.

Na fase anterior da banda, a assinatura do som do Alice in Chains era uma mistura entre os riffs cavernosos e a voz de Jerry harmonizando com o timbre atípico de Layne. Em The Devil Put Dinosaurs Here, como funcionou? Começou com os riffs de guitarra e seguiu-se daí?

Bem, a gente meio que jogou as coisas na mesa e escolhemos o que queríamos tocar, o que poderia soar legal. Estar dentro de um estúdio não é exatamente a coisa mais divertida, entende? É um negócio muito clínico, e depende de nós mesmos manter a chama acesa. Afinal de contas, imagine que você está vivendo por meses e meses lá dentro. E eu sou um cara que gosta de tocar ao vivo, eu ainda curto tocar e fazer jams com outros músicos – é aquela coisa da interação de que falei. Como eu disse, acho que foram umas cinco músicas que escrevemos juntos, enquanto o Jerry trouxe outras. Mas a coisa sobre o disco de que realmente gosto – e no disco anterior também – é que nosso produtor, o Nick Raskulinecz, é um baixista. É muito bom estar em um estúdio ao lado de um cara que fica tão concentrado no som do baixo o tempo todo. Como no timbre de “Stone”. Tem uma outra, “Lab Monkey”, em que fizemos várias experiências com sonoridades. Foi ótimo estar com um cara que é tão consciente do papel do baixo.

Você tentou evocar algum outro baixista, ou um timbre específico? Quais são suas influências quando está gravando?

Eu ainda uso os dois baixos Warwick que o Ozzy comprou para mim em 1989 ou 1990, sabe? Eu devo ter uns cem, duzentos baixos em casa, mas acabo sempre voltando para os dois “originais”. Eu já toquei com os caras da banda Heart em Nashville, pessoas do country como Carrie Underwood e Wynonna Judd, fiz uns programas de TV com eles. E aí, de um lado totalmente oposto, toquei com caras como Dave Lombardo e Kerry King [do Slayer], no evento anual em homenagem ao Dimebag [Darrell, guitarrista do Pantera]. Eu uso os mesmos instrumentos em ambos os casos, seja tocando com a Carrie Underwood, seja com o Kerry King [risos]. E o timbre é idêntico, aquele som limpo e rosnado que funciona para todos os estilos. Foi revelador como baixista quando percebi: “Caramba, um bom timbre de baixo funciona para tudo, não importa com qual artista estiver tocando”. A essa altura de minha vida... tenho feito isso já há 23 anos, então sei bem o que quero quando subo no palco.

Vocês vão tocar no Rock in Rio, abrindo para o Metallica. Quais as expectativas?

Cara, nós amamos o Brasil. Tocamos em São Paulo com o Megadeth, Chris Cornell, Faith No More... acho que foi há dois anos. Em abril do ano passado, fiz uma turnê com o Rock ‘N’ Roll All Stars – fomos convidados pelo Gene Simmons. Toquei umas músicas do Deep Purple, “Highway Star”, “Burn”, com o Glenn Hughes cantando, o Joe Elliot e o Steve Stevens nas guitarras e o [Billy] Duffy do The Cult na bateria. A gente deveria ter ido tocar no Brasil [no Metal Open Air, em São Luís], mas daí cancelaram. Lembra daquele festival muito ruim que rolou aí e deu errado? Fomos convidados, mas aí disseram para nem irmos porque iriam cancelar. Foi uma pena, porque adoro o Brasil, é um dos melhores públicos do mundo. Mal posso esperar para o Rock in Rio. Eu nunca estive no Rio de Janeiro, será a primeira vez. Acho que vou levar minha esposa junto. Será divertido.

Sempre que lançam um disco novo, deve ser impossível para vocês três evitarem o nome de Layne Staley. Onze anos após a morte, quais as características dele das quais você não se esquece?

Oh, Deus, são tantas. Talvez seja a risada dele. É a risada mais característica, além de ser a voz do rock com mais personalidade que já ouvi. Tão identificável e copiada. Foi escrita tanta coisa pesada sobre o Layne, mas ninguém nunca escreve sobre o espírito dele, que era como o sol – tinha esse brilho que saia dos olhos dele. Quando ele dava risada, era algo que enchia a sala, maravilhoso. Houve momentos entre nós, como na Austrália, no final de uma turnê, que estávamos na praia e sem pressão nenhuma, falando bobagem, mergulhando, rindo... São momentos como esses de que eu me lembro dele – nós, fora do trabalho. A gente sempre se lembra de coisas boas sobre a infância. É da natureza do espírito humano se concentrar em coisas positivas. Com o tempo, você fecha a válvula negativa. E já foram onze anos, mas ele continua tão próximo do meu coração. Eu amo esse cara profundamente. A partida dele foi algo devastador para nós três... [hesita, com a voz embargada]. É difícil de explicar, é como perder um membro da família ou algo assim. Sabe? O mais próximo que posso relacionar é a sensação de perder um irmão. É um homem tão especial. Eu nunca escutei uma voz como a dele. Ele sempre será meu favorito.

É impossível descrever a música do Alice in Chains como tranquila ou calma. Como você equilibra o estilo de vida que leva e a música que faz?

Sou um cara tão “de família”. Sou meio filipino, e meu pai é do Texas, da região central. Então, sou muito ligado à família. Minha esposa é fantástica, sou casado com a mesma mulher há 13 anos e ela é minha melhor amiga. Quando volto para casa, é bem fácil entrar nos eixos da vida em família. É engraçado, quando retorno de uma turnê, como “um grande rock star”, ela me entrega a pá e fala para eu recolher a merda do cachorro no quintal [risos]. Moramos em uma casa em uma área montanhosa da Califórnia, no meio da floresta, sem vizinhos, e gosto de sair para caminhar. Ainda tenho uma avó de 89 anos – que Deus a abençoe – com quem me encontro regularmente. Eu e minha esposa queremos ter filhos em breve... Ou seja, tenho uma vida em família muito forte, que é o que me mantém com a cabeça no lugar. Então, se um dia o Alice in Chains deixar de parecer uma família para mim, eu simplesmente vou embora. Nós ainda somos irmãos e melhores amigos, e essa é a razão pela qual continuamos fazendo isso juntos, como uma equipe, e não apenas por realizações pessoais individuais.