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Após crowdfunding, Apanhador Só compra carro e inicia turnê nacional em salas de estar

Extensa excursão que passará pelas casas de fãs tem cerca de 100 datas e será base para terceiro álbum da carreira do trio

Lucas Brêda Publicado em 30/08/2015, às 13h03 - Atualizado em 01/09/2015, às 00h25

O trio gaúcho Apanhador Só
Biel Gomes/Divulgação

Em 2013, o Apanhador Só lançou Antes Que Tu Conte Outra, segundo e mais importante álbum da carreira, que rendeu elogios da crítica e turnês no Brasil e no exterior. Dois anos depois, o trio gaúcho já se preparava para repetir a estratégia de sucesso do último trabalho: um financiamento coletivo para custear a gravação de um disco, o qual a banda levaria para a estrada em seguida.

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Sucessivas conversas, entretanto, geraram uma nova – e ousada – ideia: inverter o processo. “Pensamos: ‘Talvez seja melhor fazer a turnê primeiro e depois o álbum”, conta o vocalista do Apanhador Só, Alexandre Kumpinski. “Primeiro a gente tinha esse formato – 'Na Sala de Estar' – que já havíamos testado em Porto Alegre. Depois, naturalmente, veio a ideia de que era uma estrutura com a qual poderíamos viajar, levando tudo para as cidades que fôssemos.”

Para dar sequência ao plano, o grupo – independente, formado também por Felipe Zancanaro e Fernão Agra – ainda necessitava de uma maneira de custear todo o processo. “Sabíamos que precisaríamos de uma van – ou de um carro com um reboque – para fazer essa turnê”, conta Kumpinski. “O ‘clique’ que nos deu foi que poderíamos vender o carro, depois da turnê, para gravar o disco. Daí fechou a ideia do projeto, definitivamente.”

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Durante a entrevista por telefone à Rolling Stone Brasil, Kumpinski estava no centro de Porto Alegre, comprando os últimos equipamentos para a turnê Na Sala de Estar. Isso por que o resultado do financiamento coletivo ultrapassou todas as expectativas: foram quase R$ 105 mil atingidos no projeto, que buscava “apenas” R$ 77 mil.

Show na sala de estar, em Porto AlegreAbril de 2015Foto: Biel Gomes

Posted by Apanhador Só on Segunda, 4 de maio de 2015

Na Sala de Estar teve início na última semana, na cidade natal do Apanhador Só, Porto Alegre, e para, a partir desta segunda, 31, faz uma temporada em uma espécie de “segunda casa” da banda, a cidade de São Paulo. As apresentações da excursão acontecem nas salas de estar das casas de fãs que se oferecerem a receber os gaúchos. São de quatro a seis horas para a arrumação do cômodo, e o processo é realizado pelos integrantes da banda – que, em turnê, vira um quinteto, com adição dos músicos Gabriel Nunes e Diego Poloni.

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“Vai ser assim: a gente chega na casa onde acontecerão os shows e já monta o equipamento”, conta o vocalista e guitarrista, ressaltando que a banda fará pequenas “temporadas” em cada cidade por onde passar, a fim de reunir toda a demanda de público do local com quantos dias de apresentações forem necessários. “Entre um show e outro o palco fica armado e a gente tem tempo livre para conhecer pessoas, passear e criar.”

O ambicioso projeto do Apanhador Só também prevê a realização do terceiro disco da banda, não só porque ele será custeado com o dinheiro da venda do automóvel da turnê. “As viagens devem nos alimentar de experiências novas para a criação, o trabalho artístico do disco”, admite Kumpinski, adiantando que o próximo trabalho – previsto para o ano que vem – “não será uma reles continuação de Antes Que Tu Conte Outra”, álbum marcado pela inquietação e desconfiança.

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Até março de 2016 (pelo menos), o Apanhador Só tocará diretamente para os fãs, nas casas deles, almoçando e dormindo com eles. A turnê Na Sala de Estar é mais um passo – o mais grandioso, com certeza – numa trajetória intrinsecamente ligada à intimidade entre artista e público, dos financiamentos coletivos aos shows gratuitos em praças. Essa conexão, contudo, vai além: a banda está tão perto dos fãs que expressa em suas canções a mesma realidade vivida por eles.

“É nosso alicerce mais firme”, teoriza Kumpinski, para quem “o público é sempre responsável por ditar a carreira do artista”. “Imagino que se eu estivesse isolado em um apartamento, só preocupado em fazer canções – e subisse em um palco com a plateia esperando, ali, gritando meu nome –, eu estaria com a alma menos alimentada. Portanto, na hora de criar, acho que faria coisas menos relevantes. Certamente não o que fazemos.”