Exportando TV

A atriz Lynda Boyd, estrela da série canadense Republic of Doyle, comenta a crescente produção televisiva de seu país

Stella Rodrigues Publicado em 20/09/2011, às 17h23 - Atualizado às 17h43

Republic of Doyle
Foto: Divulgação

Os nomes Vancouver e Labrador podem remeter, para a maioria dos brasileiros, àqueles territórios cobiçados nos jogos de War. Aos mais jovens, a região é lembrada como um dos destinos preferidos dos estudantes de intercâmbio. Para a indústria de TV, trata-se de uma área canadense em processo de crescimento, com um pólo de produção bastante significativo. Estreia nesta terça, 20, na GLOBOSAT HD, a segunda temporada de um dos filhotes nascidos no local, a série Republic of Doyle.

Por muitos anos, o Canadá tinha duas ocupações, em termos de série de TV. Servia aos norte-americanos de território mais barato para abrigar as locações, com mão de obra ampla, qualificada e mais barata. O jogo virou. O Canadá, hoje com uma moeda mais forte do que o dólar norte-americano, exporta blocos inteiros de conteúdo, produções feitas por canadenses e para canadenses, para emissoras norte-americanas trabalhando no modo de economia e também para o resto do mundo.

A Rolling Stone Brasil conversou com a atriz Lynda Boyd (na foto, a segunda à direita, de casaco verde), que integra o elenco de Republic of Doyle e acompanhou de perto esse boom de produção audiovisual no Canadá. Atriz, cantora, diretora e bailarina, a artista de 50 anos – que se encaixa também no perfil daquelas apresentadoras de talk show engraçadas e falastronas, só não ocupou esse posto ainda – tem bastante experiência em toda a indústria de entretenimento canadense. “Eu cresci assistindo TV nos anos 70 e tinha um programa chamado The Rockford Files. A nossa série é uma volta aos tempos dessas atrações detetivescas. Em geral, eram programas sérios, mas com uma relação divertida entre os dois protagonistas. O pai e o filho que lideram o nosso show, na maior parte do tempo, mal se aguentam e é daí que provém a comédia”, conta Lynda.

Ela vive Rose, casada com Mal (Malachy Doyle). Ele e seu filho boa pinta e mulherengo Jake (Jake Doyle) são detetives particulares. A cada episódio, eles resolvem um caso diferente. Ou seja, não se trata de nenhuma série que irá mudar a história da televisão, mas o roteiro e os cenários têm seu charme.

“A graça é que nessa mistura de série de uma hora, investigativa, com essa família maluca, o tema apela para muito mais gente. Crianças, adolescentes e cinquentonas completamente apaixonadas pelo Jake. Todo mundo cresceu em uma família, então, é uma experiência mundial”, constata Lynda.

E é por isso que o programa está sendo exibido em quase 100 países, entrando para o time de séries canadenses – que conta com títulos como Flashpoint, Being Erica - que conquistam o mundo.

O engraçado é pensar que o Canadá e seus nativos são, desde sempre, o punchline de tantas piadas de séries norte-americanas, que ajudaram a popularizar a ideia de que os canadenses pedem desculpa em excesso e pronunciam a palavra “about” de um jeito engraçado. “Eles são aquele primo mais velho, mais legal e com mais dinheiro. Os canadenses sentem que cresceram às sombras deles. Acho que essa coisa de colocar o país em um pedestal está diminuindo. Até porque, tudo que era rodado no Canadá era maquiado para parecer que estava sendo ambientado em ‘Qualquer Lugar, EUA’."

“Quando vi parte da indústria de cinema se mudando aos poucos de Los Angeles para Vancouver, nós, atores de teatro, ficamos pensando em como entrar nisso, porque vimos que daria para ganhar muito mais dinheiro. O problema é que não estávamos desenvolvendo nossa própria identidade cultural. Viramos um substituto para Portland, Seattle, vários lugares, nunca Vancouver”, ela enfatiza.

“Fiz uma série, há alguns anos, chamada Falcon Beach, e tínhamos que rodar várias cenas duas vezes, porque venderam o programa para um canal norte-americano e eles queriam que tivesse cara de interior dos Estados Unidos. Chegamos a mudar falas também por isso, para que os dois públicos se identificassem.”

De repente, St. John’s, que nem no War estava, passou a virar um local de peregrinação com pessoas curiosas pela cidade. Embora isso seja algo comum nos Estados Unidos (para citar alguns exemplos, há, em Nova York, o tour Sex and the City e os fanáticos por David Lynch realizam um encontro anual para comer torta de cereja na lanchonete que inspirou o RR Diner, de Twin Peaks), Lynda conta que é uma novidade no Canadá. “Hoje em dia, todo mundo que vem para St. John’s, local onde acontecem as gravações de Republic of Doyle, quer dar uma passada no Duke, o bar onde tudo acontece na série.”