Cena eletrônica: tecnologia, feminilidade e beats

Cada vez mais mulheres investem na carreira de DJ, usando como base programas que facilitam a vida de quem quer produzir suas próprias músicas

Por Patrícia Colombo Publicado em 17/05/2010, às 22h28

Era uma vez um cara responsável por animar festas selecionando boas músicas. Ele ficava ali no canto, escondido. O tempo foi passando e esse profissional ganhou cada vez mais destaque no recinto, despejando toda sua personalidade no setlist escolhido com cautela, após horas e horas de pesquisa. Se antes, esse indivíduo era quase sempre do sexo masculino, agora chegou a vez delas: mulheres atuando como DJs. E produzindo suas próprias faixas.

Lisa Bueno começou a discotecar em 1996, quando tinha 15 anos. A paixão pelas matinês (os únicos eventos relacionados à música eletrônica nos quais seu RG não era barrado na porta) levou a adolescente a tentar entender como funcionava todo aquele equipamento que, junto ao talento do Disc-Jockey, era responsável por proporcionar o que procuravam os frequentadores das festas: agito. "Não havia muitas mulheres quando comecei", diz, em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil. Após anos trabalhando com música eletrônica, Lisa passou a atuar em outra área: batalhas de DJs na cena hip hop, nas quais a dificuldade técnica das manobras nos toca-discos exigiu dela muito mais treino. Posteriormente, o interesse por mais desafios a levou a integrar o mundo das produções musicais. "Toda a cena foi evoluindo. Hoje em dia, se o DJ não produz, ele acaba ficando para trás. Então, é superimportante ter as suas próprias faixas", defende.

Nessa mesma maré figura Taty Aguiar, que, tendo começado a discotecar em 2004, foi eleita pela revista especializada DJ Sound a melhor DJ do Brasil em 2008, e hoje já se vale de algumas faixas próprias lançadas no Beatport, importante canal de vendas online de música eletrônica. "A produção dá uma base para o DJ ter uma carreira internacional e melhora o nível de atuação em eventos", acredita. "Existem os que não são produtores, mas que têm nomes fortes, mas é muito difícil e hoje em dia todo mundo está produzindo." Para ela, a criação de suas próprias músicas vem como uma forma de se manter no mercado: "Você tem que trazer novidade, senão é afogado pelo sistema".

Muitos são os programas disponíveis para facilitar a produção. O Acid, da Sony, é o favorito de Taty - "Acho ele mais manual e mais prático", justifica. Segundo Dennis Rocha, professor da Academia Internacional de Música Eletrônica (a AIMEC , que atua na formação de DJs, VJs e produtores musicais), o Pro Tools ainda permanece como referência. Outro destaque é o Ableton Live. "Ele chegou depois, com uma visão diferenciada. Uma das grandes inovações dele foi ter trazido um novo conceito, sendo possível trabalhar com materiais de BPMs [batidas por minuto] diferentes de forma muito simples e intuitiva", explica, afirmando ainda que o programa é usado por DJs que trabalham mais com samples que com gravações.

Além dos softwares, Dennis acredita que se antes o produtor se valia de grandes coleções de samplers e sintetizadores analógicos em seu estúdio, hoje, basicamente um teclado controlador e uma placa de som já dão, em parte, conta do recado. "Isto se dá pelo fato de os computadores estarem rápidos o suficiente para processar uma quantidade de samples e instrumentos virtuais jamais vista", relata. Contudo, se você, ao ler esta matéria, viu surgir o interesse em entrar para o mundo das batidas eletrônicas, vá com calma: para usar apropriadamente o maquinário - hoje, em grande parte virtual - é preciso entender de música. O professor ressalta que, antes da própria produção, é necessário embasamento musical. "É preciso dissecar os elementos para compreender melhor a função de cada parte do arranjo."

A presença das mulheres neste tipo de atividade pode ainda não se igualar a dos homens em termos de números, mas tem se tornado cada vez maior. Hoje, na AIMEC, por exemplo, elas representam 20% dos alunos nas aulas de DJs, e novos formatos de cursos serão desenvolvidos como forma de atrair as garotas não só para a discotecagem, como também para a produção.

"DJeias"

Taty Aguiar, que toca diversas vertentes do house, diz ter passado por muitas situações em que teve seu profissionalismo questionado - tudo por ser mulher. "O cara quando te contrata para tocar, acha que depois vai rolar um 'after' pra ele." Ela acredita que Disc-Jockeys que se valem de insinuações sexuais durante seus sets como forma de provocar o público podem acabar deixando de lado a técnica e a preocupação com uma boa seleção sonora - integrando, junto a algumas celebridades nacionais, a leva do que seriam os "pseudo-DJs". "São pessoas que não têm conhecimento, nem cultura. Não considero concorrentes porque não têm o mesmo foco de trabalho que eu", justifica.

Quando a questão são as garotas que levam a atividade a sério, muitas têm demonstrado competência em conduzir as festas, agregando à técnica e ao conhecimento musical, o "jeitinho" feminino. "Acho que a mulher tem mais interação com o público", defende Flávia Durante, DJ responsável pela festa Make Me Up, realizada mensalmente no Alley Club, juntando moçoilas nas pick-ups e embelezamento (que inclui maquiagem e manicure) nas convidadas.

Taty conta que a DJ representa em si uma quebra de paradigma. "Quando comecei, muita gente convidava pela curiosidade de ver uma mulher tocando", lembra. Para Lisa Bueno, a - nunca descartada nestes assuntos - sensibilidade é o grande diferencial. "Ao tocar uma música que gosta muito, a gente até se emociona nos toca-discos [risos]", revela.