Centro habitado e som ruim

Noite da Virada Cultural confirmou que encher o centro é bom para a cidade; estrutura, no entanto, deixou de acompanhar qualidade dos artistas

Por Carolina Requena, Artur Tavares e Bruna Veloso Publicado em 27/04/2008, às 13h16 - Atualizado em 28/04/2008, às 10h03

Como é de hábito, Marina de La Riva agradeceu; Tom Zé pediu paciência
Natalia Bezerra/Divulgação

O centro de São Paulo está lotado de gente a pé. E é noite. E as pessoas caminham à vontade sozinhas e em grupo. O que deixa claro que a região precisa ser habitada para que se possa circular por ali. Pena que acontece só uma vez por ano.

Outra pena é que os palcos da Virada Cultural - apesar do orgulho expresso pela prefeitura da capital paulista - deixam a desejar em apuro técnico, o que se traduz em arte prejudicada.

O show de Tom Zé, na Casa das Rosas, por exemplo, não se ouvia com nitidez a cerca de 15 metros do cantor. Como ele próprio ironizou, "gente, vamos ter paciência, o pessoal do som tem uns 300 palcos pra cuidar".

Além do show do baiano, o site da RS acompanhou apresentações no palco dos independentes e o debut dos novos Mutantes. Confira:

Mundo Livre S/A, às 18h50

A banda pernambucana, pioneira na fusão do maracatu com outros gêneros musicais, abriu a noite no palco dos indies, no Pateo do Colégio, às 18h40, dez minutos antes do esperado. O vocalista Fred Zero Quatro inaugurou as caixas de som com um cavaquinho, na música "A Expressão Exata", do segundo disco da banda, Carnaval na Obra. O baixo marcado dava o tom dançante - e o público, ainda que timidamente, já começava a se soltar diante dos veteranos do movimento mangue beat. Mas foi quando ele trocou o cavaquinho por uma guitarra no "Melô das Musas" que a platéia mais próxima do palco se animou, mantendo o clima nas seguintes "Computadores Fazem Arte" (conhecida na voz de Chico Science) e "Meu Esquema". Pena que no finalzinho do show o som da guitarra de Bactéria Maresia estourou, provocando uma confusão sonora da qual só escapava a zabumba. Zero Quatro fez questão de agradecer a recepção calorosa do público paulistano. "Quando marcaram nossa apresentação aqui, pensamos que ia estar vazio por ser a abertura. A gente ficou meio amoado...Mas é uma noite inesquecível, uma das nossas melhores em SP". Apesar do som baixo. (Bruna Veloso)

Vanguart, às 20h30

A banda de Cuiabá mostrou empolgação durante a meia hora em que esteve no palco. Pena que não dá para dizer o mesmo de quem assistia ao show, também no Pateo. Em uma ou outra rodinha, algumas pessoas cantavam junto, mas a maioria dos que estavam ali parecia disperso. A qualidade técnica do som também não ajudou - na primeira música, "Cachaça", ficou difícil entender o vocalista Helio Flanders. O público se mexeu mais em "Hey Lo Silver" e "Semáforo". (Bruna Veloso)

Daniel Ganjaman, às 21h

O produtor e integrante do coletivo Instituto discotecou um fino set com muito raggamuffin, dub, reggae, pop e até um pouco de funk, com uma constante batida dançante de base. Nas pickups, só mulheres soltavam a voz. Para o público desavisado, Ganjaman ainda tocou Gwen Stefani e M.I.A. A subida da Rua Quintino Bocaiuva, vazia no começo da apresentação, aos poucos foi se enchendo. E a dança correu solta. (Artur Tavares)

Marina de La Riva, às 22h

A cantora carioca subiu ao Palco das Meninas, na Av. Ipiranga, para realizar uma espécie de ritual de sedução com o público. Durante todo tempo ela dançou, mexeu na saia do vestido e bateu palmas como uma dançarina flamenca. Para completar, enalteceu sem economia a iniciativa do evento e acariciou o ego coletivo da platéia com diversos elogios no decorrer show. Todos no palco vestiam preto - de branco, só as flores no cabelo de Marina. "Central Constancia", de Enrique Jorrín, foi a primeira de várias canções cubanas apresentadas pela cantora. Em "Veinte Años", bolero de Maria Teresa Vera, ela posa, faz cara de sofrimento e ganha o público de vez. Com "Adivinha o quê", de Lulu Santos, "Adeus Maria Fulô" (que Marina mistura com "La Chancletera") e "Bloco do Prazer", o povo se animou pra dançar. No final, a cantora repetiu "Adeus Maria...". "Posso fazer uma que a gente já fez? É a que vocês mais dançaram". Começou a música e pediu que todo mundo dançasse novamente - o público, retribuindo o trabalho da ótima banda que acompanha Marina (e embasbacado com os trejeitos da cantora), obedeceu sem pestanejar. Longas palmas ao final. (Bruna Veloso)

Trilöbit, às 22h10

No Pateo, era a vez de os paranaenses do Trilöbit tocarem, e logo em seguida dos acreanos do Los Porongas. Caracterizados como ETs a lá Ziggy Stardust, o quarteto do sul do país fez um instrumental de primeira, com uma discotecagem de rock industrial (como Prodigy e Aphex Twin), misturado com uma cozinha de baixo, guitarra e bateria bem pesada, beirando o metal. O destaque fica para o guitarrista Nosferatu, que em sua língua intergaláctica dizia ao público "Hadouken!", "Tatsumaki Senpuukyaku!". A platéia recebia os golpes do personagem Ryu, de Street Fighter, com muito bom humor. (Artur Tavares)

Los Poronga, às 23h

Já o Los Poronga entrou em um clima mais soturno, com um som puxado para o hard core, mas muito influenciado pela crueza do grunge, e também dos vocais gritados. O público estava mais disperso, mas fiel aos artistas. Embora o Pateo do Colégio seja um dos mais belos locais onde foi montado um palco, a forte iluminação dos pequenos postes na frente da Secretaria de Justiça e do Museu Anchieta prejudicou a atuação de artistas como o Los Poronga no palco. (Artur Tavares)

Tom Zé, às 23h

Um palco pequenino, montado no quintal da Casa das Rosas, na Avenida Paulista, recebeu Tom Zé e banda pontualmente. O cantor começou sem microfone. Quando o som apareceu, mandou logo "Dois Mil e Um", dos Mutantes, mostrando o vigor que dedicaria à pouco mais de uma hora de apresentação. Antes da segunda canção, porém, um coro vindo do fundo do pequeno espaço reclamava que não conseguia ouvir, enquanto um moço com cara feia me pedia licença pra sair. Tom Zé, pra não perder a noite, brincou: "Gente, vamos ter paciência, o pessoal do som tem uns 300 palcos pra cuidar". O - incômodo - chiado em seu microfone permaneceu, e a luz de que ele precisava para sua vigorosa performance - aos 72 e vivendo "de vocês, que são meus filhos e netos, minha arte!" - precisou ser apontada e convocada durante todo o show. Quem ficou, ouviu as engenhosas "Fliperama", "Jimi Renda-se" e "Cademar", além das político-divertidas "Companheiro Bush" e "Defeito 3: Politicar" e da "clássica" "Augusta", de que o autor tanto se orgulha. No bis, "Defeito 14: Xiquexique" e "Moeda Falsa". (Carolina Requena)

Black Rio, (marcado para) 0h

Estava marcado para meia-noite um show da Banda Black Rio no palco da Praça Ulysses Guimarães, no Pq. Dom Pedro, palco que concentrou o rap e o hip-hop. Para evitar conflitos entre o público e a polícia (no ano passado, houve quebra-quebra durante a apresentação dos Racionais), a organização da Virada isolou o público destes gêneros musicais em um local que só era acessível por metrô. Além disso, a Praça Ulysses Guimarães fica a duas quadras da estação de metrô do Pq. Dom Pedro, e, próximo da meia-noite, era um caminho escuro, desabitado pela massa concentrada mais ao centro, e sem nenhum policiamento. Além disso, colocou na entrada da praça uma revista com policiais militares, que não pouparam os interessados das revistas mais intrusivas. Se, em 2007, o atraso dos Racionais foi tido como uma das razões para a confusão, neste ano, no Pq. Dom Pedro, as atrações seguiam entrando depois do horário previsto, enquanto que em outros palcos havia pontualidade, ou até mesmo adiantamento. Com quarenta minutos de atraso, Thaíde ainda apareceu para acalmar a platéia. Mas não dava mais para esperar - outras dezenas de shows aconteciam naquele exato momento. (Artur Tavares)

Macaco Bong, à 1h30

O Macaco Bong, de Cuiabá, foi a sensação da noite no palco dos independentes, uma jóia que não poderia ser perdida por qualquer pessoa no centro da cidade nesta noite. O trio chegou com muita energia, lotou a platéia e arrancou fortes aplausos. A guitarra veio forte na distorção e nos riffs, parecendo uma onda que, junto com o potente som do baixo de cinco cordas, criava uma atmosfera envolvente no local. A bateria destoava por sua força e ritmo, e principalmente por sua rapidez. Instrumental, o grupo consagrou uma noite de músicas sem palavras, e mesmo assim de grande qualidade, na Virada Cultural, e mostrando a diversidade do circuito independente. (Artur Tavares)

Mutantes, às 3h

A pé, o caminho do Pateo do Colégio até o cruzamento da Aurora com a São João demora uns 20 minutos. Parar pra tomar um lanche nem pensar. As filas nos bares abertos no centro por volta das 2h30 de domingo eram imensas (confira post no blog). Se as filas eram ruins, pior era o tamanho da platéia e a qualidade do som no palco principal do evento. Dos Mutantes, a reportagem só viu Sérgio Dias e a nova vocalista, Bia Mendes, que, a exemplo da última quinta-feira, quando a banda apresentou sua nova música para a imprensa, deixou a desejar na apresentação. Os elogios ficam guardados para a banda, que trouxe de volta a sonoridade psicodélica ao grupo. As guitarras estavam distorcidas, enquanto uma combinação de percussões e efeitos sonoros completavam a base do show. A viagem de volta aos anos 70 no palco inspirou o grande público do show a entrar no clima. Grandes rodas de pessoas dançavam de olhos fechados, acompanhando em coro os distantes vocais vindos das caixas de som. Os melhores momentos dos Mutantes foram nas músicas "Top Top" e "Ando Meio Desligado", embora o público tenha recebido bem a primeira canção do grupo em 34 anos, "Mutantes Depois". (Artur Tavares)

Neste domingo, o site da RS traz mais notícias da Virada Cultural.