Com doçura punk, Kate Nash faz show explosivo em São Paulo

Edição do Festival Cultura Inglesa foi realizada no Memorial da América Latina e teve ainda a música agridoce do The Magic Numbers

Pedro Antunes Publicado em 24/06/2013, às 00h11 - Atualizado em 23/05/2014, às 19h47

Kate Nash mostrou uma evolução como performer desde a última passagem pelo Brasil, em 2011. A cantora chamou o público para o palco em “Underestimate The Girl”.
Divulgação / Festival Cultura Inglesa

A garota raivosa Kate Nash e o quarteto fofo do The Magic Numbers estão em cantos opostos das prateleiras do rock, mas eles ainda dividem um ponto em comum e justificam a participação de ambos no encerramento da 17ª edição do Festival Cultura Inglesa por algo muito maior do que o simples fato de todos serem britânicos - no caso do grupo, não são todos os integrantes a nascerem na Inglaterra, mas a banda foi criada lá.

O evento gratuito realizado neste domingo, 23, durante todo o dia, no Memorial da América Latina, localizado na zona oeste de São Paulo, foi marcado por uma música agridoce produzida por Kate e pela banda formada por dois casais de irmãos.

Depois de duas edições realizadas no Parque Independência, na zona sul, o festival encontrou uma nova casa no Memorial. Um espaço pouquíssimo utilizado para shows internacionais, mas que mostrou potencial. Além de fácil acesso (é localizado ao lado de uma estação de metrô), o local se mostrou bastante eficiente para comportar o público. De acordo com a organização, foram 10,3 mil presentes – além da estimativa de outras 12,4 mil que acompanharam pela internet, através dos canais oficiais.

Da parte do The Magic Numbers, que subiu ao palco pontualmente às 17h30, a fofura (sonora e física) dos quatro integrantes maquia a melancolia dos versos. É uma curiosa experiência assimilar os arranjos bem encaixados e perceber que, por baixo de uma harmonia suave como a brisa daquele fim de tarde paulistano, estão escondidos alguns corações partidos e desilusões amorosas.

Os irmãos Romeo Stodart (voz e guitarra principal) e Michele (voz e baixo), Angela Gannon (voz e teclado) e Sean (bateria) tocaram por pouco mais de uma hora. Foram 12 canções que mostraram essa união entre doce e azedo. “This is a Song”, escolhida para a abertura, é um bom exemplo disso. “And if it hurts me baby you know why / I go it alone / Hurt me baby if you like / It's already gone” (em tradução livre: “e se doer, baby, você sabe o motivo / eu estou sozinho / machuque-me, baby, se você quiser / você já se foi”), canta Romeo na música que abre o segundo disco do grupo, Those the Brokes (2008). São versos tristes, que expõe uma solidão dura, mas estão escondidos pela voz gentil de Romeo, que na verdade nasceu em Trinidad e Tobago, entrelaçada pelo backing vocal de Angela e Michele.

Eles bebem de harmonias de pop sessentista como The Mamas & The Papas, unindo a doçura a um experimentalismo que se assemelha às canções mais doces de Flaming Lips, e acrescentam pitadas de folk e country. “É bom estar aqui. Já faz muito tempo desde que viemos”, disse o simpático e sorridente Romeo ao microfone. A última passagem do The Magic Numbers por São Paulo foi em 2007, no finado Via Funchal, como atração do festival Indie Rock. Na ocasião, diga-se de passagem, eles também abriram a apresentação com “This is a Song”.

Naquela noite de 2007, os fãs declarados de Caetano Veloso, eles executaram “Baby”, composição do baiano famosa com Os Mutantes. Desta vez, a homenagem a Caê foi com “You Don’t Know Me”, faixa de abertura de Transa, álbum que comemorou 40 anos em 2012. O disco, aliás, foi gravado em Londres, durante o período de exílio de Caetano. O músico Marcelo Jeneci foi convidado para subir ao palco e, com a sanfona em mãos, entrou no coro dos irmãos Stodart e Gannon. A música foi gravada pela banda em um recente álbum em tributo ao cantor e compositor, que ainda teve Devendra Benhart, Rodrigo Amarante, entre outros artistas.

A apresentação também teve uma novidade, a inédita “Shot in The Dark”, que estará no próximo disco do quarteto, ainda sem nome. Ela aponta para um álbum mais roqueiro, cheio de guitarras, se comparado aos outros três trabalhos da discografia deles.

Foi com os hits, contudo, que eles ganharam verdadeiramente o público. São canções fáceis de cantarolar, com os tais refrães dóceis e sentimentais. Vieram “Take a Chance”, “Forever Lost”, “Love is Just a Game” e “I See You, You See Me”. Com “Mornings Eleven”, eles encerram o show. “I had it all / But I never thought I did” (“eu tive tudo/ mas nunca achei que tivesse”), cantam eles no fim. Tristes, certo? Diante de tanta fofura, por sua vez, é impossível não ficar com um sorriso no rosto.

A catarse de Kate Nash

É este o ponto de intersecção entre Kate Nash e The Magic Numbers. Ainda que a inglesa tenha chegado aos 25 anos menos fofa e mais sonoramente mais agressiva, ela também esconde amargura entre tanta doçura. Assim que subiu ao palco, às 19h30, os presentes no festival sentiram o contraste. “Sister”, do mais recente álbum dela, Girl Talk (2013), ganhou uma versão ainda mais punk do que no estúdio. Kate abriu o show tocando baixo e cantando. Energia pura fluindo daquele rosto delicado e de corpo envolto por um vestido cinza e uma bandeira do Brasil amarada no pescoço, como uma capa.

Kate esteve recentemente em São Paulo. Foi em 2011, no HSBC Brasil. Naquela época, ela estava em um período de transição, exposto somente neste ano, quando saiu o terceiro disco da moça. No palco, ela evoluiu imensamente. A cantora saiu de trás do teclado e pôs-se diante do público tocando baixo (mais barulhento do que melódico, é verdade), guitarra, ou simplesmente com o microfone. Ela citou a passagem pelo Brasil como transformadora. “Percebi que estava cercada de pessoas ruins”, disse ela, entre vários “eu amo vocês” e “obrigado”, em português e inglês.

Mais livre, ela se viu solta para chegar bem perto do público, descendo do palco e saltitando de uma lateral a outra. Em dado momento, Kate chamou um garoto para se juntar a ela e à banda, no palco. Ele mostrou uma tatuagem com o rosto dela no antebraço e ganhou, como prêmio, a chance de assistir à apresentação na lateral do palco. Já no fim do show, ela chamou cerca de duas dezenas de garotos e garotas para a execução de “Underestimate The Girl”.

Kate Nash passou como um furação punk pelo Memorial da América Latina. Mesmo as canções da fase mais fofa, como “Foundations”, “Do-Wah-Do”, “Take Me To a Higher Plane”, “Kiss That Grrrl”, “Mariella” e “Paris”, misturavam-se com as músicas mais recentes de maneira objetiva: guitarras e baixo acelerados e vocais altos e gritados.

Com isso, “Death Proof”, “OMYGOD”, “Fri-End?”, não pareceram peixes fora d’água dentro do repertório. Falante, Kate Nash contou a história por trás de “Girl Gang”, uma cover mais puritana de “Cocaine”, da banda Fidlar. “Todos vocês fazem parte da minha gangue de meninas. Até vocês, garotos, fazem parte dela”, anunciou a cantora. O show só amansou, mesmo, com “Don’t You Want To Share The Guilt?”, de My Best Friend Is You (2010).

Kate Nash compõe de forma simples, faz rimas curiosas e descreve o quão complicados podem ser os relacionamentos quando se é jovem: inseguranças e explosões de alegria são colocados em um mesmo liquidificador e misturadas até não se conseguir mais distinguir umas da outras. E, por isso, ela encanta.

É como em “Birds”, última música do bis, executada após o hit “We Get On”. Nela, a inglesa conta, em versos, a história do reencontro de dois jovens e a tentativa, meio sem jeito, dele em tenta explicar o quanto gosta dela. Depois de uma série de exemplos mal sucedidos, a garota enfim entente. “Valeu. Eu gosto de você também”. E ele responde: “Legal”. Debaixo da performance punk, ainda há uma garota doce em Kate Nash – em partes, pelo menos.