Como Mick Jagger aprendeu a dançar – por seu irmão, Chris Jagger

A história de onde o Rolling Stone conseguiu seu molejo e o que Mick acha do videoclipe de “Moves Like Jagger”, do Maroon 5

CHRISTOPHER JAGGER - Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 17/12/2012, às 09h25 - Atualizado às 22h18

Mick Jagger
AP

O que, para mim, separou os Rolling Stones das outras bandas da época em Londres, como o Yardbirds ou até mesmo os Beatles, era sua movimentação de palco, graças, em boa parte, aos giros de Mick, que até hoje têm um status lendário como movimentos próprios. Talvez não seja um Fred Astaire, mas com certeza é um estímulo para todos nós dançarmos e nos mexermos, pois é uma grande liberdade para nossos corpos, presos em nossas próprias inibições e incapacidade de seguir o ritmo.

Como os Stones começaram como uma banda para dançar, achei que poderia ser adequado, dado o interesse recente em programas de TV sobre dança, ver a conexão de Mick com essa arte e o que o faz se mexer. Eu me lembro de uma cena, há muitos anos, no chamado Crawdaddy Club, em Richmond. Os principais grupos tinham seus próprios fãs-clubes e exibiam vários passos novos todo domingo à noite, quando a banda se apresentava lá. Mesmo se você só conseguisse ver a cabeça de cada um sobre aquele palco minúsculo, a ação principal estava na pista, e o trabalho dos Rolling Stones era dar música para os dançarinos.

As coisas mudaram desde então; em um show em Wembley, estava sentado no velho “camarote real” quando a banda entrou e, tentando avivar meu próprio envolvimento, levantei e comecei a dançar. “Senta!”, foi o grito vindo de trás, dado por algum espectador rico. Pensei naquilo por um segundo e, então, continuei. É para ser um show de rock, não uma peça de Shakespeare, imaginei.

Consegui trocar algumas palavras com meu irmão mais velho e ocupado depois de um longo dia no escritório (quer dizer, salas de ensaio), em Paris. Naturalmente, voltei para o ponto básico e perguntei sobre onde a dança começou.

"A mamãe tentou me ensinar, e dançávamos valsa na sala ao som de Victor Sylvester", ele se lembra com carinho. "Ele se apresentava no programa Light Programme, dando instruções, e então percorríamos a sala tentando os passos, e eu tentava não pisar nos pés dela."

"Como você era?", perguntei. "Inútil", relembra. "Não era realmente o meu negócio. Achava complicado demais. Então, nas noites de quinta, ia de bicicleta até o clube juvenil em Crayford, onde faziam danças escocesas em fileiras e um negócio, sabe, para pegar uma parceira, e isso era mais divertido. Acho que também ouvi polca, foxtrote e quickstep – todos os ritmos que mamãe e papai dançavam quando iam a eventos locais."

Devo acrescentar que nossa mãe era uma ótima dançarina, e papai não era tão ruim assim. Na época, conseguir dançar em passos rápido-rápido-lento era uma necessidade para um rapaz, a não ser que você quisesse ser ignorado. Era a única chance de conhecer e tocar uma garota.

No entanto, Mick se lembra com algum horror dos bailes da escola: “Era de arrepiar de tão embaraçoso. Você chamava as garotas da escola de gramática local para dançar, o que era difícil o suficiente porque elas ficavam sentadas, e elas diziam ‘já tenho um parceiro’, então você ficava tremendamente corado e seguia em frente. Por sorte, era só uma vez por ano. Dançar em fileiras no clube juvenil era mais divertido."

De repente, toda a cultura pré-guerra foi destruída pelo que veio a seguir – o jive e o twist e todas as danças loucas que vieram depois. "O jive não era permitido na maioria dos salões de baile”, lembra Mick. "Eles o baniram, embora existisse desde a guerra. Era visto como vulgar demais, mas sem dúvida era mais divertido, e você podia dançar ao som de gente como Little Richard."

Pulando o Charleston (que lembro que nossa mãe me ensinou) e o Black Bottom, Mick menciona a primeira grande loucura, o cha-cha-cha. "Era tremendo naquela época, e a música latina era muito popular. Quem pode esquecer Edmundo Ross, um dos preferidos da mamãe? Então surgiu o twist, que mudou tudo, porque era o primeiro ritmo que você dançava sozinho. Era um esforço solo e o pioneiro das danças de hoje."

"Depois houve o Bunny Hop, em que você balançava os cotovelos e pulava. Lembro que Eric Clapton e seus amigos faziam isso! Também não dá para esquecer o macaco, a galinha ou o hand jive. O que me influenciou mais foi ir ao clube de ska/bluebeat perto da Saville Row, no centro de Londres, porque lá o pessoal das Índias Ocidentais se mexia de um jeito completamente diferente, e incorporei alguma coisa disso no que estava começando a fazer no palco com a banda."

"Então, viajamos para os Estados Unidos e vimos o James Brown no Apollo Theatre em Nova York, e isso foi uma influência enorme. Não eram só os movimentos que ele fazia – era a energia que colocava naquilo, que era incrível. Não parecia ser uma coreografia em si. Todos dançavam. Quem foi mais influente para mim, de várias maneiras, foi Little Richard, mas era se mexer mais do que dançar, gesticulação e interpretação. A dança está naquilo, mas o grande negócio é que a dança e as batidas são a conexão total, e é muito antigo e primitivo, no melhor sentido da palavra. O som dos tambores e a batida dos pés têm centenas de milhares de anos. Batidas e dança, a interpretação do ritmo, deve ser a expressão mais antiga e primal do espírito humano – você é o dançarino e o baterista. James Brown estava totalmente nessa. Ele e o baterista estavam em sincronia total. Era óbvio quando você os via. De sua forma mais expressiva, você via danças africanas, indianas. Tenho de estar junto com Charlie Watts, que está ciente disso. Se ele não faz o que meus pés estão fazendo, não funciona. Obviamente, os outros instrumentos entram nisso. Apresentar-se tem tudo a ver com interpretar a música e a batida que está te impulsionando."

Ensaiando em Paris, Mick diz que se diverte ao ir a um estúdio de dança cerca de três vezes por semana e se exercitar por volta de uma hora, o que o deixa bem em forma. “Não dá para ensaiar o suficiente”, diz. “É como um time de futebol."

Isso me leva a uma última pergunta, sobre o vídeo de "Moves like Jagger", do Maroon 5. "É bom, não é?" pergunta. "Claro que fiquei muito envaidecido com ele, e é bom ver as conexões entre gerações, porque usei isso na minha época também."