Cranberries toca hits noventistas em São Paulo

Dolores O'Riordan mostrou na noite desta sexta, 29, que duas décadas depois, sua voz e seu pique continuam os mesmos

Por Patrícia Colombo Publicado em 30/01/2010, às 14h33 - Atualizado em 15/01/2018, às 16h56

Dolores O'Riordan não aparenta ter muito mais que 1,60m de altura, mas sua presença de palco é digna de uma gigante. Com destaque para a vocalista e para os grandes sucessos, o Cranberries realizou sua apresentação em São Paulo, no Credicard Hall, na noite desta sexta-feira, 29. Este foi o segundo show da banda irlandesa no Brasil, após ter tocado no Rio de Janeiro no dia anterior, trazendo a Reunion Tour.

Foi a partir das 22h20 que o público que lotou a casa de shows paulistana foi transportado para os anos 90 - e erra quem pensa que o sentimento de nostalgia, no aspecto chato e massante, tomou conta do recinto. A frontwoman Dolores O'Riordan assumiu o microfone mostrando que o tempo pode ter passado, mas que ele foi incapaz de desgastar sua tão característica voz. Como há anos se ouvia nas gravações e nas transmissões de apresentações ao vivo da banda mundo afora, O'Riordan é a mesma: cheia de atitude, afinada e carismática. Ela pode já ter vindo ao país para shows solo, mas foi nesta noite de sexta que os fãs conseguiram sentir para valer o porquê de o Cranberries ter sido uma das bandas de destaque durante a década passada - e, sobretudo, compreender o motivo de falar que a alma dos shows do grupo está na vocalista, já que os demais integrantes não fazem o estilo de músicos que se valem de grande interação com o público, concentrando as performances somente em seus instrumentos.

Além da presença de palco da cantora, o setlist não decepcionou os apaixonados pelos grandes sucessos da banda. "How", que integra o primeiro álbum, Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We?, de 1993, abriu a noite, ao som dos gritos da plateia composta, em sua maioria, por quase trintões que tiveram uma porção significativa de músicas do Cranberries na trilha sonora de sua adolescência. "Animal Instinct" foi executada na sequência, mas o primeiro momento de comoção intensa ocorreu quando "Linger", provavelmente o hit máximo da banda, foi tocada, sob uma iluminação verde e azul. Em seguida, Dolores assume o violão para "Ordinary Day", música que faz parte de seu álbum solo Are You Listening?, lançado em 2007 e responsável pela vinda da cantora naquele mesmo ano ao Brasil. Ao longo da noite, ela conversou com o público, fazendo breves comentários sobre algumas das músicas que seriam em seguida executadas, além de inúmeras vezes ceder o microfone à plateia, para que esta cantasse junto a ela. Em um dos momentos da apresentação, baixo, teclado e bateria deram início à "Pretty", que foi encerrada com uma mensagem de Dolores: "Falo pra valer, meninas! Vocês são lindas do jeito que são", fazendo referência à letra da música - sim, um pouco clichê, mas ainda assim graciosa. "Ode to My Family", outro hit da banda, foi cantada em coro, com direito a braços estendidos e descida da vocalista do palco até a grade que a separava dos fãs.

"Daffodil Lament", "I Can't Be With You", "Switch Off the Moment" e "Waltzing Back" também foram algumas das canções que figuraram no setlist. A sequência das baladas "You and Me", "Dreaming my Dreams" e "When You're Gone" satisfizeram a plateia tanto quanto o trio mais pesado composto por "Salvation", "Ridiculous Thoughts" e "Zombie", que encerrou o show com classe antes do bis. Este, então, teve início com "Empty" que, como na versão original, um pouco mais voltada ao acústico, fez uso de violão e bongô. Em "The Journey" (que integra o mais recente disco solo da cantora, No Baggage, de 2009), Dolores brincou com as bexigas vermelhas que foram trazidas por algumas pessoas que estavam na pista VIP. "Promises" foi executada, e, como a última canção do show, o Cranberries optou pela também ultra-sucesso "Dreams".

Não havia grande riqueza tecnológica em termos de efeitos durante o show. Era tudo muito simples: luzes coloridas e um enorme pano amassado. Todavia, com a postura vigorosa da vocalista e com seus competentes companheiros de banda, quaisquer detalhes de natureza estética no palco passariam praticamente despercebidos. Neste show, os fãs puderam presenciar uma Dolores O'Riordan que, apesar de tê-los feito esperar durante anos para vir ao Brasil com o grupo com o qual ficou mundialmente conhecida, continua cheia de atitude, gestos e com uma voz ainda poderosa, levando a crer (com convicção fortalecida) que playback em apresentações ao vivo é, de fato, coisa para os fracos.