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Daniel Johnston encontra o amor em apresentação calorosa

Herói indie diagnosticado com esquizofrenia e transtorno bipolar faz show emocionante nesta sexta-feira, 26

Pedro Antunes Publicado em 27/04/2013, às 08h24 - Atualizado às 15h16

Daniel Johnston se apresentou no Beco 203

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Frágil, ele treme. Canta encurvado sobre um cavalete onde estão as letras das próprias canções. Desafina. Sorri, inocente como uma criança, entre goles de Coca-Cola. Herói de Kurt Cobain, Beck, Wilco, Daniel Johnston tocou pela primeira vez em São Paulo, como a 20ª atração do festival Popload Gig, na noite desta sexta-feira, 26. Foram 53 preciosos minutos de um show cheio de doçura no Beco 203, localizado na Rua Augusta, em São Paulo.

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Aos 52 anos, o músico é uma lenda da música indie, um talento que se perdeu dentro de si, diagnosticado com esquizofrenia e transtorno bipolar. Naquela noite, contudo, Daniel aparentava estar bem. “Posso pegar essa guitarra emprestado?”, perguntou ele ao roadie que subiu ao palco com ele, com 30 minutos de atraso, às 22h. Com ela e só diante do público que se amontoava a sua frente, ele deu início ao show vacilante.

Daniel Johnston nunca foi um exímio guitarrista e, diante de tamanha veneração, encolheu-se ainda mais. A voz saiu escorregadia em “Mask”, enquanto a mão direita deslizava pelas cordas do instrumento sem muito ritmo. O público se manteve silêncio. Alguém, do lado esquerdo, gritou de forma desrespeitosa: “Aprende a tocar!”. Mas foi repreendido pelo resto. Ao fim dos dois minutos de duração da canção, o silêncio do lado de cá tornou-se ovação e palmas. Todos ali queriam a mesma coisa, afinal: que Daniel se sentisse confortável, em casa, mesmo em um país que lhe era estranho. Depois de “There Is A Sense Of Humour Way Beyond”, o músico avisou: “vou sair agora, mas voltaremos com a banda”.

Ao lado do grupo, formado por músicos brasileiros, aliás, Daniel se agigantou, confiante. “Go”, regravada por Flaming Lips, deu início a essa segunda fase da apresentação. Foi seguida por “Casper The Friendly Ghost”, introduzida pelo músico como “nosso personagem favorito dos quadrinhos”.

A vida Daniel Johnston foi retratada no documentário The Devil and Daniel Johnston, de 2005. O projeto do diretor Jeff Feuerzeig, que lhe garantiu o prêmio no festival de cinema Sundance, mostrou a trajetória triste do músico, de um adolescente que sempre perseguiu a vida artística, com ilustrações, filmes e músicas, passando pela degradação mental.

Quando Kurt Cobain passou a usar a camiseta com a famosa ilustração que estampava a fita cassete de Hi, How Are You (1983), por exemplo, Daniel estava internado em uma clínica psiquiátrica, depois de uma série de casos que colocavam em jogo a sanidade do músico: ele acertou um amigo com um cano, desligou um avião monomotor em pleno voo, pilotado pelo pai, entre outros. Na época, no início dos anos 90, a gravadora Elektra ofereceu um contrato milionário a ele, mas Daniel não aceitou por achar que a banda Metallica, integrante do casting do selo, era demoníaca e queria matá-lo.

Nada disso, contudo, impediu que a lenda de Daniel Johnson crescesse. Um garoto que criado em West Virginia, nos Estados Unidos, que chegou a Austin, no Texas, no início dos anos 80 para morar com o irmão. Sentado diante do órgão do sobrinho, montado em um estúdio improvisado na garagem, Daniel gravou álbuns como Yip/Jump Music e Hi, How Are You. Cada fita cassete que ele entregava a pessoas e jornalistas era gravada ao vivo, faixa por faixa, em sequência. A fama de Daniel Johnston cresceu de forma viral, do boca-a-boca.

O combustível para suas composições, pequenas preciosidades pop, cruas e dolorosas, foi o amor impossível. Uma garota dos tempos de colégio, a obsessão da vida dele que nunca retribuiu o mesmo sentimento. É sempre para ela que ele canta, compõe e sofre. Daniel traduz a dor em sua arte crua, imperfeita e puramente humana.

Já na metade da apresentação, o público se solta. Havia uma certa apreensão no ar, uma dúvida de como se portar diante do músico, mas “Don't Let the Sun Go Down on Your Grievances” e “Life in Vain”, quinta e sexta músicas do repertório, são cantadas em coro, por Daniel e pelos presentes no Beco 203.

Daniel pergunta qual música o público gostaria de ouvir e recebe pedidos por “Love is Not Dead”. “Claro!”, diz ele, mas é avisado por um integrante da banda, no microfone, que a canção não foi ensaiada. Eles passam para “Hey Joe”, de Hi, How Are You.

“Speeding Motorcycle” e “Rock’n’Roll / EGA” são as faixas mais roqueiras da apresentação. Enquanto em “Walking The Cow”, Daniel canta o seu tormento em um mundo confuso.

“True Love Will Find You In The End”, do disco 1990, encerra o show em catarse: uma prece otimista, uma luz dentro da escuridão de tormentos. “Não desista até encontrá-lo”, canta Daniel sobre a eterna busca pelo amor verdadeiro. Mais uma música para ela, é claro. O bis vem com “Devil Town”, também de 1990. Com esta, Daniel Johnston exorciza seus demônios, que passaram a ser vistos por ele com frequência depois que experimentou LSD, em Austin, no fim dos anos 80.

A apresentação, que previamente havia sido marcada para março, mas que foi cancelada e remarcada por motivos de saúde, chegou ao fim em menos de uma hora. Uma performance curta, intensa e chorosa. Daniel Johnston se vai com passos curtos e vacilantes, aplaudido e feliz. É reverenciado até hoje pela mente capaz criar canções como se fossem pérolas que levam qualquer um às lágrimas: a dor envolvida de beleza. A mesma mente que o desgovernou. Um gênio derrotado pela própria genialidade.