De Belém para o mundo: conheça Stella Rocha, a atriz transexual brasileira que parou Cannes

Intérprete está no longa-metragem Love, de Gaspar Noé, que estreia em 10 de setembro no Brasil

Lucas Borges Publicado em 04/09/2015, às 13h38 - Atualizado em 08/09/2015, às 11h58

A atriz brasileira Stella Rocha, em Cannes para a exibição de Love

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Uma atriz brasileira virou notícia no mundo todo após uma ousada aparição no tapete vermelho de Cannes durante a edição deste ano do festival. “Stella Rocha ofusca o mundo todo”, escreveu o Huffington Post. “Sensação na Croisette”, publicou a Marie Claire a respeito do desfile da intérprete transexual na Riviera Francesa com um vestido praticamente transparente.

Stella esteve presente no mais glamouroso evento do cinema mundial como parte do elenco de

Love, o mais recente filme do diretor Gaspar Noé (Irreversível). A repercussão de Love e de suas cenas de sexo explícito em 3D já chegou ao Brasil, onde o longa-metragem estreará no próximo 10 de setembro. Independente disso ou das manchetes sobre Cannes, Stella segue desconhecida em seu país.

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Paraense de Belém, a artista deixou o país em meados dos anos 1990, aos 16 anos, para viver em Paris, onde estudou dramaturgia. Começou no cinema em 2001 com L'ex-Femme de ma Vie, ao lado da renomada atriz Joseane Balasko, e entrou para o teatro trabalhando com Laurent Baffie (cuja peça Toc Toc esteve em cartaz em São Paulo em 2014). Com Baffie, também participou de programas de entrevistas no estilo Ana Maria Braga, ciceroneando celebridades para conversas descontraídas durante jantares ou em bares, com drinques na mão.

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“Comediante de profissão, ela é uma transexual franco-brasileira relativamente conhecida no meio. Ela mesma representou a França no concurso Miss International Queen 2010”, definiu ainda a revista Marie Claire. Além disso, Stella é a animadora das noites do bar Banana Café, em Paris, por meio do qual foi encontrada pela produção de Love. Ela interpreta uma cena de sexo ao lado do casal protagonista do filme, vivido por Aomi Muyock (Electra) e Karl Gusman (Murphy).

As gravações duraram mais de quatro horas, mas apenas alguns minutos foram incluídos na película. O que está no enredo ainda teria sido contestado pela produção do longa antes da exibição em Cannes e só acabou entrando na versão exibida para o público festival porque Gaspar Noé "bateu o pé".

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Levando-se em conta a realidade de um grande número de brasileiros trans na Europa – “A própria sociedade não dá muita solução para as meninas e a única coisa que elas podem fazer é se prostituir”, admite Stella em entrevista à Rolling Stone Brasil –, a paraense pode dizer que venceu.

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“Meu pai era delegado de polícia e minha mãe era católica conservadora. Quando teve aquele conflito de eu, jovem, dizer o que realmente queria ser, foi muito difícil e chocante para eles”, ela conta. “Com 16 anos participei de um concurso de beleza em Belém, o Miss Universo, e ganhei representando o Brasil. Tudo isso escondido da família. Voltei toda feliz para casa pensando que tinha tirado toda a maquiagem e quando acordei foi um escândalo. Alguém da minha rua também me reconheceu e espalhou para todo mundo”.

“Caiu no ouvido da minha mãe, do meu pai. Estava mesmo sufocada com aquilo tudo e disse que era isso mesmo. Elas já sabiam, tinham percebido, mas não era nem por eles. Não queriam aceitar pelo que a vizinhança ia dizer: ‘O filho do delegado Barreto é viado’. A família inteira do meu pai era de policiais. Não me expulsaram, mas me prenderam muito. Só ia da escola para casa, estava proibida de ver meus amigos”.

Stella, então, decidiu tentar a sorte em Paris com a ajuda de três irmãs que já viviam lá. Enfrentou preconceito (menor do que no Brasil, mas também latente, ela conta), mas se estabeleceu na Cidade Luz. Hoje, é cidadã brasileira e francesa e ostenta no passaporte o nome feminino que escolheu para si.

“Ganhei o mundo e ganhei minha vida. Mostrei para a minha família que não é só porque a gente é transexual que a gente tem que ‘fazer pista’. Eles estiveram aqui em Paris quando eu estava no teatro, em 2009, no Palais Royale. Tive o grande prazer de recebê-los. Eles choraram, me abraçaram, me beijaram e disseram: ‘Meu filho, te amo demais, temos orgulho de você’”, conta, emocionada.

A repercussão de Love e de Cannes começa a render bons frutos para a atriz. Ela deve aparecer em breve em Logemente Partagé, com André Dussollier (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), e espera conseguir mais papéis. Se possível, inclusive, no Brasil, onde nunca se apresentou.