Deportados da Espanha

Maurício Takara e Richard Ribeiro (SP Underground) foram detidos na chegada a Madri e devolvidos ao Brasil

Por André Maleronka Publicado em 16/06/2008, às 12h53 - Atualizado em 18/06/2008, às 12h32

Takara, sobre o centro de detenção do aeroporto em Madri: "Tinha gente que estava lá havia 3 dias"
Reprodução

Os músicos Maurício Takara (Hurtmold/ Instituto) e Richard Ribeiro (Debate) tiveram a mesma experiência que mais de um milhar de brasileiros enfrentou apenas neste ano. Na terça-feira 10/6, semana passada, eles foram impedidos de entrar na Espanha e repatriados após horas de interrogatórios e detenção.

"Era a quarta vez em que eu ia tocar na Espanha nos últimos 6 anos", conta Maurício. Com o grupo SP Underground, que formam ao lado de Guilherme Granado (Hurtmold/Bodes e Elefantes) e do norte-americano Rob Mazurek (Exploding Star Orchestra/Chicago Underground), Maurício e Richard fariam 8 apresentações no país, antes de seguirem para um show em Portugal e outro na Itália, no Verona Jazz Festival.

Tanto Granado, que viajou em vôo diferente (também saído de SP e praticamente no mesmo horário do avião da Ibéria que levou Maurício e Richard), quanto Mazurek (embarcado em Chicago) tiveram entrada no país garantida. Segundo Maurício, as alegações para seu impedimento de entrar variaram durante o período de permanência.

"O pior de tudo é você ser tratado como errado. Até podermos fazer ligações telefônicas e nos informarem do que poderíamos fazer foram quase 5 horas, esperando em salas e dando depoimentos para agentes espanhóis", diz o músico.

Centro de detenção

Num primeiro momento, a alegação para a avaliação da entrada dos dois era a confirmação dos endereços onde permaneceriam. Após apresentar a carta do organizador local, que foi contatado e confirmou os shows de Maurício e Richard, as autoridades passaram a investigar os dados da empresa do organizador, que estavam todos corretos. A partir daí, os músicos foram encaminhados para um centro de detenção, onde estavam cerca de 20 latino-americanos, sempre segundo Maurício: "Não tinha um loiro lá. Tinha gente que estava lá havia 3 dias, inclusive um casal de hondurenhos, que havia comprado um pacote turístico", lembra.

Foi no centro de detenção que os músicos fizeram ligações de um telefone público e esperaram para depor. "Na hora do depoimento final você tem um advogado designado pelo estado espanhol para te acompanhar. Aí a alegação era que não tínhamos visto de trabalho, mudou. O Guilherme e o Rob entraram com a mesma documentação que a gente, eu até argumentei isso. Não íamos ganhar por esses shows, a casa só cobria as despesas. Era só para promover o lançamento do nosso segundo disco. Toda vez em que fui, foi assim."

The Principle of Intrusive Relationships, lançado no Brasil pela Submarine Records, também saiu nos EUA e no Japão, além dos países europeus onde o grupo se apresentaria depois dos shows espanhóis.

Após 12 horas no aeroporto, Maurício e Richard foram colocados em um vôo de volta para São Paulo. Segundo Maurício, "nós fornecemos tudo o que eles pediram. Até a embaixada brasileira mandou um fax, mas não adiantou nada".

1.000 casos

O aumento de casos de pessoas que dizem estar com todos os documentos exigidos pela imigração espanhola e mesmo assim são barradas e submetidas a procedimentos arbitrários têm gerado indisposição entre os dois governos - são pelo menos 1.027 casos só esse ano. Entre 6 e 12 de março, ao menos 24 espanhóis foram impedidos de entrar no Brasil, sendo que, de 2005 e 2007, apenas quatro cidadãos daquele país não puderam entrar no Brasil, segundo dados da Polícia Federal (PF).

O consulado espanhol, em São Paulo, e a embaixada espanhola, em Brasília, não atenderam a reportagem e não responderam aos recados deixados para esclarecimento dos procedimentos de entrada na Espanha.