Diretor de Kurt Cobain: Montage of Heck fala das raridades na trilha do documentário

Versões e faixas inéditas gravadas pelo vocalista do Nirvana serão lançadas em 20 de novembro deste ano

Rolling Stone EUA Publicado em 07/10/2015, às 15h31 - Atualizado às 16h38

Kurt Cobain

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"Eu fiz a curadoria do disco para criar o sentimento de que o ouvinte está sentado no apartamento de Kurt em Olympia, [no estado de] Washington, no fim dos anos 1980 e testemunhando a criação dele". É assim que Brett Morgen, roteirista, diretor e coprodutor de Kurt Cobain: Montage of Heck, descreve a trilha sonora do controverso documentário em entrevista à Rolling Stone EUA.

Galeria: um guia sobre o legado cinematográfico de Kurt Cobain.

"De muitas maneiras, Montage of Heck: The Home Recordings se revela como um álbum conceitual", continua, sobre o lançamento previsto para 20 de novembro. "É uma jornada, uma experiência. Nós fizemos um acordo de que não se trataria apenas da experiência musical. Trata-se de uma celebração de todos os esforços criativos de Kurt com experimentação sonora. Sou um cineasta. Esse disco teve curadoria de um diretor. Então, existe uma qualidade cinematográfica nele."

Kurt Cobain - Montage of Heck: saiba tudo sobre o documentário.

O material será composto por gravações em cassete antigas e rústicas que Cobain fez sozinho, junto a trechos das primeiras canções, curtas demos, experimentos musicais e porções de faixas e letras que acabariam em discos do Nirvana. Este material será disponibilizado em lançamento físico, como um CD de 13 faixas e como uma versão de luxo, com 31 faixas, em vinil duplo. Ambas as versões estarão disponíveis digitalmente.

Demo inédita de "Sappy", de Kurt Cobain, é divulgada; ouça.

No começo do ano, depois de Morgen ter sido entrevistado pela Rolling Stone EUA sobre o filme e sobre uma de suas mais importantes produtoras, Frances, filha de Kurt, o diretor mostrou uma série de caóticas canções que ele esperava incluir na trilha sonora. Entre elas, um cover de "And I Love Her", dos Beatles – ouvida no documentário junto a imagens caseiras do cantor com a esposa Courtney Love –, e "Rehash", uma espécie de homenagem aos The Melvins, heróis punk do vocalista do Nirvana.

Ambos estão em The Home Recordings, junto de demos antigas de músicas do Nirvana como "Sappy" e "Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle"; os inesperados traços de folk britânico na guitarra em "Letter to Frances" (uma ode à sua filha); o relato de um tentativa anterior de suicídio em "Aberdeen"; a acusatória e inédita "She Only Lies"; e o épico final com "Do Re Mi", uma bonita balada, entre as últimas músicas escritas por Kurt, finalmente lançada com os 11 minutos originais da versão demo.

Todo o conteúdo vem das 108 fitas cassete com mais de 200 horas de áudio encontradas por Morgen no arquivo de Kurt, ouvidas na íntegra durante as pesquisas para o documentário. Segundo ele, não há nada no álbum que tenha sido previamente lançada em qualquer disco do Nirvana. O cineasta considerou incluir gravações raras com participação do baixista Krist Novoselic e do então baterista Dave Grohl, mas acabou não incluindo nada da banda.

Perguntado se Frances participou da escolha do material ou exerceu alguém papel de veto, Morgen diz que ela e a Universal basicamente o deixaram fazer seu trabalho. "Sou reticente em dizer que não é fácil ouvir o álbum. Mas estamos pedindo aos ouvintes que realmente sentem-se por 73 minutos e partam nessa jornada, que tenham a história completa. Penso nesse projeto como um complemento do filme".

Leia a entrevista:

O álbum segue, como o documentário, em ordem cronológica, de uma demo de "Been a Son", do Nirvana, e a juventude dos primeiros experimentos, ao desfecho de "Do Re Mi", possivelmente a última canção que ele gravou. Kurt deixou as datas das fitas?

Nenhuma das fitas possuía marcação de data. Conseguimos definir na maioria das faixas o ano baseado no que existe na fita. Eu sabia que muitas das coisas faladas eram do apartamento de Tracy [Marander, ex-namorada de Kurt]. Uma das coisas que deixava os registros complicados era que ele voltava e reescrevia algumas coisas. Seus próprios registros não eram necessariamente cronológicos. A primeira metade do álbum tem, ao meu ver, um Kurt mais caloroso, gentil, agradável e satisfeito. Estamos no apartamento de Tracy. A virada do álbum é a história de "Aberdeen". Isso deixa o contexto mais profundo para tudo que vem a seguir. O que se inicia como um exercício sem compromissos toma um foco mais sério, filtrado por essa experiência.

É evidente no filme que ele está lendo uma versão preparada de "Aberdeen."

Ele definitivamente está atuando. Ele escreveu essa história, fez o mesmo tipo de edição que normalmente fazia, rascunhou algumas coisas, mudou algumas palavras aqui e ali. O que fez a história única é que muitas das falas de Kurt são feitas no meio de risadas. Ele não levou isso muito a sério. É possível ouvir os pontos editados, ele rabiscando nos papeis. A cadência inteira, a textura da voz, são tão únicas nessa canção. Não acho que tenha ouvido algo assim antes.

O disco inclui algumas músicas inéditas, ideias às quais Kurt nunca mais voltou, como "Burn the Rain" e "She Only Lies". Você conseguiu perguntar a Krist Novoselic se ele já tinha ouvido isso e caso sim, por que a banda nunca as tocou?

Nunca tive a oportunidade de falar com Krist. O que posso dizer de muitas dessas canções, o que é interessante, é que ouvimos dezenas de variações. Com músicas que são familiares do Nirvana, como "Frances Farmer ..." e "Been a Son". Nas demos de Kurt, "Sappy" deve ter umas 15 versões. Mas a maioria, se não todo o material inédito do disco, não existe em versões variadas. Existe uma só versão de "She Only Lies."

O medley extendido de "You Can't Change Me/Burn My Britches/Something in the Way (Early Demo)" foi gravado exatamente nessa sequência?

Ele existe exatamente nesse contexto. Isso mexeu com a minha cabeça. É quase uma opera punk. O que achei interessante é que ele volta para "Burn My Britches" depois de "Something in the Way". Tem outra música, "Desire". Kurt trabalhava em uma música e de alguma forma acaba voltando para o refrão de "Desire". Na versão de luxo, isso aparece duas ou três vezes. Na medida do possível, tentamos preservar a sequência como existe nas fitas. Frequentemente deixamos o espaço depois de uma faixa como no original para reproduzir a experiência que eu tive ouvindo aquilo pela primeira vez.

Como uma experiência auditiva, esse disco pode deixar as pessoas malucas. Ele pede uma imaginação indomável, as sinapses de Kurt estão atirando para todos os lados.

Nós temos 31 passagens, das quais poucas já apareceram em álbuns do Nirvana, em versões terminadas. E é preciso lembrar, isso é apenas o material em áudio. Ele também criava diários e coisas visuais. Isso leva para o que Krist disse [no filme], Kurt tinha que criar. Isso fluía dele. Isso, para mim, é a graça da primeira metade do disco. Ele não está explorando essas coisas obscuras que o perseguiam. O que temos é um jovem sentado em um apartamento. Ninguém está lhe dizendo para escrever uma música. Ele está se distraindo.

A moralidade de lançar um trabalho inacabado, eu sei que é uma questão que vai ser levantada contra o projeto. Mas assim como The Bootleg Series te ajuda a entender o processo de Bob Dylan, acho que Montage of Heck: The Home Recordings não só ajuda a entender o processo de Kurt como representa ainda um outro ângulo, outro lado de Kurt. Um meio artístico com o qual ele não conseguia necessariamente trabalhar no contexto de uma banda de três pessoas. Não é um material descartável, insignificante. Realmente é entender um dos artistas mais significantes de nosso tempo. Tenho que admitir, a primeira comparação que veio à minha cabeça, assim que ouvi a trilha sonora, foi o último álbum dos Beatles, Let It Be.

Eu entendo, uma parte disso pode ser atribuída à intimidade. Você está olhando por trás das cortinas. Isso pode criar uma honestidade, o que dá origem a uma forma de intimidade. Existem esses momentos em que Kurt está falando com ele mesmo: "Ah, acho que estourei uma corda". Quando você ouve Kurt dizendo isso, não é a voz dele. É seu espaço anterior, pureza e satisfação. Nirvana, se preferir.

Veja as músicas da versão de luxo de Montage of Heck: The Home Recordings

1. "The Yodel Song"

2. "Been a Son (Early Demo)"

3. "What More Can I Say"

4. "1988 Capitol Lake Jam Commercial"

5. "The Happy Guitar"

6. "Montage of Kurt"

7. "Beans"

8. "Burn the Rain"

9. "Clean Up Before She Comes (Early Demo)"

10. "Reverb Experiment"

11. "Montage of Kurt II"

12. "Rehash"

13. "You Can’t Change Me/Burn My Britches/Something in the Way (Early Demo)

14. "Scoff (Early Demo)"

15. "Aberdeen"

16. "Bright Smile"

17. "Underground Celebritism"

18. "Retreat"

19. "Desire"

20. "And I Love Her"

21. "Sea Monkeys"

22. "Sappy (Early Demo)"

23. "Letters to Frances"

24. "Scream"

25. "Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle (Demo)"

26. "Kurt Ambiance"

27. "She Only Lies"

28. "Kurt Audio Collage"

29 . "Poison's Gone"

30. "Rhesus Monkey"

31. "Do Re Mi (Medley)"