Disco ao vivo evidencia a mutação de Bob Dylan

O CD duplo Live 1962 - 1966: Rare Performances from The Copyright Collections traz “When The Ship Comes In”, tirada da performance que Dylan fez na marcha em que o Dr. Martin Luther King proferiu o lendário discurso “Eu Tenho um Sonho”

Paulo Cavalcanti Publicado em 01/08/2018, às 16h33 - Atualizado às 18h24

O cantor e compositor Bob Dylan durante show em 2010
Press Association/AP

A obra de Bob Dylan ainda repercute, e é fascinante observar como ele construiu este legado ao longo das décadas. A Sony Music, através do selo Columbia/Legacy, lança Live 1962 - 1966: Rare Performances from The Copyright Collections, um álbum duplo com registros ao vivo que mostram como em tão pouco tempo Dylan e a música que ele fazia se transmutaram de maneira épica.

Quando começou profissionalmente, em 1962, Dylan era um jovem bardo que projetava inocência e honestidade. Usando roupas simples, ele, acompanhado apenas por violão e gaita, entoava canções sobre injustiça social e renovava um repertório folk que já vinha de décadas anteriores. Em 1966, ele era outra pessoa. Havia virado um hipster cético, trajando roupas negras, se escondendo atrás dos óculos escuros e que passou a ser acompanhado por uma banda de rock, a The Band.

O CD 1 de Live 1962 - 1966: Rare Performances from The Copyright Collections tem um Dylan acústico e folk, trazendo interpretações do artista para clássicos dele como “Don't Think Twice, It's All Right”, “Blowin' In The Wind” e “Mr. Tambourine Man”. O disco também traz “When The Ship Comes In”, tirada de uma performance realizada no dia 28 de agosto de 1963, na Marcha para Washington, ocorrida em Washington, D.C. Este foi o evento em prol dos direitos civis em que o Dr. Martin Luther King proferiu o lendário discurso “Eu Tenho um Sonho”.

O Dylan elétrico e roqueiro é representado no disco 2. Ele tem várias canções gravadas na tumultuada turnê britânica na qual o público se dividiu: muitos aplaudiram Dylan por ter mudado o som e a postura, mas os mais puristas não gostaram. Isso culminou no infame episódio acontecido no Royal Albert Hall, em 1965, onde um fã radical berrou “Judas!” quando Dylan se apresentou no local. Neste segundo disco, Dylan e a The Band atacam ferozmente canções surreais, lisérgicas e protopsicodélicas como “Desolation Row”, “Ballad of a Thin Man” e “Visions of Johanna”.