Do cinema mudo ao 3D

A Invenção de Hugo Cabret usa tecnologia para recriar os primeiros dias dos filmes

Paulo Cavalcanti Publicado em 17/02/2012, às 11h41 - Atualizado às 11h56

A Invenção de Hugo Cabret
Divulgação

A Invenção de Hugo Cabret estreou nos Estados Unidos em novembro do ano passado e não fez boa bilheteria, mas foi aclamado pela crítica e logo depois recompensado pela Academia com uma penca de indicações ao Oscar - 11 ao todo, incluindo melhor filme e diretor para Martin Scorsese. O longa-metragem chega aos cinemas nesta sexta, 17.

Assim como O Artista, seu maior concorrente na corrida pelo Oscar, Hugo revisita os primórdios do cinema. O filme é baseado no livro infantil de Brian Selznick publicado em 2007, mas Scorsese usa a história para também imprimir um toque autobiográfico. A ação se passa em Paris, no início dos anos 30. Hugo (Asa Butterfield, foto) é um pré-adolescente que acabou de ficar órfão. Seu pai, um relojoeiro vivido por Jude Law, morre em um incêndio e, logo depois de a tragédia acontecer, o garoto recupera um enigmático autômato danificado em que seu pai estava trabalhando. Hugo então começa a morar clandestinamente na estação de trens de Paris, ajudando seu tio alcoólatra a dar corda nos relógios.

O inventivo rapaz se vê em encrenca quando Georges (Ben Kingsley, foto), um velho mal-humorado que toma conta do stand de brinquedos da estação, descobre que o garoto vem roubando peças mecânicas de seus produtos para tentar consertar o autômato. Hugo também precisa fugir do inspetor Gustav (Sacha Baron Cohen), que quer mandá-lo para o orfanato. Por sorte, o garoto fica amigo de Isabelle (Chloë Grace Moretz), afilhada de Georges, uma garota sonhadora e louca por aventuras, que o ajuda a descobrir o segredo que o autômato carrega. Quando isso acontece, o triste velhote revela ser na verdade o pioneiro produtor e diretor Georges Méliès, um dos grandes inovadores da história do cinema, que optou pelo anonimato depois de sofrer várias desilusões na vida.

Depois que a verdadeira identidade de Méliès é revelada, Scorsese muda o tom do filme, que até então focava nas aventuras e fugas do garoto Hugo. A produção então foca em relembrar as maravilhas do cinema mudo, uma época em que os filmes eram feitos para pura diversão e encantamento, sem a preocupação de marketing e bilheteria.

Scorsese é estudioso da história do cinema e fundador da The Film Foundation, entidade que ajuda a descobrir, preservar e restaurar filmes antigos, e ele aproveita para reforçar este discurso em A Invenção de Hugo Cabret. Para provar que as produções de 100 anos atrás eram realmente pequenas obras-primas, Scorsese ironicamente usa a mais nova e concorrida tecnologia, o 3D. O diretor recria trechos de várias obras clássicas de Méliès, como Le Voyage Dans la Lune (1902), baseado nas obras de Júlio Verne e H. G. Wells, considerado o primeiro filme de ficção cientifica de todos os tempos e o primeiro a usar efeitos especiais. Scorsese e seu cinematógrafo Robert Richardson não deixam dúvida que o 3D pode ser usado de uma forma criativa e envolvente.

Apesar da beleza, A Invenção de Hugo Cabret tem um problema: até parece que são dois filmes distintos em um só. Mas vale muito ser visto, já que Scorsese não costuma fazer filmes “de família”. E, naturalmente, é programa indispensável para interessados pela história do cinema.