Dossiê Rita Lee: tudo sobre os 50 anos da carreira solo da Rainha do Rock Brasileiro

Como a cantora consagrou-se da rainha do 'roquenrol' a uma das cantoras mais fortes do Brasil em 50 anos sendo apenas Rita Lee

Redação Publicado em 27/08/2020, às 07h00

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Rita Lee (Foto: Reprodução / Instagram)

Rita Lee nasceu em São Paulo, capital, em 31 de dezembro de 1947. Foi levada para um casarão dos anos 1920 construído na Vila Mariana, uma das muitas artérias importantes do coração da cidade. Lá, receberam-na Charles e Chesa Jones, os pais. Ele, inglês. Ela, italiana. Uma junção de etnias improvável durante a época, mas feita da mesma maneira. Também esperavam pela bebê Balú e Carú, “afamiliadas” dos Jones, e Mary e Virgínia, as irmãs de sangue 10 e seis anos mais velhas, respectivamente.

A família Jones era uma típica extensão imigrante da São Paulo pós-guerra. A mãe italiana bastante religiosa e gentil até; o pai norte-americano muito rígido e reservado. Criavam as filhas numa mistura de disciplina (quando Charles estava pela casa) e diversão musical (quando ele viajava para pescar e Chesa abria espaço na sala de jantar para uma pista de dança, ou até mesmo o piano de armário para calçada).

As três meninas passavam o tempo criando gatinhas escondidas no porão, ensaiando peças de autoria própria num palquinho no jardim, ou deleitando-se nas dezenas de cinemas de rua de São Paulo. Ritinha, a mais novinha, amava o Peter Pan - e acrescentava aos devaneios teatrais histórias sobre a Terra do Nunca e Sininho. Na varanda de casa, declara para os céus, viu Peter Pan uma vez. Ou achou que viu: o pai, aficionado por ficção científica, explicou que as luzinhas dançantes eram nada além de OVNIs.

Quando tinha cinco anos, Ritinha foi abusada sexualmente. Um técnico de máquinas de costura foi até a casa dos Jones, e a criança brincava no chão enquanto a mãe foi atender o telefone. Voltou para ver a filha com uma chave de fenda na vagina, sangrando. Na autobiografia, Rita Lee admite que não lembra bem do ato do “filho da puta”, como se sua memória tivesse sido apagada. Mas as mulheres da casa sentiram toda a dor da perda por ela. Fizeram-na jurar não contar para o pai, pois ele provavelmente mataria o técnico. Como recompensa, compraram o álbum de figurinhas do Peter Pan - e ela o guarda até hoje.

Para Rita, a tragédia fez com que as adultas passassem a fazer vista grossa para as malcriações e atitudes mal pensadas dela. Não levava tapas quando criança (ao contrário das irmãs) e todos os problemas da vida adulta - como escapadas, drogas, brigas - eram por causa “da dor que ela carrega na alma por causa ‘daquilo.’”

Como uma típica criança paulistana, Rita Lee também passava as férias no Guarujá, cidade litorânea a uma hora da capital. O pai comprou um apartamento por lá, e como ele quase nunca estava nas viagens, sobrava liberdade para as meninas. A caçula bandeava-se com os meninos da rua e ia cometer pequenos delitos - hábito que levou para São Paulo. Hora com os vizinhos, hora com a irmã Virgínia, Ritinha amava pregar peças e “causar” pela Vila Mariana. Mas sentia-se um menino perdido, e fazia birar pro banho e cantava paródias infantis (de crianças de boca suja) por aí.

Também no Guarujá, as meninas Jones amavam espiar as glamourosas festas do Gran Cassino. Eram fissuradas pela fama e por todo o luxo e charme das celebridades cinquantenescas. Deleitavam-se ouvindo do pai dentista as histórias dos famosos pacientes, e usavam o porão da casa em São Paulo como santuário: nas paredes, penduravam fotos de artistas, recortes de revistas, e até um guardanapo (presente de Charles) no qual Maysa Matarazzo limpou o batom antes de um tratamento dentário.

Mas a verdadeira paixão de Rita Lee (dividida com a irmã Virgínia, claro) era James Dean. Sonhou com ele aos oito anos, e não mais o esqueceu. Colecionava recortes brasileiros e gringos sobre o astro, tinha pôsteres e álbuns. Até a vida adulta, depois dos Mutantes e Tutti Frutti, a estrela mantinha pôsteres de James Dean nas paredes do quarto. Era amor!

Rita Lee desde pequena herdou roupas de primos - ao passo que as irmãs, mais sortudas, eram pouco menores que algumas primas. Um dia, Chesa ouviu dizer que cabelos compridos impediam o crescimento da criança, e cortou as madeixas da filha bem curtinhas. Virgínia e Mary a apelidaram de “Rito”, o menino baiano. Foi com esse cortezinho que a menina foi para o sítio da tia, no interior de São Paulo. Lá, ela cuidava das galinhas, arrumava o jardim, e brincava para lá e para cá. Foi quando percebeu a “central de açúcar” do lugar. Caldo de cana, melaço e… Pinga! “Assim aconteceu meu primeiro megaporre e um cartão vermelho para tirar do time de campo da fazenda. ‘Oh my God! O defeito da Ritinha é não saber onde parar,’ profetizou tia Mary.”

A menina amou o Fundamental I. Sentia na escola uma liberdade que o pai não dava. Mas foi entrar no Fundamental II para mudar de opinião. Papeava o tempo todo, e era detestada por alguns professores. Um pouco mais velha, causava de verdade: fumava nos banheiros, fazia xixi nos sapatos das meninas, ameaçava bater nos outros. Até tacou fogo no cenário de uma peça pois não foi escolhida como protagonista! Compensava tudo sendo ótima nos esportes, porém.

Quando se formou no colégio, Rita tentou ser secretária. Não deu certo - derrubou café em vários documentos importantes. Decidiu voltar a estudar, então, e começou a cursar Comunicação da USP. Nunca terminou pois outro aspecto chamou atenção: a música. (Nessa época, marco importante de Rita Lee, ganhou a filhotinha Danny, a primeira cachorrinha da vida dela). 

A música de Rita Lee

Como Charles falava inglês, era dentista de vários artistas e famosos estrangeiros. Tratava, entre outros ilustres, Magdalena Tagliaferro, excelente pianista. O doutor sugeriu uma troca: o tratamento por aulas de piano para filha mais nova. Ela topou. Apesar de descrente inicalmente, viu em Ritinha um talento, e elogiou o progresso rápido que ela teve. 

A pianista estava impressionada, e convidou a menina, então com seis anos, para uma audição na escola Tagliaferro. Emocionada, Chesa costurou para ela um vestido cor-de-rosa cheio de babados, e a família foi assistir a pequena. Mas Rita sentiu-se bastante nervosa quando viu a plateia. Subiu ao palco, sentou-se no banquinho para apresentar-se e… Fez xixi! Medo de palco, diagnosticou a pianista profissional. Não recomendou um futuro na música.

Demorou alguns anos para Rita Lee pensar em música de novo. Começou, na adolescência, a fazer o backing vocal do Tulio Trio, pianista que imitava Ray Charles no auditório da Folha de S. Paulo. Ele morreu num acidente. Mas Rita queria continuar, e formou o primeiro grupo musical da vida: as Teenage Singers: Jean Ellen no teclado, Beatrice no baixo, Suely na guitarra, Rita Lee na bateria. Cantavam bem, tocavam mal.

As colegiais participaram de alguns concursos escolares em São Paulo. Mas tinha um grande problema: Charles, o rígido. Para burlar as regras do pai de -estar-pronta-para-dormir-às-20h, Rita Lee fugia pela janela (Balú, madrinha dela, acobertava as escapadelas). Tudo lindo, tudo belo… Até não estar mais. Durante uma festa, a menina passou mal e, com o corpo doendo, caiu no chão. Tiveram que ligar para Charles ir buscá-la.

Da festa, a bordo do Jeep do pai, Rita Lee foi direto para o hospital retirar o apêndice inflamado. No banco de trás, esperava a bronca do pai, que nunca veio. Depois da cirurgia, um presente: um violão novinho. Melhor que uma bateria, pensava ele. Ela tinha 17 anos (e ganhou uma bateria, também do pai, no final daquele ano).

O quartetinho das Teenage Singers começava a chamar atenção da indústria. Foram convidadas a fazer os vocais de uma faixa de Prini Lorez, e, na sequência, os de “Estúpido Cupido” para Tony Campello. 

Nessa mesma época de apresentações escolares, as Teenage Singers - só meninas - conheceram um outro grupo curioso Wooden Faces - só de meninos. Completavam-se: elas mandavam melhor nos vocais; eles, nos instrumentos. A banda era dos três irmãos Baptista: Claudio (bateria), Serginho (guitarra) e Arnaldo (baixo). Raphael e Tobé, amigos, também eram guitarristas.

Os nove jovens juntaram-se - mas não durou. Depois de alguns meses, restavam só seis - e daí veio o grupo do nome, originalmente O’Seis. Só Rita Lee sobrou das Teenage. Arnaldo e Serginho Baptista seguiram no grupo, assim como Raphael. Luiz entrou para bateria e Moggy, outra menina, para o vocal. Gravaram um single de quatro faixas para Continental em 1966… E aí, de novo, se separaram. Só ficou Rita e os Baptista.

A menina Jones ficou super próxima da família Baptista. Amava a liberdade da casa - a mãe dos meninos era pianista, e o pai, cantor e secretário do ilustre Ademar de Barros. Eles podiam fazer o que quisessem, dentro e fora de casa: no interior, os pais nem ligavam. Do lado de fora, limpavam a barra com a conexão política. Para menina criada com todas as regras do mundo, era libertador.

A família era extremamente musical. Claudio, o mais velho, um gênio da eletrônica instrumental (ele e Rita se detestavam). Serginho, o caçula, tocava guitarra como ninguém. E Arnaldo, o do meio, era o melhor amigo da menina. Os dois viviam colados, e ele mostrava pra Rita tudo que ela queria saber do mundo masculino. Tentaram namorar, uma época, e até perderam a virgindade juntos. Mas não rolou - parecia estranho para ambos. Eram namorados à vista, e amigos na segunda página.

Rita, Arnaldo e Serginho, os únicos O’Seis restantes, seguiam se apresentando em festinhas pequenas e um ou outro showzinho. Compraram uma Kombi (chamada Dirce) para carregar os instrumentos e aproveitar a glória do acampamento. Também dirigiam tocando o terror no centro de São Paulo: jogavam comida e rojão nas pessoas (protegidos pelo status do pai-Baptista) e escolheram um nome apropriado para atitude: Os Bruxos.

Rita Lee se formou na escola e foi estudar na USP - porque o pai tinha o discurso: “Nesta casa ou se trabalha, ou se estuda; música é hobby”. Mas não se importava realmente em ir para aulas - preferia ganhar uma graninha com bicos como professora de inglês ou numa loja de sapatos por ali. Ou, então, ceder às maravilhas televisivas da música, que começavam ali.

Rita Lee era apaixonada pelo probgrama Jovem Guarda da TV Record. Era a síntese da modernidade musical, com apresentação de grandes artistas do rock n’ roll, como Erasmo Carlos, Wanderléa (os favoritos da menina) e Roberto Carlos. Via neles uma vibe à Beatles, pelos quais Ritinha era perdidamente apaixonada...

Logo Os Bruxos foram chamados para se apresentar no Astros do Disco, programa da Record. O objetivo era tocar os maiores sucessos das rádios ao vivo. Como o trio falava inglês, foram escolhidos para interpretar “I Wanna Hold Your Hand” dos Beatles. Mandaram bem, e eram a escolha principal para canções gringas.

Os Bruxos chamaram atenção da produção da Jovem Guarda. Rita Lee ficou empolgadíssima, e chegaram cedo no estúdio. Mas… Roberto Carlos detestou o monte de fios dos instrumentos elétricos do trio. Queria desmontar tudo. Eles não quiseram. Era tudo ou nada, e escolheram o nada: não se apresentaram. Mas conheceram, naquele dia, Tim Maia e Jorge Ben. Dia produtivo.

Eles continuaram nos radares da Record, e chamaram atenção de Ronnie Von (que começara o programa “O Pequeno Príncipe”. Foram jantar na casa dele e de Aretuza, e no bate papo, o apresentador confessou que não gostava de Os Bruxos. Por que não mudavam de nome? Podiam se inspirar no livro que ele estava lendo. Contava a história de alienígenas invadindo e tentando conquistar a Terra, e chamava-se O Império dos Mutantes.

Os Mutantes

Como padrinho, Ronnie Von teve a honra de apresentar Os Mutantes para o mundo. No programa dele, conta Rita Lee na autobiografia, bradou: “Eles vieram de outro planeta e estão entre nós para tocar ‘A Marcha Turca de Mozart’. Com vocês, Os Mutantes!” Sérgio, Arnaldo e Rita se encaixaram tão bem que, a partir de outubro de 1966, o trio começou a ser figurinha carimbada no programa d’O Príncipe.

De lá, chamaram atenção também da TV Bandeirantes e do programa Quadrado e Redondo, também parada de sucessos. O trio faria uma apresentação sozinho e uma em apoio de Tim Maia. Rita Lee deu o primeiro passo, também, numa das suas manias mais encantadoras da carreira: as roupas. Naquele dia, embora quisesse se vestir de Cleópatra, usou uma roupa à Pocahontas.

“Foi a partir de então,” escreveu Rita, “que aceitei me tranfosrmar em para raio de freaks, porto seguro dos rebeldinhos sem causa, musa dos perdidos numa noite suja da Pauliceia [...] O importante era não me levar à sério. Eu seria apenas mais uma impostora [entre os artistas]. Só que mais esquisitinha.”

Tropicalismo quase acidental

Em 1967, Os Mutantes foram convidados pelo maestro Chiquinho de Moraes para gravar o backing vocal de “Bom Dia”, do Gilberto Gil, que não era muito conhecido. Mas fez um convite importante: participaria de um festival (Festival de Música Popular Brasileira), e queria saber se o trio não queria levar toda a energia deles para participar também. Tinha só um problema: era de MPB, e a banda de Lee tocava rock. Gil deu a solução: “Vamos fazer rock brasileiro, oras.” E resolveram gravar “Domingo no Parque”.

No dia do festival, Gil, Os Mutantes, o maestro Rogério Duprat e o baterista Dirceu foram ensaiar. Passaram a música duas vezes, e tinha gente olhando feio. Na sequência, Caetano Veloso, ao lado de Los Beat Boys, também causaram indignação. Mas tocaram mesmo assim (os Mutantes de capa, e Rita de túnica). Foram vaiados, atacados por bolinhas de papel, e gritos os expulsando dali. Mas uma voz do contra gostou, e gritou “maravilhoso!” Terminaram em meio à indignação daqueles que, acostumados à música brasileira da viola, viram as guitarras, a barulheira, e a nova cara rock ‘n roll da música.

De repente, Os Mutantes faziam parte da música brasileira. Rita Lee não percebeu isso, mas era verdade. Na biografia, conta como começou a se encontrar com alguns outros músicos quase de brincadeira. Naquele primeiro festival que participou, estavam também: Wilson Simonal, Gilberto Gil, Jorge Ben, Milton Nascimento, Paulinho da Viola. Também participavam Tom Zé, Gal Costa, Caetano Veloso, Rogério Dupret e os Beat Boys. Não entendia que Os Mutantes já podiam ser citados entre esses grandes nomes (como hoje é).

Rita Lee fingia para família que ia para faculdade e ia ser tropicalista. Conheceu Hélop Oiticica, Torquato Neto, Capinam, Rogério Duarte, José Celso Correa… Glauber Rocha até a definiu como “Cacilda Becker do Rock,” contou ela no livro.

Meio do nada, nasceu o disco Tropicália, o pai do movimento cultural brasileiro. Aos Mutantes, coube interpretar "Panis et Circencis", “Parque Industrial”, “Bat Macumba” e “Hino ao Senhor Bonfim.” Rita Lee, ao lado de “Caetano Veloso” e “Gilberto Gil”, também gravou “Enquanto Seu Lobo Não Vem.” É o segundo Melhor Disco da Música Brasileira para revista Rolling Stone.

Pouco depois do festival de MPB, os “tropicais” quiseram entrar em outro festival, o F. Internacional da Canção. Mutantes tocaram “Caminhante Noturno”; Caetano, “É Proibido Proibir”; Gil e os Beat Boys, “Questão de Ordem.” Ninguém ligou muito para Rita Lee & Cia, mas Gil abandonou o palco sob vaias e xingamentos, e Caetano foi atacado por tudo que a plateia tinha em mãos. Eles viram de costas para tocar. Mas o músico não se contém em dar uma bronca com a icônica frase: “Então é essa a juventude que quer tomar o poder?”. Tirou seu nome da competição.

Os Mutantes entraram para final, que seria no Rio. Lá, Rita Lee teve uma ideia: pedir para pegar emprestado figurinos da TV Globo para usar. Deu de cara com Leila Diniz vestida de noiva, terminando uma cena. Reconheceu Rita, e gostava dela. Quis saber se Rita não queria usar aquele vestido, mesmo. Claro que sim. Com esse traje (e dois ternos escolhidos para os Baptista) Rita Lee subiu ao palco - e uma foto do momento ilustra a capa do disco Mutantes (1969). 

Enquanto isso, os jurados odiavam os Mutantes. Chegaram a fazer um abaixo assinado para expulsar o trio do festival. Mas tiveram que engolir - e o Rio de Janeiro amou a banda. Terminaram em sétimo lugar. 

 Já a vanguardista TV Tupi queria ir para o lado oposto. Viu o potencial da Tropicália, e no ptroama Divino Maravilhoso, abriu as portas para o movimento. Sem roteiro, p palco era a casa do grupo. Gil incorporou Jesus numa reinvenção de Santa Ceia; Os Mutantes lançaram “Ave, Lucifer” e Caetano cantou com uma arma apontada para a própria cabeça (uma piadinha com as pressões do Governo Militar). Depois de três meses, a TV Tupi precisou encerrar o programa, e todas as gravações se perderam num incêndio.

Os tropicalistas decidiriam fazzer uma temporada na Sucata, casa do Rio. Gil convenceu George Jones a deixar a filha Rita viajar por uns tempos, e foram. COm fama feita, os Mutantes atraíam muita gente para lá… Inclusive policiais, que pediram para o local encerrar as apresentações. Foram ignorados. De olho nas notícias, porém, descobriram que: 1- Caetano desrespeitou o Hino Nacional. 2- Ele estava vestido de mulher. 3- Tudo isso foi enrolado numa bandeira do Brasil. 4- Havia no palco uma bandeira de  Hélio Oiticica que dizia “Seja Marginal, Seja Herói” com uma ilustração de um traficante assassinado à época.

Rita Lee explica que não foi bem assim: não cantaram o Hino Nacional, e sim “Allons Enfants de la Patrie” com “Ouviram do Ipiranga”. Mas nem adiantou: Caetano e Gil foram presos e exilados. Acabaram indo morar em Londres. Os Mutantes se safaram com ajuda do pai dos Baptista. Foi o fim da Tropicália.

Discos, discos e contratos

Ali no meio da Tropicália, Os Mutantes foram convidados pela Philips para gravar o primeiro LP. Pediram ajuda para quem sabiam do assunto, e Gil e Caetano deram dicas de composição. De presente, ficou “Panis et Circencis”, outro título para a coletânea do movimento musical da quebra da MPB. Outra gentileza para o disco foi “A Minha Menina”, composta por Jorge Ben a pedido da Rita, que foi até a casa dele pelo favor. Ele fez a faixa ali, na hora. Apenas três composições dos Mutantes marcam o disco de estreia. As outras são regravações, parcerias, ou “emprestadas” de pessoas com mais experiência. 

Para capa de Os Mutantes, Chesa costurou uma capa preta para Serginho, Arnaldo veste um kimono que Lee comprou por aí, e ela um vestido que antes era uma toalha. Wesley Duke Lee, fotógrafo, emprestou o cenário.

Os Mutantes foi um fracasso. Naquela época, a rádio era uma grande aliada dos artistas (pois a TV, mesmo no final dos anos 1960, não era muito popular). Nenhuma quis tocar aquele amontoado psicodélico-tropical-diferentão-e-esquisito. Flávio Cavalcanti chegou a quebrar uma cópia do LP no programa de TV dele. O disco passou batido pelos críticos e público.

Mesmo assim, Os Mutantes eram relevantes. Em meio à Tropicália e Festivais, conseguiram várias conquistas importantes como um single para Shell (acompanhado de vídeos para TV), apresentaçãp no Cannes (que acontece na França, mas Lee deu uma “esticadinha” até Liverpool tentar ver os Beatles. Não conseguiu, mas lambeu a maçaneta do Apple Studios. Vai entender).

A música para Shell, “Algo Mais”, entrou para o segundo disco dos Mutantes, assim como “2001” (cuja melodia foi pescada do cesto de lixo de Tom Zé) e “Dom Quixote”, criadas para um festival da Record. Ali, o trio fez um pacto: todos eles assinariam todas as músicas, não importa quem fez o quê. Rita Lee se arrepende da decisão até hoje.

Fizeram duas capas: a oficial, com Rita de noiva, e a contracapa - com os três travestidos de alienígenas, com barbantes, tintas, e um sexto dedo feito de massa de modelar pela cantora. De legal, quase só isso. A crítica não gostou do álbum

Esse lado teatral aflorou quando os Mutantes tiveram a excelente ideia de criar uma peça chamada O Planeta dos Mutantes. Ninguém foi assistir, porém. A música criada para a produção, “Ando Meio Desligado”, foi transferida para o FIC daquele ano. Os Mutantes subiram ao palco da mesma maneira que o ano anterior - mas, dessa vez, a noiva-Lee estava “grávida”.

Desanimados com o fracasso da peça, Os Mutantes pareciam minguados. Mas precisavam fazer um disco novo, e foram meio sem vontade para A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado. Mas o trio virou quarteto por acaso: Rita Lee pegou táxi com um músico. Na mesma hora, levou para um ensaio, e Élcio Decário “entrou” para banda. Participou das composições daquele disco com o trio - e precisou dividir assinatura. De novo, o disco foi um fracasso nas rádios. 

Sobrou outra boa história da capa: Lee e os Baptistas tiveram a ideia de fotografar a si mesmos nus, comendo numa cama sob a mira da arma de um soldado nazista. A ideia era fazer na cama dos pais dos meninos, e até mandaram a mãe ir resolver um problema no Theatro Municipal para tirá-la do caminho. Mas ela voltou e viu os três pelados na cama (e um soldado lá de pé) e desmaiou. Ligou para Chesa e contou tudo, e a mãe de Rita começou a pressionar para ela casar logo com… Qual dos Baptista? Já não sabia mais.

Os Mutantes lançaram, em 1971, Jardim Elétrico. Era uma “reciclagem” do trabalho que tentaram fazer em Paris, em inglês, enquanto viajavam no ácido - a segunda tentativa deu mais certo que a primeira, mas foi igualmente ignorada pela mídia.

O disco Mutantes e Seus Cometas no país do Bauretz, nasceu durante a estadia na “comunidade hippie” do trio na Serra da Cantareira, São Paulo. Também não virou, embora anos mais tarde “Balada do Louco”, regravada por Ney Matogrosso, tenha feito sucesso. Dos dois últimos trabalhos, o maior acontecimento foi o casamento de Rita Lee e Arnaldo Baptista. Foi feito meio na pressão de Chesa, que odiava a filha “morando” com os meninos. Na prática nunca aconteceu: os recém-casados levaram a certidão ao programa da Hebe e a rasgaram no meio.

Com a chegada do jornalista Mick Killingbeck, da Rolling Stone EUA, Os Mutantes queriam radicalizar. Terminaram às pressas Hoje É O Primeiro Dia Do Resto da Sua Vida, segundo disco solo de Rita Lee, e queriam tocar em frente. Infelizmente, isso significava despedir Rita Lee. Um dia, quando ela chegou para o ensaio, a banda estava em clima de enterro. No meio da comunidade da Cantareira, comunicaram a decisão. Ela virou as costas e saiu andando.

Depois daquilo, Rita Lee e os Baptista só se reuniram uma vez. Nos anos 2000, a cantora decidiu fazer um remember d’Os Mutantes. Mas não avisou os irmãos que o outro estaria lá. Eles viram e não fizeram o show: foram embora. Fim.

Os 50 anos solo de Rita

Entre 1969 e 1970, os Mutantes chegaram ao fim (pela primeira vez). O desprezo da mídia pela banda pesava cada vez mais, e a tensão foi insuportável. Mas Rita Lee já tinha seus contatos, e um dia recebeu um telefonema de André Midani, da Philips. Ele e Livio Rangan, da Rhodia, queriam lançar Rita Solo e como garota propaganda da Nhô Look.

Deu super certo, e Rita Lee começou a fazer turnês pelo Brasil com a Nhô Look. Aproveitando o frisson, encomendaram um desfile para contar a história de Ritinha, de zero a herói. Build Up deu tão certo que gerou o contrato para um LP exclusivo para a gravadora.

Para o primeiro trabalho solo, Rita chamou Lenny Gordon para guitarra e… Os irmãos Baptista para integrar a banda. Pediram isso para ela, e ela topou desde que o controle criativo fosse totalmente dela. Ttoparam, até ela anunciar que a última faixa seria uma dada por Nara Leão e sumariamente vetada pelos colegas anteriormente. Mas gravaram, né? Fazer o quê? Ironicamente, aquele foi o primeiro sucesso nas rádios da banda. Mas não tocaram elas nos shows - com exceção de uma apresentação na Globo.

O contrato com a gravadora inclui dois discos. Mas, com a volta dos Mutantes, o segundo não queria sair. Foi feito na pressa, para “tirar do caminho”, explicou Lee. O trio resolveu fazer junto, e embora não soubessem, aquela foi a última vez. Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972) foi comandado pelos mutantes e por Mick Killingbeck, que “caiu” na vida da banda. Ela só cantou. Naquele mesmo ano, durante o FIC, os Mutantes se apresentaram pela primeira vez. Coincidentemente, foi a estreia de Raul Seixas no meio.

Com o fim da banda, Rita ficou com só 30% do material. Nada servia muito bem para ela continuar trabalhando. Então, contrabandeou um Mellotron de Nova York, pintou os cabelos de ruivo, e decidiu se dedicar aos prazeres da vida. Foi passar um tempo na Europa. Lá, outro roubo-de-roupas clássico: ela entrou na boutique Biba, experimentou um par de botas prateadas que adorou. Pediu um número maior. Quando a vendedora foi buscar, ela saiu andando com elas no pé. Usou-as durante anos e anos, e ainda guarda os sapatos.

Tutti Frutti

Rita Lee foi convidada para se apresentar em um evento com os Mutantes. Como eles não existiam mais, precisou achar outro grupo: chamou a groupie da banda Lúcia Turnbull, e formaram As Cilibrinas do Éden. Só durou um show, pois não mandavam tão bem nos instrumentos. Mas Lúcia conhecia uns caras de uma banda chamada Lisergia. Eram eles: Luis Sérgio na guitarra, Emilson Colantonio na bateria e Lee Marcucci no baixo. Junto, veio a empresária Mônica Lisboa. No primeiro ensaio, Peticov, amigo de tropicália de Rita, levou Antonio Bivar para assistir. Ele sugeriu um nome pro grupo: Tutti Frutti.

A banda logo arranjou um show no porão “fedorento” do teatro Ruth Escobar. Capricharam na produção. Rita Lee ficou entre o teclado e o vocal, e percebeu que o povo ia ao delírio quando ela cantava. Recebeu, pela primeira vez, aplausos sinceros. Na plateia estavam, também, André Midani (antes da gravadora Philips, agora PolyGram). Sugeriu um lançamento… Desde que a banda chamasse Rita Lee & Tutti Frutti. Toparam.

A banda foi para o Rio de Janeiro gravar. Mas Rita caiu com tudo no ácido. Não tem lembranças concretas daquelas semanas, e o disco que compuseram nas viagens não vingou. Foi cancelado. Ela ainda foi na sala de Milani argumentar. Lá, encontrou Tim Maia, também irritado por mudanças no próprio disco. Os dois quebraram toda a sala do empresário.

Mesmo assim, Milani deu uma segunda chance à banda (ele e Rita tinham um casinho). Nasceu o disco Atrás do Porto Tem Uma Cidade. Para não correr risco, a gravadora contratou um produtor para mixar as faixas. Ficou irreconhecível. Enquanto isso, rolava uma briguinha entre os guitarristas da banda. Turnbull e Luís Sérgio disputavam - e precisou ser votado quem seria o principal e o segundo instrumentista. Ela, que nunca ia aos ensaios, perdeu. Saiu da banda.

Para não ter problemas futuros, Midani convocou uma reunião com Rita Lee, Nelson Motta, Paulo Coelho e alguns outros para “aconselhar” a atitude da cantora. Deram dicas de como se vestir, o que dizer, como agir. Ela não gostou. Foi o fim definitivo da relação entre eles.

O fim do contrato não deu muita dor de cabeça para Rita Lee: na sequência, João Araújo, da Som Livre, ofereceu liberdade total para criar um disco. Lição aprendida, a cantora dispensou o ácido (embora ainda fumassem maconha). Nos meses seguintes, desenvolveram um disco “profissa”, como descreveu a cantora na autobiografia. Fruto Proibido trouxe faixas que mudariam a música brasileira e a carreira de Lee, como “Esse tal de roquenrou”, “Agora Só Falta Você” e “Ovelha Negra”. A turnê foi interrompida no Rio quando Lee deu um “sumiço” de três dias para cheirar cocaína, o que causou bastante desconforto entre os colegas. Os integrantes começaram a sair (e entrar novos, sempre).

Tutti Frutti lançou mais um disco, Entradas e Bandeiras, em 1976. Depois dos fins da gravação, Rita Lee tirou uma “folga” de uma semana até a mixagem. Dois dias depois, porém, Mônica Lisboa ligou para ela e informou que Luis já fizera aquilo para ajudá-la. O resultado final abafou a voz de Rita. Ela, irritada, comunicou que queria terminar com os Tutti Frutti. 

Na sequência, porém, Rita foi presa. Quando saiu, fez turnê com a banda porque precisava de dinheiro, e depois partiu na Refestança com Gilberto Gil e oos Tutti Frutti. A banda ainda chegou a gravar Babilônia antes de Luis registrar o grupo no nome dele e tudo virar bosta. Fizeram a turnê, da mesma maneira, sob o nome Cães e Gatos.

Ah, o amor - e a prisão

Rita Lee, durante o Tutti Frutti, fez um grande amigo nos bastidores: Ney Matogrosso.Apesar das proibições de Mônica Lisboa, o cantor pediu uma música para a colega. Ela enviou “Bandido Corazón”, e recebeu de volta uma faixa incrível. Na guitarra, para encanto de Rita, estava “Zezé” - que, na verdade, chamava Roberto. Apaixonada, a artista chamou a dupla para um jantar na casa dela. A noite terminou com ela e Roberto na cama. 

Poucos meses depois, Rita engravidou. Nem queria contar para Roberto: decidiu criar a criança sozinha. Mas, por insistência de um amigo, ligou para ele e, enigmática, cantou “Fool to Cry”, dos Rolling Stones: “papai, você é um bobo por chorar.” Ele não entendeu, e só desligou o telefone. Alguns dias depois, Rita assistia ao show de volta de exílio de Gil, Caetano, Gal e Bethânia quando Roberto chegou e pegou na mão dela. Acordo selado.

Grávida, Rita Lee ainda precisava honrar os shows com Tutti Frutti e o disco Entradas e Bandeiras. Em um deles, uma senhora se aproximou dela e perguntou se ela lembrava quando, anos antes, um menino morrera com um tiro no show dos Mutantes. Lembrava. E foi depor contra o policial. Três dias depois, por vingança, Rita foi presa. A acusação oficial foi tráfico de drogas, embora ela garanta que estava limpa durante a gravidez.

Rita foi levada ao DEIC e interrogada. Negou, e explicou que estava grávida. Ninguém ligou. Foi para cela sob ameaças de pau de arara se não ficasse quieta. Mal chegou lá, porém, e fez várias amigas. Felizes com o status de celebridade e compadecidas da gravidez, as sete presas cederam à Rita um beliche e simpatia. Ficaram meses juntas, nos quais as colegas arranjaram um violão para ela fazer um show, e a cantora criou a música “X21” para elas. Foi barrada pela censura do AI-5.

Depois de várias semanas no xadrez, Rita Lee recebe a visita de Elis Regina. Providencialmente, naquele mesmo dia, a cantora estava com sangramento e muita dor abdominal - correndo o risco de um aborto. A colega, em liberdade, bateu o pé e exigiu assistência médica. Ameaçou chamar a imprensa e divulgar o descaso. Rita foi atendida prontamente.

João Araújo, da Som Livre, compadeceu-se de Rita. Contratou um advogado, e a cantora passou a cumprir pena em prisão domiciliar. Voltou para casa com um peso nas costas: estava grávida, e a família só soubera pelas notícias de prisão. Foi recebida com um chá de bebê e por Roberto, pronto para assumir a família.

Rita Lee, precisando de dinheiro, resolveu fazer alguns shows com os Tutti Frutti. Pediu autorização para o juíz, e subiu ao palco com uma fantasia à Irmãos Metralha. Todas as apresentações pós-prisão foram esgotadas.

Roberto morava no Rio e vinha pra São Paulo uma vez por semana. Ele descobriu um golpe da ex-empresária dos Tutti Frutti, e Rita, então, o contratou para o papel. 

Na sequência, ao lado de Paulo Coelho, lança a polêmica “Arrombou a Festa” - falando mal de uma porrada de gente da MPB (menos Elis). Foi um sucesso estrondoso, e descolou vários shows para Rita Lee. Ela conseguiu pagar as dívidas e, além disso, se mudou para um apartamento com Roberto.

Rita Lee e Roberto, R & R, eram ótimos juntos. Cumpunham de modo fácil e fluido, combinavam tanto musicalmente quanto amorosamente.Logo receberam Beto, o primeiro de três filhos. Nasceu no sétimo mês de gravidez, com o cordão umbilical enrolado no pescoço e em uma cesariana de emergência. O bebê estava roxo - e Rita ficou aliviada em ouví-lo chorar. Ele precisou ir para o cuidado intensivo, e Rita podia amamentar. Já Rita e Roberto estavam mais apaixonados que nunca antes. Não respeitaram o resguardo pós-parto - de fato, voltaram a ficar juntos no dia seguinte. Na biografia, a cantora conta que os meses seguintes foram todos assim. Poucos meses depois, ela engravidou de novo - extrauterina. Decidiu pelo aborto

O casal chamou Gilberto Gil para ser padrinho de Beto. Depois do batizado, resolveram reunir Refavela de Gil a Arrumbou a Festa de Lee e criaram o Refavela. Saíram em turnê com ambas as bandas, e gravaram um disco ao vivo - a cantora lamenta a falta de qualidade da tecnologia, pois os shows foram muito melhores do que mostram as fitas.

Depois do fim dos Tutti Frutti, R & R assumiram juntos a carreira e a vida. Esperavam o segundo filho, todas os lançamentos deles rendiam em rádios e reconhecimento, várias parcerias. Lançaram o disco Rita Lee (1979). Ela chama de “Mania de Você”. Logo depois nasceu João, segundo filho do casal. 

Esse foi o ponto de virada de Rita. Saiu do roquenrou para algo mais classy, e conquistou um público como Rita Lee - mantém a imagem da mulher forte até hoje. Desde então, fracassos não foram mais uma preocupação.

Era o início dos anos 1980, e Rita Lee começava a fazer cada vez mais turnês. Levou para várias cidades do Brasil a inovação tecnológica do microfone sem fio (e as pessoas pediam para subir no palco e colocar o aparato à prova). Nisso, o casal ainda compondo o quanto conseguissem. Juntos, começaram a explorar a sexualidade nas canções - marca registrada de uma sem-tabus-Lee e do ilustríssimo Lança Perfume, a dobradinha de sucesso estrondoso.

Na estreia do disco, Charles e Chesa foram assistir Rita Lee pela primeira e última vez. Ela nem sabia que eles estavam lá, então fez os clássicos de mostrar a bunda pra plateia,xingar, etc. Até lambeu o microfone (o que a mãe achou bem engraçado; Rita acha que ela não entendeu).

O casal passava 15 dias na estrada, e voltava para ver os filhos - que eram criados por Balú, madrinha de Rita, e pelos pais dela - embora Chesa estivesse debilitada pelo câncer. Para aguentar a rotina puxada, tomavam remédios para acordar e para dormir. Mas Rita exagerava, e acabou caindo nos palcos várias vezes.

Os dois pombinhos apaixonados não ligavam pra isso. Engatavam um trabalho no outro, e logo veio Saúde. Levaram 30 músicas para avaliação do Governo Militar. Só nove passaram. Arranjos aqui e ali, salvaram algumas - mas a maioria sumiu. Rita inovou nos instrumentos eletrônicos - mas foi criticadíssima por marcar a tendência.

Na sequência, o casal recebeu Antonio (Tui), o caçula. Ela fez laqueadura. Os cinco e Balú se mudaram para um duplex enorme no Pacaembu, zona nobre de São Paulo. Com a família completa, Rita e Roberto faziam questão de tirar férias uma vez por ano. Levavam a penca para Manaus, então Miami e depois Caribe.

Em 1982, o casal lançou, oficialmente, o primeiro trabalho junto. Sem nome, foi batizado de Flagra pela cantora. Foi o maior sucesso dela até então, e vendeu mais de 2 milhões de cópias.

Pouco depois, o pai de Rita ficou doente. E ela teve problemas com as drogas. Precisou ser internada. Quando saiu, alugou para mãe e para Carú um apartamento perto do dela.

Ela continuou trabalhando e lançou Bombom, cheio de tiradas e piadinhas. Mas estava sem saco para turnês, e não fez shows para divulgar o disco de 1983 - e fez a maior pausa da carreira solo, quase dois anos. Só lançou o disco seguinte, Rita & Roberto, em 1985 - ano do Rock in Rio e do rumor estranho de que ela estava com leucemia.

Naquele período, Rita Lee foi convidada pela 89FM a estrelar Radiamador. Ela adorou gravar os programas - mas precisaram ser descontinuados porque as outras rádios boicotavam o disco dela. 

Na sequência, a mãe de Rita Lee morreu. E a cantora começou a enfrentar uma das fases mais difíceis da vida dela: a luta contra o álcool. Entre os vai e vem de rehab, gravou Flerte Fatal. Não queria mais sair do país para shows, mas caprichou aqui: ela voava, tinha  mulheres mostrando tudo, etc etc.  Mas a vontade de Rita era jogar tudo para o alto, abraçar os filhos e encher a cara. Não dava, porém, para fazer isso - pois não ganharia dinheiro. Então fez o shows, mesmo.

Em Zona Zen, trabalho seguinte, porém, não teve turnê. E Rita Lee e Roberto Carvalho (1990), explica a cantora, foi feito por obrigação de contrato. Ela cansara, não queria mais nada dali. 

O hiato quase não durou. Em 1991, Tutti Maravilha a convidou para uma homenagem a Elis Regina. Algo bem íntimo, só violão e voz. Ela gostou, e gravou. Engatou lobo Bossa n’ Roll, uma sequência de shows acústicos feitos em vários pequenos públicos. Foi o momento mais singelo da vida de Rita - e também o mais delicado, pois estava afundada em alcoolismo.

As drogas e Rita

Rita passou muitos anos da vida tendo problemas sérios com drogas. Fora os “inocentes” da infância (os “gorós” de vinho da infância na casa dos avós italianos e o lança-perfume no carnaval, artigo popular entre os pequenos dos anos 1950), conheceu o primeiro entorpecente na faculdade. Quando Os Mutantes começaram a estourar, Rita Lee começou a fumar (muita) maconha. 

Durante a gravação do Tropicália, experimentou chá de ayahuasca. Saiu andando pela perigosa República, no centro de São Paulo, sem rumo e confusa. Acordou (não sabe como) em casa, e jurou não tomar mais isso. 

Rita Lee, talvez isso seja bem óbvio, não era a única artista a fumar muita maconha. Em um certo festival, conta a cantora na autobiografia, os Mutantes e Tim Maia dividiam camarim. Também estavam lá dois policiais “de olho” em tudo. Mas o cantor teve fome, e começou a berrar aos sete vendos que queria um bauru! Só subiria no palco “se descolarem um bauru, entendeu? Bauru! Bauretz!” A produção pediu para os policiais arranjarem o lanche. Quando eles saíram, todo mundo aproveitou para fumar um baseado. “Naquele momento histórico, a cannabis foi oficialmente batizada nos meios artísticos de bauretz.”

Rita, porém, também usava outras drogas. Contou que quando viajou para Europa, Toninho Peticov tinha um verdadeiro estoque de Yellow Sunshines, um alucinógeno. Os dois, junto de Arnaldo, dropavam um atrás do outro. A criação afetou a oportunidade dos Mutantes lançarem um CD na Europa - pois as adaptações para o inglês ficaram horríveis.

Quando os Mutantes se mudaram para Cantareira, em São Paulo, tudo se intensificou. Criaram em terrenos conjuntos uma espécie de comunidade hippie. O disco criado lá foi apelidado de Mutantes e seus cometas no país dos bauretz. Pois é! 

Depois do fim dos Mutantes, Rita Lee foi para Europa curtir um pouco a vida. Isso significava, entre os passeios, muitas drogas - os alucinógenos sendo a escolha jovial da década. 

Voltou para o Brasil para morar na Guarapiranga com Mick, empresário dos mutantes, e o namorado dele. Bellonzi, amigo de Rito, também morava lá. Os meninos cheiravam pó até cansar, e a cantora ficava no ácido. Chegou a trazer para o país, disfarçadas de miçangas num colar, algumas centenas de pedrinhas. O plano era vender - mas a artista acabou consumindo uma parte, e a outra deu por aí nas várias festas que o grupo fazia em casa. Tudo acabou quando Bellonzi e o namorado de Mick transaram. O jornalista voltou pra Inglaterra, e Rita, para a casa dos pais.

Logo na sequência veio a banda Tutti Frutti. Foram para o Rio de Janeiro gravar um disco. Rita conta que tomou tanto LSD que não lembra direito das gravações, e o resultado, escreveu na biografia, foi “um sonoro cemitério psicodélico sumariamente recusado pela gravadora.”

Rita Lee aprendeu a lição e evitou ácido para compor Fruto Proibido. Mas foi para outro caminho desacertado: durante a turnê no Rio de Janeiro, ela e o amigo “Baratão” se enfurnaram num hotel com meio quilo de cocaína. Ficaram três dias lá. No final, ela queria pular pela janela - para desespero de todos em volta. A turnê acabou.

Embora relaxasse durante as gravidezes, Rita Lee ainda tinha dificuldades de saber quando parar. Durante a turnê do solo Lança Perfume viciou-se em tarjas pretas e só dormia com eles. Mas também os tomava antes de entrar no palco, e comprometia suas apresentações.

Já mãe de três, Rita Lee começou a dar problemas mais sérios. No começo dos anos 1980, foi internada a primeira de várias vezes. Não à toa: em curto período de tempo perdeu Mary, a irmã, para bebida, e o pai, Charles. A mãe, Chesa, estava com câncer. Rita estava desesperada. Quando a mãe morreu, foi a gota d’água.

Desde pequena, Charles avisara Rita para não beber: a família tinha um sério problema de alcoolismo. Ela não pensava muito nisso, porque detestava beber. Até que não detestava mais.

Rita Lee começou num ciclo vicioso de internação, bebedeira, internação. Gravou alguns discos empurrados e sem vontade ao lado de Roberto, até que começou a tocar Bossa n’ Roll meio sozinha. Daí, mais bebidas (muito mais) e cigarros. Ela tentava esconder os vícios da família, no começo. Até que não ligava mais, e fazia na frente de Balú, Ricardo, e até dos filhos. Bebia só destilados baratos. Era o que dava para comprar. 

Rita foi para a reabilitação. Prometeu que ia parar. Eles saíram do apartamento do Pacaembu e foram para o Morumbi num lugar bem menor… E Roberto percebeu que a cantora estava mal de novo. Colocou um ponto final, e disse que não achava justo assistir àquilo - nem para ele, nem para os filhos. Ela decidiu, então, sair dali - foi morar sozinha.

Rita “acabou acorrentada na escravidão da birita” no novo endereço, como confessou na autobiografia. Só fazia beber. Beto, o primogênito, tinha terminado a escola e foi cuidar da mãe. Dava banho, comida, limpava, cuidava. Ela prometia melhorar, mas não conseguia. 

Ainda fazia os shows - mas aos trancos, barrancos e atitudes meio estranhas, como rezar Ave Maria na hebraica, ou ficar meia hora se lambendo ao cantar “Eu e Meu Gato.”

De lá, foi morar no interior de São Paulo, numa casa com cara de comunidade. Trocava os legumes que plantava por birita, remédios, ou o que pudesse dar barato.

Em 1995, foi internada À força para ficar sóbria para abrir para os Rolling Stones ao lado do Braão Vermelho. Depois da moça pelada, porém, Rita fez uma escolha controversa: entrou no palco vestida de Nossa Senhora. A Globo cortou a apresentação imediatamente.

Depois do lançamento de Marca da Zorra, Rita Lee enfrentou sua maior provação da bebedeira: caiu da varanda de 15 metros de altura. Foi encontrada pelo caseiro na manhã seguinte, com o queixo fora do lugar. Precisou ir para o hospital imediatamente, remendada com costuras e pinos de titânio. Corria o risco de Rita Lee nunca mais abrir a boca ou falar… Quiçá cantar. Mas, depois de três meses, se recuperou. E cantou “Mania de Você” para mostrar que podia.

Não foi o fim da bebedeira de Rita: quando Balú morreu, teve uma recaída e foi levada às pressas para o hospital para uma lavagem.

Ela ainda enfrentaria mais uma antes de acabar com isso de vez. Quando Beto, filho mais velho dela, anunciou que seria pai, ela abriu uma garrafa de vinho para comemorar. Tomou outras três. Dessa vez, a rehab foi bem rígida - ao contrário dos típicos paz-e-amor que Rita estava acostumada. Até tentou fugir, mas não deu. Ficou três meses lá, e saiu com uma promessa: não beberia mais, por causa da neta. Até hoje, cumpre.