Entrevista: Mike Dirnt fala sobre a recuperação de Billie Joe Armstrong, do Green Day

“Eu só quero ter certeza de que daremos um passo de cada vez”, diz o baixista da banda

David Fricke Publicado em 04/03/2013, às 13h00 - Atualizado em 05/03/2013, às 12h37

Mike Dirnt
AP

“Cautelosamente otimista – ansioso também”: é assim que Mike Dirnt, baixista do Green Day, está se sentindo diante da maior crise pela qual a banda já passou – o colapso do cantor e guitarrista Billie Joe Armstrong no show do Green Day no festival iHeartRadio, em Las Vegas, em setembro. Logo depois, ele foi internado em uma clínica de reabilitação para tratar o vício em álcool e remédios controlados.

“Estou animado que tudo vai decolar novamente”, Dirnt continua, se referindo à volta da banda à turnê em 28 de março, em Chicago. “Eu só quero ter certeza de que daremos um passo de cada vez.” Ele também revela a preocupação com o amigo de infância e conta sobre a primeira conversa séria depois que Armstrong voltou da reabilitação.

Na última edição da Rolling Stone EUA, Armstrong quebrou o silêncio em uma entrevista exclusiva. Ele descreve o que aconteceu no palco em Las Vegas, seus perigosos hábitos e o turbilhão emocional que levaram àquele dia, além da recuperação, que ainda está em processo. Ele também fala abertamente sobre o futuro da banda, incluindo o impacto dos problemas dele na recente trilogia lançada por eles, ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré!.

Leia abaixo a entrevista com Mike Dirnt:

Você viu algum sinal, antes do incidente em Las Vegas, de que Billie estava prestes a ter um colapso?

Nós fechamos os olhos – “Todo mundo, lidem com seus próprios problemas”. Porque estávamos trabalhando muito, desde American Idiot (2004). Não paramos de seguir em frente: o disco do Network (2003), Foxboro Hot Tubs, o musical [de American Idiot], os discos ao vivo, 21st Century Breakdown. Tem muita coisa que escrevemos e fizemos entre os álbuns que nem foi lançada. Eu olho para aquilo e penso: “Que tipo de ritmo é esse?”. Qualquer um teria quebrado no meio do caminho. Billie é muito impulsionado, Billie é música – ponto. Eu o amo por isso. Sou abençoado por tocar com meu melhor amigo e faço tudo que posso para apoiar essa banda. Mas há vezes em que ficamos tipo: “Precisamos mesmo escalar outra montanha, bem no meio dessa escalada que já estamos fazendo?”

Como foi aquele dia em Las Vegas, mesmo antes do show?

Estava tenso nos bastidores. Eles trancaram a gente em uma sala por cerca de seis horas. [Pausa] Não vou dizer “trancaram”. Mas eu não queria ficar no corredor com as equipes das outras bandas. Me senti como um rato enjaulado. Era um espaço confinado com um monte de gente esquisita em volta, pessoas que não conhecíamos entrando e saindo [do camarim]. Quando o Billie apareceu, foi tipo “Você não está bem. O que está acontecendo?”. Eu fiquei de olho nas coisas, e foi progressivamente ladeira abaixo. Eu e Billie – não brincamos mais como gente de 12 anos. Mas em certo momento fiquei, tipo, “vamos zoar”. De algum modo, acabamos lutando [de brincadeira] no backstage. Pensei: “Se eu puder tirar um pouco disso de dentro dele...” Mas com os moderadores de humor e o álcool, não acaba em festa.

O que passou pela sua cabeça quando você viu Billie perder o controle no palco?

Sabe, verdade seja dita, eu concordo com o que ele disse, fora o fato de ter mencionado outras pessoas. Eu sei que aquele não é Billie. Mas por um lado – eu concordei. Só que eu estava vendo meu amigo e pensando: “Você está fora de si”. E estávamos lidando com um show de merda.

Billie me disse que logo depois do incidente, antes de ele ir para a reabilitação, você o repreendeu sobre o modo como ele estava se comportando e o efeito que isso estava tendo nos outros.

Para mim, começou como preocupação com meu amigo. Depois virou raiva. Daí foi o ciclo completo: “Estou com raiva pelo que você está fazendo com você mesmo. O que quer que esteja acontecendo, esse não é você, e já foi muito longe. Você está fazendo isso sozinho, e não está deixando a gente entrar”. Às vezes você tem um amigo ou um ente querido que precisa de um chacoalhão. Eles não conseguem ver uma saída.

Ironicamente, isso aconteceu na semana em que vocês lançaram o primeiro dos três discos novos – um dos projetos mais ambiciosos da banda.

Nenhuma pessoa me ligou para dar os parabéns no dia que [¡Uno!] saiu. Todo mundo estava com medo de ligar e dizer qualquer coisa para nós. Eu fiquei um pouco deprimido. Graças a Deus, minha esposa estava lá para me ajudar a processar minhas emoções.

Billie disse que ele, você e Tré se reuniram para um ensaio em novembro, pouco depois de ele ter saído da reabilitação. O que vocês tocaram? Ele pareceu melhor, mais forte?

Honestamente, a primeira vez que tocamos foram só seis ou sete músicas, só para conseguir colocar as mãos nos nossos instrumentos juntos em uma mesma sala. Soou bem. Mas nós não estávamos...

Tocando com um propósito?

Exatamente. É como sair no seu quintal e ligar o carro antigo: “Bem, ele liga”. E aí você põe de volta na garagem. Havia uma preocupação mais profunda, uma emoção mais profunda. Nós não estávamos resolvidos. Mas todos nós tocamos muito. Eu toquei meu baixo por quatro horas [seguidas] na semana passada. E toco todo dia, por pelo menos 40 minutos, no sofá.

Você consegue dizer que há algo diferente no Billie agora?

A maior mudança agora é nas nossas vidas, especialmente para ele. Fomos forçados a parar, deixar a poeira baixar e refletir em nossas vidas, não apenas nas nossas realizações. Ouvir o silêncio. Ouvir a sua vida. Estar presente, não apenas pensar sobre o que vai acontecer na semana que vem, no mês que vem.

Como você acha que isso vai afetar a música que vocês fizerem daqui para frente, as músicas que Billie vai escrever?

Uma coisa que você tem nessa banda é realidade. A festa estava lá quando éramos mais jovens. Quem sabe para onde vai a partir de agora? Mas é sempre honesto. Quando ouço músicas, sinto. Gosto de músicas que falam comigo com uma verdade mais profunda.

Quando vocês voltarem para a turnê, como você espera que o backstage mude, para permitir que Billie mantenha a sobriedade, mas continue se divertindo?

É óbvio. O backstage não precisa ser um bar. E tudo bem para mim. É apenas para matar o tempo. E não temos que dizer sim para todas as oportunidades à nossa frente. Fizemos tipo 228 shows do American Idiot e 190 do 21st Breakdown. E isso não inclui os ensaios cinco dias por semana no meio. O meu negócio é que eu tenho que dar apoio ao meu garoto. E vou dar cobertura a ele, e então darei o próximo passo junto com ele. E vamos fazer isso fora do palco também.