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“Estão todos esperando a nova Lauryn Hill, a nova M.I.A., isso é bobagem”, diz Ana Tijoux

Leia entrevista com a artista franco-chilena, que se apresenta neste fim de semana em São Paulo, junto ao rapper Kamau

Stella Rodrigues Publicado em 16/09/2011, às 09h36 - Atualizado às 11h09

Ana Tijoux
Foto: Divulgação

A voz de Ana Tijoux até afina quando ela fala sobre a vinda ao Brasil e se lembra que será sua primeira oportunidade de tocar músicas do disco novo, La Bala, previsto para novembro. O trabalho começou a ser produzido em fevereiro, atualmente está sendo mixado e o primeiro clipe, relativo à música “Shock” – que marca sua estreia como diretora, por sinal – será lançado no próximo dia 25.

“A faixa fala sobre a ida dos estudantes chilenos para as ruas, para protestar pelo preço das escolas – o Chile é o país com a educação mais cara da América do Sul. Rodamos todo o videoclipe nas escolas, com declarações dos jovens, eu nem apareço”, conta ela, por telefone, em entrevista à Rolling Stone Brasil.

A chilena se apresenta em São Paulo, pela primeira vez, neste sábado, 17, no SESC Pompeia, junto ao rapper Kamau, que conheceu via Twitter. “Temos uma amiga em comum, a rapper Invincible, que acabou meio que apresentando a gente, e fui ouvir a música dele. Essa é a beleza das redes sociais, conhecer músicos incríveis de todos os lugares, sejam eles famosos ou não. Não planejo colaborações assim, gosto que seja natural. Até porque você pode acabar tendo muitas expectativas com alguém famoso, mas acaba perdendo alguém que não é famoso, mas é incrível. Dá para conhecer músicos maravilhosos na rua, por exemplo.”

Citando Marcelo D2 e Racionais MCs como artistas que mais gosta e respeita do nosso rap, afirma que ouve muito, mas guarda poucos nomes, quando se trata do hip-hop brasileiro. Falando sobre quem gostaria de conhecer e com quem pensa em armar colaborações nessa viagem para cá, solta um sonoro e longo “pffffff”, antes de complementar: “Quero trabalhar com todo mundo!”.

“Uma das coisas que me tornou rapper foi ter começado a ouvir Chico Buarque. [O Brasil] é a terra da poesia e da música. É mais do que o rap, é toda a música, a mistura entre afro e brasileiro é poderosa”, comenta. O Brasil está bem presente no novo trabalho, que conta com, entre outras participações, a de Curumin, que canta junto a ela um refrão em português na música “El Rey Solo”. “Ele compôs a parte em português, um refrão que fala que a coroa do rei está muito triste”, conta.

A incursão na nossa língua foi um desafio divertido para a rapper que, sendo filha de mãe francesa e pai chileno e tendo crescido no país europeu, optou pelo espanhol como idioma para cantar. Dando entrevista em inglês, com um sotaque acentuado, mas boa gramática (pontuada por alguns momentos de “ay, caramba, como se dice?”), Ana se declara a pior aluna de inglês de sua sala, na escola. “Fui aprender ouvindo hip-hop, porque queria saber o que eles estavam cantando e comecei a traduzir letras.” Por isso, entre outros motivos, a possibilidade de cantar em inglês, mesmo após ter conquistado uma fatia gorducha de público nos Estados Unidos, não interessa. “Faço rap no Chile, para o Chile, por isso é em espanhol. Mentiria se dissesse que não carrego a cultura francesa comigo também. Porém, sendo de uma família de imigrantes, convivi muito com as pessoas de outros países que se mudaram para lá. Muitos árabes, nigerianos.” Com uma influência majoritária da vida no Chile, salpicada pelo que colecionou de experiências na França, Ana se revela absolutamente distante do popular gangsta, no que tange sua realidade de composição.

“O rap é uma música que começou na América do Norte, mas que dá para achar em todo lugar. Cada artista pode adaptar o hip-hop para a sua própria cultura e todos os subgêneros são necessários. Não dá para inventar uma polícia para determinar o que pode e o que não pode. Os norte-americanos sempre me perguntam o que eu acho daqueles clipes cheios de mulheres e carros. Eu acho que não têm nada a ver comigo, não tenho um carro como aquele, as mulheres do meu bairro não se vestem nem se parecem com aquelas. Mas tem a ver com o ambiente de cada um. Posso amar Busta Rhymes, mas não sou como ele.”

Aliás, ela não é como ninguém. E foge ao máximo de se parecer com as outras mulheres da música, em especial. “Dá para sentir uma curiosidade cada vez maior do mainstream com mulheres rappers. A propósito, acho que vale em todo tipo de música. Tem a ver com a mudança da posição das mulheres no mundo. Mas é muito importante na arte achar sua própria voz, forma de se expressar e assinatura. Todos querem imitar os outros, no mainstream. Estão todos esperando a nova Lauryn Hill, a nova M.I.A., isso é bobagem! Só tem uma de cada delas!”

Apesar da paixão evidente pelo que faz, Ana Tijoux correu da profissão que havia eleito para si e ficou anos se escondendo da música. O mais curioso é que o motivo que ela alega soa como o de uma garota insegura, nem de longe semelhante à mulher esclarecida e assertiva que fala hoje, tanto na entrevista quanto em suas rimas extremamente femininas. “Dei um tempo da música porque a fama veio muito rápido e não estava pronta para ela. Eu não ficava confortável com as pessoas olhando para mim, queria somente que elas me ouvissem. Era bastante imatura, acho. Precisei parar e ver o que queria, porque fazia música, perguntas básicas. E quando voltei a trabalhar com isso, também não foi porque resolvi tudo, mas sim porque voltei ao Chile, de férias, e uma amiga me chamou para fazer uma canção e tudo me empolgou de novo.” Desta vez, ela está no rap para ficar.

Ana Tijoux no Brasil

16 de setembro

USP São Carlos - Rod. Washington Luís, km235

Grátis

17 de setembro, com Kamau

SESC Pompeia - Rua Clélia, 93

R$ 16 ou R$4 (comerciário)