Exclusivo: "Eu não sou culpada, não preciso da anistia", diz integrante do grupo Pussy Riot

Maria Alyokhina foi libertada da prisão na Rússia nesta segunda, 23

PATRICK REEVELL Publicado em 24/12/2013, às 14h30 - Atualizado às 15h31

Maria Alyokhina
AP

Na segunda, 23, Maria Alyokhina e Nadezhda "Nadya" Tolokonnikova, do Pussy Riot, foram libertadas da prisão depois de quase dois anos. Elas foram condenadas por vandalismo e ódio religioso em 2012. Depois de sair da casa de detenção, Maria foi imediatamente ao trabalho. Depois de uma hora em liberdade, ela se encontrou com defensores dos direitos humanos do Comitê Contra a Tortura para discutir reformas nas prisões da Rússia. A ativista e artista de 25 anos também encontrou tempo para falar à Rolling Stone EUA sobre as razões por trás da soltura dela, o futuro do Pussy Riot e como ela plantou as sementes para a reforma prisional lá de dentro.

Galeria: relembre bandas e atores que, ao defender causas, arrumaram problemas com autoridades.

Qual a sensação de estar livre?

Sabe, eu sempre fui livre, porque me sentia livre. É muito importante ser livre por dentro. A coisa mais importante é se sentir livre. Você tem o direito de escolher. Se tornar consciente desse fato é o que faz uma pessoa.

Por que eles te soltaram agora?

Simplesmente por causa de Sochi [cidade russa que vai sediar os Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro]. Eles queriam ficar mais atraentes antes dos Jogos. É por isso que resolveram fazer a anistia. Mas a anistia não é geral – é uma mentira. Eu sou a única que foi libertada da prisão e aí é que está o problema. Eles não vão deixar mais ninguém sair. Formalmente, é uma anistia geral, mas é uma mentira.

É verdade que você queria resusar a anistia?

Eu queria. Eu queria, mas infelizmente não estava nas minhas mãos. Se eu tivesse tido a possibilidade de fazer isso, eu definitivamente teria recusado essa anistia. Eu não preciso dela. Eu não sou culpada, não sou uma criminosa, eu não considero isso misericórdia.

O Pussy Riot continuará a existir?

[Pausa] Acho melhor darmos mais detalhes quando aparecermos juntas, assim não haverá nenhuma divergência. Precisamos nos encontrar primeiro. Tudo precisa ser conversado com Nadya. O que quer que façamos, estaremos definitivamente conectadas com aquele tipo de ação que achamos efetiva. E, acima disso, eu diria que se uma pessoa é conectada à arte, é para sempre. É impossível parar. É algo que vem de dentro.

Mas vocês estão planejando fazer algo juntas?

Será uma organização de defesa dos direitos humanos, mas de um novo tipo. Vamos usar a transparência de recursos da mídia para revelar problemas, com foco nas prisões, mas talvez também de maneira mais geral. Ainda estamos decidindo a forma, mas eu e Nadya somos unânimes quanto a esse assunto.

Como foram os últimos meses na prisão?

Minha vida tem sido bastante ativa, então eu não me senti como uma prisioneira. Estive fazendo trabalho de direitos humanos, explicando às mulheres como elas podem resolver suas queixas elas mesmas. E o que aconteceu é que essas mulheres decidiram começar a resolver elas mesmas os problemas com a administração. Essa voz que apareceu na prisão é muito importante. Porque quando uma pessoa em uma prisão russa decide começar a falar, a começar a falar a verdade – ela começa a rejeitar a opressão. É uma coisa muito importante, muito significativa.

Os prisioneiros russos precisam trabalhar 12 horas por dia e recebem – você não vai acreditar – entre um e dez euros por um mês de trabalho. Isso não é suficuente para nada. Todo mundo sabe que isso é injusto, mas não conseguiam provar isso. Eu sugeri como comprovar.