Foram obrigados a me engolir, diz o rapper Baco Exu do Blues ao lançar disco Bluesman

Com música Te Amo Disgraça na trilha de minissérie da TV Globo, rapper lança disco-conceito Bluesman para exaltar a negritude, com participações de Tuyo, Tim Bernardes, entre outros

Pedro Antunes Publicado em 23/11/2018, às 10h30

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Baco Exu do Blues lança o disco 'Bluesman' (Foto: Alex Takaki)

"Museus estão a procura de mármore negro pra fazer uma estátua minha”, canta Baco Exu do Blues em "Minotauro de Borges", música do seu segundo disco, Bluesman, lançado nesta sexta-feira, 23. Canta, não. Grita. Se esgoela. Chora, sangra pela garganta.

É ira e autoafirmação. Coloca-se no topo, mesmo diante de tantos muros erguidos ao seu redor: negro, baiano, rapper. Ele desafia, escala, transpassa.

Porque nunca foi fácil, afinal. E a resposta de Baco Exu do Blues, nascido Diogo Moncorvo, é sempre intensa. Foi assim que criou também "Te Amo Disgraça", hit altamente sexual do seu primeiro disco, Esú, que o colocou o rapper de 22 anos na linha de frente do rap nacional.

Com aquele álbum, escolhido como um dos melhores de 2017, e principalmente por conta da lovesong que fala sobre noites delirantemente quentes, vinho e taças estraçalhadas, ele chegou ao mainstream, à TV Globo. A canção, por exemplo, foi escolhida como música-tema do protagonista da nova minissérie da emissora chamada Ilha de Ferro, que estreou em novembro deste ano.

Também foi entrevistado por Pedro Bial, no programa Conversa Com Bial, em outubro. Lá, tocou a música em uma versão mais cristalina e climática, com banda, mas não se censurou. Cantou, na TV Globo, “vai, senta firme!”, “fudendo por toda casa” e por aí vai.

“Eu fiquei com muita vergonha”, diz o rapper, em entrevista à Rolling Stone Brasil, na sua nova morada, no centro de São Paulo. “Mas tem que estar na TV”, ele reflete. “É importante ter pessoas que representam o rap na TV porque o povo precisa ouvir, precisa entender. Não adianta só falar em mudar a galera se você não estiver nos mesmos lugares que o povo está.”

“É importante que a gente consiga alcançar o nosso publico. Funk e sertanejo chegam nas comunidade porque estão na TV, no rádio”

Baco Exu do Blues se mudou para São Paulo há quatro meses pela facilidade de estar próximo do estúdio no qual criou e gravou as canções de Bluesman. Vive, hoje, uma realidade distinta daquela que antecedeu a chegada de Esú. Porque, em 2016, Baco havia declarado guerra, apontou, com versos vorazes, a fenda que separava o nordeste do restante do País na música e, principalmente, com hip-hop.

“Mano, eu acho que essa barreira ainda existe. É muito clara pra mim. Que separa o Nordeste do Brasil. O Brasil ainda é muito preconceituoso com o nordestino. Enquanto não se resolver esse problema, essa barreira não vai quebrar”, ele diz.

E segue: “As pessoas tiveram que me engolir. Esú veio e foi indicado a melhor disco do ano. Um ano depois, eu estava ganhando dois prêmios Multishow (música do ano, com 'Te Amo Disgraça', e revelação do ano). Tá ligado? Elas não tiveram escolha, foram obrigadas a me aceitar.”

Baco Exu do Blues explica que a aceitação vem pela “validação da mídia”. “Muito se fala de uma nova cena da música baiana, a ‘nova Bahia’, o caralho que for, só é validado pela mídia. BaianaSystem é aclamado pela mídia, então tem que engolir. Com (o rapper) Hiran é a mesma coisa.”

Em 2016, a música “Sulicídio”, que conta com participação de Diomedes Chinaski, rapper pernambucano cujo álbum Comunista Rico está entre um dos “obrigatórios" de 2018, escancarou essa cisão, mas também colocou um peso enorme nas costas do rapper de então 20 anos.

Com o disco Esú, além de criar uma das lovesongs mais importantes dos últimos anos, ele também explodiu suas incertezas, angústias, dúvidas, e expôs sua depressão diante da pressão durante a gravação daquele disco com a música En Tu Mira.

“O flash está me cegando / O álcool está me matando / Minha raiva está me matando / Sua expectativa em mim, está me matando / Homem não chora / Foda-se, eu to chorando!”, ele dizia, na canção.

Sim, rapper chora. E tudo bem. Tudo ótimo.

Agora, no novíssimo Bluesman, ele versa: "Morri como rapper em En Tu Mira Voltei como Bluesman. E agora eu me sinto bem, bem, bem…”, diz "Kanye West da Bahia".

Aí está o conceito por trás de do disco: renascimento completo. A última frase do álbum, deixam claro para quem não entendeu o que foi dito ali ao longo dos 30 minutos de som, divididos em 9 músicas: "Se você não se enquadra ao que esperam… você é um “Bluesman”.

Portanto, Bluesman não é o que você imaginava de Baco Exu do Blues agora. Não é uma tentativa de reeditar Esú ou de "Te Amo Disgraça", embora o rapper entenda a importância dessa música. “É um hit, né? Grande parte do que eu conquistei hoje é por causa dessa música, mais do que com o Esú, eu entendo isso.”

Também sentiu a angústia de Esú, mas diferente. “Não era uma pressão dos outros, queria me provar, que eu era capaz de fazer esse disco com várias vibes diferentes”. Sim, Bluesman é um disco de blues sem usar o gênero musical blues. “

“Com Esú, eu provei o quão bom eu posso ser. Bluesman nasce sobre sentir a música, mais do que me mostrar como escritor, porque isso eu já fiz. Quero repetir um sentimento, mas não me enquadrar num gênero musical. Quero, com esse disco, quebrar o gênero musical. Não é um disco de rap, nem de MPB, quero que seja música, tá ligado?”

O conceito do álbum nasceu desse sentimento aqui, dito por Baco, “blues foi o primeiro ritmo a fazer pretos ricos”. “Eu ficava viajando nessa história”.

“Pensava muito naquela época, quando o blues surgiu, do preconceito. Os negros não podiam ficar no mesmo hotel que os brancos, tinham que usar bebedouros diferentes. Os bluesman foram os primeiros a quebrar isso. Isso sem saber, tá ligado?”

Bluesman tem a direção musical do próprio Baco, função que ele quer repetir, inclusive em discos de outros artistas. É dele toda a concepção do disco. No YouTube, cada faixa tem uma foto para representá-la.

O disco, que saiu nesta sexta-feira, 23, também vem acompanhado de um curta-metragem/clipe a música Bluesman, desenvolvido em parceria com o Coala Festival e a agência AKQA, dirigido por Douglas Bernardt.

Assista ao curta-metragem de Bluesman: 

A gravação, mix e master de Bluesman são assinadas por Cesar Pierri. Os beats ficam entre Portugal (as faixas “Bluesman” e "Me Desculpa Jay-Z”) e o duo DKVPZ (“Queima Minha Pele”, Minotauro de Borges”, “Flamingos” e “Preto e Prata”), os dois assinam as batidas de “Girassóis de Van Gogh”. O encerramento, a ótima "B.B. King", tem os beats do JLZ.

As participações escolhidas por Baco são precisas. Tim Bernardes canta e toca piano na ardida "Queima Minha Pele". “O Tim tem uma dor na voz dele, precisava disso pra essa música”, explica Baco. 1LUM3 canta em “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis de Van Gogh” - nela, Bibi Caetano também canta.

O trio curitibano Tuyo, destaque do novo R&B brasileiro, canta na chorosa "Flamingos".

Bluesman tem uma porção de músicas que podem alcançar a popularidade de Te Amo Disgraça. São a cara de Baco Exu do Blues e pop, ao mesmo tempo. "Queima Minha Pele" e "Me Desculpe Jay-Z" machucam pelo amor devastador que se foi. "Flamingos" tem um refrão que pega: “Ouvindo Exalta na quebrada, gritando ‘eu me apaixonei pela pessoa errada’”. Que delícia de música!

Aliás, prepare-se, suas redes sociais serão invadidas por citações e indiretas para os crushes vindas diretamente dessas novas canções de Bluesman. “Blues é triste, irmão”, ele diz, sorrindo.

Mas Baco também chora por outras questões que não o amor. Na segunda parte de "Kanye West da Bahia", ele é visceral ao falar de racismo. "Eu espanquei Jesus / Quando vi ele chorando, gritando, falando / Que queria ser branco, alisar o cabelo / E botar uma lente pra ficar igual / A imagem que vocês criaram”. Um soco na boca do estômago.

Bluesman também traz a teoria “preto e prata” de Baco Exu do Blues. O rapper compara a cor da pele com o brilho da prata, menos valioso do que o ouro, embora a composição química seja quase igual.

“Tive essa brisa ao descobrir que a prata era um dos metais mais puros. Só que o ouro é mais raro. São a mesma coisa, só muda a cor. E a questão dos negros no Brasil é a mesma coisa. São maioria.”

Baco Exu do Blues começou a trabalhar em Bluesman como um EP, acabou envolvido nos conceitos que o costuram. Virou um disco com 9 faixas. Iniciou os trabalhos logo que soltou Esú, em setembro do ano passado, e viu sua vida mudar inteira. Em pouco mais de um ano, gravou Bluesman, e lançou outras músicas soltas, como “Facção Carinhosa”, “Sinfonia do Adeus”, a trilogia o amor (formada pelas músicas “Banho de Sol”, "Tardes que Nunca Acabam” e “Última Noite”) e "Lovesong" (criada para apresentar Shan Luango, novo artista do seu selo).

Baco ainda tem um projeto com Pretinho da Serrinha, de samba, para o qual faltam poucos detalhes para terminar. Tudo sem descanso. “Eu não paro de trabalhar, irmão”, ele diz.

Diogo, ou Baco, não se deixou levar pelos views e cliques de Te Amo Disgraça, o que era infinitamente mais fácil e confortável. A música só chegou agora na TV Globo e ele já lançou um punhado de novas composições. Foi em frente. sempre em frente. Então, como diz seu próprio novo álbum, “se você não se enquadra no que os outros esperam, você é um bluesman”. Diogo Moncorvo é um deles, um bluesman, sem dúvida.