"Estou orgulhoso por ainda estarmos juntos”, diz frontman do Franz Ferdinand

Alex Kapranos fala sobre o quase término da banda e o novo álbum

SIMON VOZICK-LEVINSON Publicado em 03/11/2013, às 15h24 - Atualizado às 17h21

Alex Kapranos, do Franz Ferdinand, foi só simpatia
Carolina Vianna

O Franz Ferdinand voltou: depois de um intervalo de quatro anos, o grupo escocês passou um mês em turnê pelos Estados Unidos com seu último álbum, Right Thoughts, Right Words, Right Action. Cada noite é uma celebração de uma década de carreira da banda, que varia músicas novas com hits antigos, como “Take me Out”, de 2004, e “This Fire”. “Nós estamos curtindo muito mesmo”, diz o frontman Alex Kapranos, relaxando no backstage antes de tocar no Hammerstein Ballroom, em Nova York. “Sinto como se estivéssemos nos conectando com a nação norte-americana de novo.”

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Kapranos, 41, passou a tarde antes do show mergulhado em um bom livro. “Estou lendo uma coletânea de contos de um cara chamado Etgar Keret, um escritor israelense”, ele diz. “Se chama The Bus Driver Who Wanted to Be God. Então fui até o Central Park e li meu livro. Que coisa boa poder fazer isso quando se é um cara de Glasgow que toca numa banda de rock!”

Alex Kapranos, vocalista do Franz Ferdinand, fala sobre novo disco e a relação da banda com o Brasil.

Nós falamos sobre o início da banda, por que eles quase terminaram antes do novo álbum e mais. Leia uma transcrição levemente editada da conversa com a Rolling Stone EUA.

Do que você lembra da primeira vez que fez uma turnê pelos Estados Unidos?

Nossa primeira viagem foi para Nova York. Foi há quase dez anos, depois que o primeiro disco saiu. Nós tocamos no Pianos primeiro, então tocamos em um lugar em que eles tinham uma menina vestida de sereia nadando em um tanque. Acho que fechou um mês depois de termos tocado lá. E daí tocamos no Mercury Lounge. Eu lembro particularmente de Pianos. Existia alguma legislação que Giuliani fez que não permitia mais de três pessoas dançando ao mesmo tempo [sem uma licença de cabaré]. Para uma banda que supostamente tocava música para as pessoas dançarem, pareceu um pouco absurdo. Então eu lembro de dizer depois de cada música, “Obrigado por não dançarem”! [Risos]

Você lembra de ter pensado na época se a banda ainda estaria junta em 2013?

Não faço a menor ideia. Não há como prever como você vai se dar com as outras pessoas, sabe? Quer dizer, estou muito orgulhoso por ainda estarmos juntos e por ainda sermos amigos, acima de qualquer outra coisa. Eu acho que permanecermos amigos é uma conquista maior do que continuarmos gravando discos.

Você afirmou não ter certeza se queria continuar com a banda depois do último álbum [Tonight de 2009]

É. Eu só queria manter a banda se continuássemos amigos e nos déssemos bem e fazer música fosse prazeroso. Então eu me encontrei com Bob [Hardy, o baixista do Franz Ferdinand] e conversamos sobre o assunto. Era mais o relacionamento meu com Bob que precisava ser trabalhado. E fomos Bob e eu que formamos a banda, em primeiro lugar, então precisava funcionar.

Por que vocês se afastaram?

Não há um grande mistério por trás. Nós apenas paramos de falar um com o outro da maneira que convinha. Sabe, eu entrevistei [o guitarrista] Wilko Johnson recentemente e o que ficou comigo da experiência foi como ele se arrependeu de não ter feito as pazes com Lee Brilleaux, cantor do Dr. Feelgood. Foi exatamente a mesma coisa. Eles pararam de se falar, e esses ressentimentos idiotas acabaram separando uma das melhores bandas da Inglaterra. Eu queria ter certeza de que isso não aconteceria conosco.

Como vocês acabaram fazendo um novo álbum?

Escrevemos como se estivéssemos compondo um set de EP ou de singles – escrevemos três ou quatro faixas, tocávamos em um show ao vivo e depois gravávamos rapidamente. O princípio era não ir pro estúdio até termos as músicas. Eu gosto da ideia de uma boa música. Eu sei que soa burro e estúpido e óbvio, mas as pessoas se esquecem disso. Tipo, fizemos uma cover da faixa “Oblivion”, da Grimes, numa rádio francesa recentemente. Essa música é ótima. Mas eu li algumas coisas sem noção falando da música como se ela fosse revolucionária. Em termos de sonoridade, ela é ótima e original – mas a essência da popularidade da música é o fato de ela ser ótima! Liricamente, é poderosa e tem uma melodia linda que é simples. Por isso que quisemos fazer a versão.

Escrever é fácil para você?

É algo que curto, então não é um dever. Tem, geralmente, duas fases. Uma é a fase sem esforço, quando a ideia simplesmente vem. Então tem a parte de editar e talhar. Eu lembro de ler sobre Raymond Carver e como ele trabalhava com o seu editor [Gordon Lish]. Tem duas versões de What We Talk About When We Talk About Love, a versão editada e a versão original. Pessoalmente, prefiro a editada. Tem uma aridez e uma magreza no texto que eu realmente amo, e eu acho que é isso que você encontra em uma boa música pop. É um apelo que me atinge. Tem um prazer quase masoquista em cortar parte de algo que você criou.

Um dos trechos de letra mais marcantes do novo álbum é “Não toque música pop, você sabe que eu odeio música pop”. Você realmente odeia?

Tem a ver com o contexto mais do que com qualquer outra coisa. Brinca com a ideia de ser um narrador duvidoso. Eu não sei porque existe o pressuposto de que o cantor e a eu-lírico são a mesma coisa. Você não acha que a Agatha Christie é assassina, sabe? Mas quando eu escrevi, tinha ido há dois funerais, e lido a respeito do funeral do [presidente francês François] Mitterand e sobre como sua esposa e sua amante e filha da amante estavam lá ao mesmo tempo. Que oportunidade maravilhosa se dirigir a essas pessoas! A primeira coisa que pensei foi, “Ah, certo, enquanto eu estiver desaparecendo em um buraco, não toque música pop”. Estou sendo irreverente. Mas geralmente funerais – especialmente em funerais de pessoas jovens – se tornam oportunidades de impor música ruim para os amigos pela última vez.

Então o que você gostaria que tocasse no seu funeral?

A marcha fúnebre de Chopin é bem incrível. Eu não sei. Eu não pensei muito no assunto.

Desculpe, foi uma pergunta meio mórbida.

Não, não. Esse é o lance. Eu não me importo de falar desse assunto. Eu acho que é uma doença da sociedade moderna, não ser capaz de falar sobre a morte. Sabe, minha avó morreu em janeiro, na Grécia, e ela teve um funeral tradicional ortodoxo grego, com o caixão aberto, e lógico que foi um momento traumático e horrível. Mas tem algo que eu realmente gosto sobre a natureza do funeral em si – foi um encerramento completo. Você percebe que é o final.

Agora que vocês alcançaram a marca dos dez anos, você acha que estará de volta para uma turnê em 2023?

Quem sabe? Eu tenho certeza de que estarei fazendo música, de uma forma ou de outra, porque eu sempre fiz – se eu ainda estiver por aí, sabe? Essa é outra coisa que você não consegue prever. Então, é. Se ainda estiver aqui, pode ser que sim.