“A gente tem que ter humildade para eventualmente perder a competição para uma criança de 12 anos”, diz Bob Burnquist

O skatista conversou com a Rolling Stone Brasil sobre a carreira, planos para o futuro, o lado músico e talentos da nova geração

Stella Rodrigues Publicado em 18/05/2013, às 12h45 - Atualizado às 12h57

Pedimos para Bob Burnquist listar cinco grandes promessas do skate. Veja o que ele falou de cada jovem (ênfase no jovem) talento.


Por Stella Rodrigues
Divulgação/Pablo Vaz

Na última edição dos X-Games, realizada em Foz do Iguaçu, Bob Burquist, um dos nomes mais reconhecidos do mundo quando o assunto é skate, conquistou pela quinta vez o ouro na Mega Rampa. Curiosamente, aos 36, estava competindo com uma pessoa da idade da filha dele, que tem 12 anos. O garoto em questão, além de ser um concorrente, é também uma espécie de filho dele no esporte, de certa forma.

“A gente tem que ter humildade para eventualmente perder a competição para uma criança de 12 anos. Isso é muito possível, porque Tom Schaar é um fenômeno, ele e o Mitchie Brusco são skatistas de grande talento", diz Burnquist. "É impressionante chegar ao nível que eles chegaram na Mega Rampa tão rápido. Não tem essa de ‘ah, vou perder ao vivo pra um menino de 12 anos’. Não interessa, se ele realmente ganhar na manobra, ganhou! Por outro lado, tem o incentivo. É engraçado porque o Tom tem 12 anos, minha filha tem 12 anos. Eles saem, brincam juntos. É engraçado interagir e de repente lembrar que é uma criança. Ele às vezes faz uma manobra impressionante e olha para mim para saber o que eu achei”.

Bob Burnquist tem orgulho desse papel de pai e mentor que tem assumido para diversos novos talentos do esporte. O atleta acredita que essa função faz parte do que chama de “trabalho de base”. "Para que os amadores comecem a andar, precisam do incentivo do profissional. O amador começa olhando para o que pode ser. Não é todo mundo que vai conseguir patrocínio e viver do skate, mas isso não quer dizer que você não vai andar de skate. O mais importante é fazer o que gosta. Além de tudo isso tem o trabalho, a disciplina. Porque o talento para o skate vem em uma idade em que a pessoa nem sempre lida tão bem com o profissionalismo e, quando amadurece, a oportunidade passou, existem outros surgindo.”

Enquanto esses surgem, Bob encara o futuro. Ele já declarou diversas vezes que o skate é para sempre. Contudo, a competição não necessariamente. “O skate competitivo demanda muita dedicação”, diz. “Meu nome cria uma expectativa com a minha performance. Enquanto eu conseguir viver à altura disso e me sentir bem – porque às vezes a expectativa das pessoas está acima da realidade – vou continuar competindo. Já pensei sim em parar, porque é a mesma coisa sempre. Eu quero aprender manobras novas e às vezes o calendário de competição me segura de evoluir em muitas outras coisas. Hoje em dia tenho que fazer tudo ao mesmo tempo, tenho que entre as competições aprender manobras novas em casa, filmar coisas diferentes, pensar em rampas diferentes, fazer projetos paralelos. Quando tem o campeonato, paro tudo.” Então, ele define: “O skate existe na criatividade, fora de competição. Vejo a competição como o lado trabalho”.

O espírito autodidata que adquiriu com o skate moldou a forma como Bob enfrenta desafios e novos aprendizados. Mais notadamente, se faz transparente na forma como ele encara o aprendizado musical, hobbie que leva bastante à sério, a ponto de deixá-lo andar na linha entre a distração e o profissional. “Toco bateria todo dia, mas não de forma estruturada. Não fiz aula, mas fui aprendendo com meus amigos que têm talento. Faço uma sessão na bateria para aquecer antes do skate, esquecer as complicações. Isso funciona muito bem. Gosto mais de tocar violão à noite, ponho minhas filhas para dormir", conta. "Gosto do Ben Harper, aprendi duas músicas que consigo tocar e cantar ao mesmo tempo. Vira e mexe tento escrever algo, junto uma série e acordes e canto algo que estou sentido”, conta, afirmando que não tem nenhuma intenção de lançar um disco, por exemplo. “Não sei ler música, consigo mais ou menos pelo ouvido. Para ficar lá na bateria, coloco em uma estação de rádio daquelas que você monta o canal e vou seguindo.”

“No skate, o curso é com os nossos amigos, um com o outro”, continua. “Você vê um vídeo para aprender a fazer uma manobra, aí filma você mesmo fazendo. Mas isso também é de personalidade, minha personalidade é muito independente. Eu tenho uma disciplina. Se for malhar, fazer ioga, qualquer coisa, não vou para a academia, faço em casa, sozinho. Isso o skate me ensinou. Caiu, levanta. Muitas vezes as pessoas não aprendem porque têm medo de errar. Eu erro todo dia, não tem problema. Erro, machuco, levanto e vamos embora”, encerra.