Gringo sampleia Cartola por causa de Cidade de Deus

DJ e produtor Don Cannon, parceiro de 50 Cent, descobriu "Preciso Me Encontrar" em trilha sonora

Por André Maleronka Publicado em 04/07/2008, às 15h02 - Atualizado às 17h58

Cannon: "Quero discotecar no Brasil, me convidem!"
Reprodução

A fascinação dos produtores norte-americanos de hip hop pela música brasileira não pára de crescer. Uma das provas cabais desse interesse está no novo álbum do grupo G-Unit, capitaneado por 50 Cent, e que conta ainda com os rappers Tony Yayo e Lloyd Banks. TOS - Terminate On Sight, segundo disco do grupo, saiu dia primeiro de julho nos EUA, e a expectativa é que suas vendas superem a do anterior, Beg For Mercy, que vendeu 2,3 milhões de cópias nos EUA e 4 milhões no restante do planeta. Os brasileiros que escutarem a décima-segunda faixa, "Let it Go", vão se deparar com a voz inconfundível de Cartola.

O DJ e produtor Don Cannon, responsável pela faixa, declarou: "Eu sou um grande fã de música brasileira, e um dos meus filmes preferidos é Cidade de Deus. Eu comprei a trilha sonora e não conseguia parar de escutar essa música do Cartola. Um ano depois resolvi sampleá-la".

A música original é "Preciso me Encontrar", composição de Candeia gravada por Cartola quando o cantor tinha 67 anos, em seu segundo álbum - lançado em 1976 pela gravadora Marcus Pereira, e considerado o oitavo maior disco da música brasileira segundo lista publicada pela Rolling Stone. A canção foi regravada também pela cantora Marisa Monte em seu primeiro disco, MM, lançado em 1989 e agraciado duas vezes com disco de platina (600 mil unidades vendidas).

"Não sei sobre o que ele fala na música"

Novo uso estrangeiro de um dos clássicos do cancioneiro nacional, "Let it Go" é praticamente o contrário do original. "Preciso me Encontrar" é um lamento existencial sobre o desejo de transcendência, uma redenção espiritual via observação e reencontro com a natureza. Sobre a batida peso-pesado de Cannon - "na produção, meu forte é a bateria", declara - e um loop que usa o violão e o oboé do samba, os rappers da G-Unit se comportam com a habitual grandiloquencia histérica de vilões de videogame que compõe suas figuras públicas: cheios de desconfiança alheia e confiança pessoal, imersos em simplicidade brutal. "Eu não entendo português, então não sei sobre o que ele fala na música", confessa Cannon, "mas tentei capturar o aspecto distinto da música brasileira".

Ouça "Let It Go", do G-Unit, aqui

O nome do grupo norte-americano, G-Unit, onde o G significa Guerrilha e Gângster, converge para criar mais uma ironia do destino. O compositor de "Preciso me Encontrar", Candeia, foi policial civil durante a vida. Falecido em 1978, Candeia foi também parceiro de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Dona Ivone Lara, teve músicas gravadas por Elza Soares, Martinho da Vila, Eliseth Cardoso e Zeca Pagodinho, era aposentado por invalidez desde o final da década de 60, quando foi atingido por uma bala durante uma briga de trânsito. Ele compôs "Preciso me Encontrar" a pedido do jornalista e escritor Juarez Barroso.

Don Cannon recentemente produziu faixas para figuras constates das paradas de sucesso, como Lil Wayne e Outkast, e pretende continuar utilizando elementos brasileiros em sua música. "Eu conheço alguns artistas brasileiros da década de 70, e estou preparando meu disco solo. Sei também que o rap aí pega fogo!". O produtor se notabilizou pelas mixtapes - coletâneas mixadas com faixas novas ou exclusivas de diversos artistas - que faz ao lado do DJ Drama.

Em janeiro do ano passado o escritório de ambos foi invadido pela SWAT, que confiscou mais 50 mil CDs e os prendeu alegando violação das leis de diereitos autorais. "Todo mundo que gosta de hip hop sabe o quanto as mixtapes são importantes e valiosas: divulgam novas músicas e artistas. Infelizmente eles não enxergam isso. O processo ainda está rolando, mas a gente faz o que pode: continuamos em movimento, sempre trazendo gente nova para o jogo". Ele completa: " Tenho muita expectativa nesse disco da G-Unit, eles são bons amigos, adoro a ética de trabalho deles. E eu quero ir discotecar no Brasil, me convidem!".