Helmet salva SP Noise

Banda norte-americana lota segundo dia do SP Noise com músicas de toda carreira; Do Amor se destaca como a melhor banda nacional do festival

Por Bruna Veloso Publicado em 24/11/2008, às 10h20

O Helmet veio para encher de gente a segunda e última noite do primeiro SP Noise - e para encerrar a temporada de revivals dos anos 1990, que no segundo semestre teve nomes como Breeders e Mudhoney. Boa parte do público devia estar na puberdade quando o vocalista Page Hamilton lançou, em 1991, Strap It On, primeiro álbum da banda.

A sorte dos paulistanos veio do azar da platéia de Brasília: o Helmet só veio para a cidade por ter cancelado a apresentação que faria na capital federal. Para encaixar a banda, a organização adiantou os shows em pouco mais de meia hora, e conseguiu fazer com que os grupos principais fizessem apresentações completas, com cerca de uma hora de duração.

Ao que parece, a noite desta sexta não deveria ter sido diferente: segundo a organização, o Black Mountain teve de encerrar sua apresentação abruptamente porque o contrato com a casa estava fechado apenas até as 22h30, já que depois desse horário o lugar vira uma balada GLS. O problema é que o início dos shows foi postergado por conta do baixo público, prejudicando a atração canadense.

Clique aqui para saber como foi a apresentação do Black Mountain e das outras atrações do SP Noise na sexta, 21.

Bate-cabeça e eleitos de Cobain

O Helmet promoveu o grande momento do festival. Com 20 anos de carreira, a banda destilou os acordes pesados em músicas de toda sua discografia - o que foi avisado logo no início do show, quando ao ouvir um pedido da platéia, Hamilton respondeu com um "fuck you!", afirmando que a banda tocaria o que quisesse, passando pelas duas décadas de existência do grupo. Mas a postura ranzinza inicial não se manteve durante o restante da apresentação. O vocalista, aos 48 anos, grisalho e ensaiando uma careca, conversou com o público entre as músicas. E sua voz continua tão poderosa quanto há uma década - o que é possível perceber em faixas como "See You Dead", "Iron Head" e "Driving Nowhere".

A guitarra suja e concisa de Hamilton, com uma mistura de metal e hardcore, segue com pausas entre os riffs enquanto canta os versos, para explodir, com direito a um ou outro solo, quando o vocalista se afasta do microfone. Em "Wilma's Rainbow" a roda de pogo atinge seu auge - quem ansiava por um mosh teve que se contentar em ser levantado por colegas, já que a frente do palco estava cercada de seguranças. "Milquetoast", última antes do bis, teve baixo destacado, muita gente cantando e um longo trecho instrumental comandado por Hamilton, a essa altura, com a camiseta encharcada de suor. Para elevar ao máximo os ânimos de quem se acabava no meio da roda, a banda fechou com a poderosa "Unsung", de Meantime, segundo álbum da carreira.

Depois da descarga de adrenalina provocada pelo Helmet, ficou difícil para o Vaselines segurar o público, que se tornou visivelmente menor durante a apresentação dos escoceses. A mistura de guitarras suaves com algo ingênuo promovido pelo dueto vocal de Eugene Kelly e Frances McKee teve seus pontos altos nas três faixas consagradas pelo Nirvana - "Son Of A Gun", que abriu a apresentação, "Molly's Lips" e "Jesus Wants Me For a Sunbeam". O Vaselines tornou-se conhecido depois que Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, afirmou que Kelly e McKee estavam entre seus compositores favoritos. Mas os escoceses têm mais valor: a mistura da voz suave de McKee e do vocal grosso e sem muita melodia de Kelly confere ao grupo (que hoje conta com a participação de Steve Jackson e Bob Kildea, do Belle & Sebastian) originalidade. A bela "Jesus...", mas rápida que na versão do Nirvana, é o maior exemplo do bom funcionamento da dupla nos vocais. Simpática e com jeito de menina, McKee (ela quase não mudou dos anos 1990 para cá, enquanto Kelly já ostenta cabelos brancos) falou bastante com o público - mas o sotaque de Glasgow, capital da Escócia, dificultava o entendimento. "Monsterpussy", "Rory Rides Me Raw" e "Sex Sux (Amen)", tocadas em SP, podem ser ouvidas em The Way Of The Vaselines: A Complete History (1992), com todas as faixas de Dum Dum, único álbum da banda, mais singles.

Nacional de peso

Os cariocas da Do Amor se apresentaram, infelizmente, para pouca gente. Com músicos competentes (dois deles tocam na banda de Caetano Veloso) e faixas dançantes, o grupo se saiu como o melhor representante nacional no festival em São Paulo. O baterista Marcelo Callado, o baixista Ricardo Dias Gomes e o guitarrista Gustavo Benjão se revezam nos vocais, juntos ou separados. Músicas divertidas (a exemplo de "Pepeu Baixou em Mim") e com guitarras que lembram os Paralamas de "Alagados" se destacam na apresentação.

O rock de garagem do Black Lips foi o único som capaz de lotar o pequeno espaço à frente do palco 2. Com o vocalista principal vestido como um mexicano deslocado, de poncho e chapéu de cowboy, a banda seguiu com uma apresentação animada - mas o peso das guitarras e da bateria prejudicaram o som da banda no conjunto, com o volume estourado nas caixas e os vocais sublimados pelo barulho. Cole Alexander, o mexicano, cospe para o alto, enquanto o baterista Joe Bradley dança ao mesmo tempo em que toca. "O Katrina!", do disco Good Bad Not Evil, é a mais dançada. No final do show, a banda se torna a primeira a receber palmas substanciais no palco 2.

O som mais quadrado, com influências do stoner rock, dos chilenos do The Ganjas não agradou ao público, que aos poucos foi saindo em direção ao palco onde tocaria o Black Lips. Dos Estados Unidos, o Calumet-Hecla foi mais feliz, mesmo com um som mais difícil de digerir: longos trechos instrumentais, depressivos e extremamente barulhentos são a marca do quarteto. Antes deles, os paulistas do Homiepie abriram os trabalhos do segundo dia de SP Noise, sem bateria e com um som cru (no sentido de falta de produção) demais, para o público que começava a chegar ao local.

Helmet, The Ganjas, The Tormentos e Motek (as duas últimas se apresentaram no primeiro dia do Noise em São Paulo) tocam neste domingo, 23, no fechamento da 14ª edição do Goiânia Noise Festival, evento que gerou a estreante versão paulistana.