Breaking Bad inicia seu fim neste domingo, 11

Cinco temporadas geniais de noir do deserto nos levaram aos mais sombrios sonhos americanos

Rob Sheffield Publicado em 10/08/2013, às 11h18

Breaking Bad
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"Fale meu nome!", Walter White ordenou ano passado em seu momento mais delirantemente cruel em Breaking Bad até hoje. Sob o sol do deserto, sua cabeça careca brilhando como uma faca, ele mandou uma gangue de traficantes admitir que sabia exatamente quem ele era: Heisenberg, o lendário químico barra pesada, o homem com a receita incrível para fazer metanfetamina. Ninguém nunca soou tão ridículo citando Beyoncé do que esse nerd, ex-professor de ciência de escola que se tornou um chefão do tráfico de drogas. Mas isso apenas tornou a cena toda mais assustadora. Todo mundo falou aquele nome em voz alta e ele adorou escutar.

Os 10 assassinatos mais marcantes de Breaking Bad.

Agora, com Breaking Bad iniciando seu trecho final neste domingo, 11, nos Estados Unidos, retomamos as promessas que Walter White fez no fim da última temporada. Sabemos que ele quer sair do mundo das drogas. Ele se comprometeu a voltar a ser Walter White. Mas a gente não acreditou muito nele por duas razões. A primeira é que gostamos muito mais de Heisenberg do que de Walter White. A outra é que Walter White também gosta mais de Heisenberg. Como não gostar?

Breaking Bad está chegando ao fim. São os oito episódios finais de um épico gloriosamente sinistro de um gângster norte-americano totalmente diferente de todos os outros. Ao longo dos anos, Bryan Cranston transformou a vida curta e infeliz de Walter em um arquétipo do mal de tudo que pode dar errado no sonho do pai classe média. É comparável, em termos de força dramática, a The Wire, exceto pelo fato de que toda a rede criminosa está dentro do crânio de um único homem. Ele é o jogo, o que quer dizer que não tem como escapar.

O último episódio exibido chegou a um clímax bombástico – onde mais? – no banheiro, quando Hank achou a cópia mais incriminadora do livro de Walt Whitman, Folhas de Relva , desde aquela que Bill Clinton deu à Monica Lewinsky (para retribuir, Monica deu ao presidente Oy Vey! The Things They Say! A Book of Jewish Wit. Alguma chance de Walter ter esse livro em algum lugar da casa também?).

Como pode Walter, um planejador tão meticuloso a ponto de esconder seu cigarro de ricina dentro da caixa da tomada, deixar largada no banheiro uma nota escrita à mão por um criminoso morto? É um risco bobo de se correr quando se trata de Walter – e o fim da primeira parte da temporada foi cheio desses. Dentre os mais espetaculares, tivemos o banho de sangue na prisão que ele encomendou, eliminando nove detentos ao mesmo tempo. Colocar nazistas para fazer o trabalho sujo dele foi uma aposta maluca. Walt faz muitas dessas enquanto diz a ele mesmo que é o único jogador racional participando do jogo. Todo mundo sabe que isso não pode terminar bem, certo?

Tem sentindo que o poeta dessa história sobre crime seja Walt Whitman – um escritor que tirou sua inspiração sombria dos segredos dolorosos que os homens norte-americanos carregam por aí. Essas folhas de relva sobre as quais escreveu – essa não é uma imagem doce e pastoral. Whitman via toda aquela grama como "os belos cabelos não cortados dos túmulos". E o outro W.W. deixou muitos corpos mortos pelo caminho dele. Chefões do tráfico geralmente não se aposentam, conforme o mundo já aprendeu com a música "Freddie's Dead", com Stringer Bell [de The Wire] e Tony Montana [de Scarface].

Bem no começo da nova temporada, alguém diz “não nos restou mais nada a não ser tentar viver vidas ordinárias e decentes”. Mas essa certamente não é uma opção para Walter, que já passou anos provando que não conseguiria. Foi tentador, a princípio, ver a coisa toda como "o cara bom que ficou mau” ou até mesmo como uma história de "fazendo o errado pelas razões certas”. Mas aí Walter descobriu que ele sempre foi corrupto e terrível – ele só era incompetente demais para perceber isso. Seu suposto amor por sua família era uma pegadinha superficial que não engana ninguém a não ser ele mesmo. Heisenberg é sua real identidade; Walter White é a fraude. Então, ele pode até esperar que possa se endireitar, mas nós lembramos como os olhos dele brilharam quando ele rosnou “fale meu nome!”. E ele também se lembra. Essa é sua maldição.