Inverno com jazz e blues em Rio das Ostras

Pau Brasil faz o melhor show das duas primeiras noites da sétima edição do festival

Por Antônio do Amaral Rocha Publicado em 12/06/2009, às 16h06

No momento em que outros festivais do gênero são cancelados em diversas partes do mundo, o incansável produtor Stenio Mattos não deixou a peteca cair. A sétima edição do Rio das Ostras Jazz e Blues Festival (na cidade de Rio das Ostras, litoral do Rio de Janeiro), de 10 a 14 de junho, desta vez optou por uma seleção não-purista ao celebrar o fusion e vertentes variadas do jazz e do blues.

O show de abertura na primeira noite, como nos anos anteriores, no palco Costa Azul, trouxe a Orquestra Kuarup Cordas & Sopro, regida pelo maestro Nando Carneiro e formada por alunos e ex-alunos da Fundação Rio das Ostras. A programação do dia 10 teve ainda a dupla de violonistas Fabio Pascoal e Fernando Mello, o Duofel, mais o percussionista Fabio Pascoal, formado na trupe de Hermeto Pascoal. A dupla de violões do Duofel é o que pode se chamar de salada sonora. Ouve-se desde ecos de Led Zeppelin até a viola nordestina. O modo como os músicos se debruçam sobre o instrumento é totalmente fora do convencional, ora esticando as cordas, ora soltando-as, e ainda usando o arco, como se o violão fosse uma rabeca. O Duofel não deve nada aos melhores violonistas do planeta e teve aqui mais um momento de consagração.

Ari Borger, pianista e organista, fez o último show da noite, acompanhado de um trio - baixo acústico, bateria e guitarra. Ari toca o seu blues num órgão Hammond B3 e deixa o público extasiado, explorando o máximo do seu instrumento. Na sua banda, destaque para a excelência técnica do guitarrista Celso Salim, que brilha nos solos, deixando o blues cada vez mais próximo do rock. No repertório, o acerto ficou por conta da inclusão de "Norwegian Wood", dos Beatles. Ari Borger repetiu o mesmo show no segundo dia, na Lagoa do Iriry, onde 1,5 mil pessoas o assistiram debaixo de um sol de 28 graus. Contornando dificuldades técnicas, Ari substituiu o piano da primeira noite por órgão e teclados.

O palco Praia da Tartaruga recebeu, no final da tarde do dia 11, a banda Rudder. Liderada pelo baixista Tim Lefebvre (acompanhado do saxofone de Chris Cheek, dos teclados de Henry Hey e da bateria de Shawn Pelton), o grupo faz um som com efeitos e distorções, um laboratório de experimentações. O sax e o teclado se revezam em solos vigorosos. Não dá para classificar bem o som da banda - sabe-se, porém, que o Rudder leva o conceito do fusion a altas potências. Mesmo tendo decepcionado quem esperava mais, a banda acumulou uma plateia de 3 mil pessoas - que só não se empolgou na dança por falta de espaço.

Blues e baião: rio Mississipi e Capiberibe

Na noite do segundo dia, uma grata surpresa: a Jefferson Gonçalves Blues Band. Jefferson é um batalhador do blues - o gaitista faz do seu minúsculo instrumento uma presença marcante em meio aos outros sons. Tocando o repertório do disco Ar Puro, ele faz uma perfeita fusão dos rios Mississipi (EUA) e Capiberibe (Pernambuco), aproximando ritmos nordestinos ao blues, sem que isso pareça absurdo. Generoso, Jefferson abriu espaço para o baixista cearense Michael Pipoquinha, menino-revelação que, aos 13 anos, é uma grande promessa da música instrumental brasileira. O gaitista, que sempre trabalhou na produção de outras edições do festival, teve seu momento de consagração, sendo recebido por um público estimado em 10 mil pessoas.

O quinteto Pau Brasil, referência para a música instrumental tupiniquim, fez um grande show - a maratona de bandas ainda não acabou, mas é bem possível que a apresentação ganhe o título de melhor desta edição do festival. O público assistiu a uma belíssima apresentação, proporcionada pelo piano de Nelson Ayres, o excepcional violão de Paulo Bellinati, o baixo de Guga Stroeter, a bateria de Ricardo Mosca e o saxofone de Mané Silveira. No repertório, execuções vigorosas de temas de Villa Lobos e clássicos da música brasileira. Depois de uma hora, Nelson Ayres agradeceu à natureza pelo fim da chuva que insistiu em cair no início do show (o público transformou as cadeiras em um inusitado modelo de guarda-chuva). "Bye Bye Brasil" (Chico Buarque) foi escolhida para fechar com excelência o espetáculo.

Miles Davis contemporâneo

O que seria a música de Miles Davis se ele ainda estivesse em atividade? É o que tentou mostrar a banda de Jason Miles, na última apresentação do dia 11, com o show Tributo a Miles Davis, baseado no álbum In the Spirit of Miles Davis. Da banda de Jason Miles participam Jerry Brooks (baixo), Michael Stewart (excepcional no trompete), Brian Dunne (bateria) e o DJ Logic nas pickups. O toque eletrônico poderia assustar os mais puristas, mas os integrantes da banda conseguiram manter a harmonia entre os instrumentos e as intervenções de Logic.

Próximos shows

Até dia 14, domingo, o Rio das Ostras ainda ainda recebe o trio The Bad Plus com a cantora Wendy Lewis; a banda do guitarrista Coco Montoya; o som de R&B, pop e música caribenha do Spyro Gyra (que desmarcou dois shows no México para tocar aqui, segundo Stenio Mattos); a Big Time Orquestra de Curitiba, que faz releituras de rock e soul, e o John Hammond Quartet, interpretando clássicos do blues e encerrando a maratona que se consagra como um dos eventos mais importantes de jazz no mundo.