Homem engajado

Seguindo discurso pacifista, John Butler Trio é comandado por um frontman extremamente inspirado; vocalista falou à Rolling Stone Brasil antes de se apresentar no FestivAlma, na próxima sexta, 2

Por Fernanda Catania Publicado em 30/06/2010, às 19h14

John Butler Trio (Byron Luiters à esquerda, John Butler ao meio e Nicky Bomba à direita) se apresenta no FestivAlma Surf na próxima sexta, 2, em SP

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"Às vezes me pergunto como dormimos, enquanto servimos e mantemos empresas de práticas duvidosas. Todas chutando tudo e querendo arrecadar em primeiro lugar - a própria definição da raça dos ratos." O trecho da música "Revolution" diz muito sobre o John Butler Trio. A faixa que abre o novo disco do grupo, April Uprising, lançado em março, é só uma das muitas que fazem críticas à sociedade. A verdade é que dificilmente alguma das faixas dos cinco discos da carreira do grupo radicado na Austrália não tenha caráter social. O som alternativo - meio Jack Johnson, meio Sublime, com toques de Bob Marley - ajuda ainda mais a embalar o clima "em prol da igualdade".

Não é por menos que o John Butler Trio foi o escolhido para ser a principal atração do FestivAlma Surf 2010. A temática do evento, que acontece de 1 a 3 de julho (com show do grupo no segundo dia), em São Paulo, envolve surf, música e arte. Apesar de não ser muito popular por aqui, o trio faz grande sucesso no circuito independente da Austrália. Só para ter uma ideia, em 2004, Sunrise Over Sea ganhou disco de ouro (o equivalente a 50 mil cópias, na época) só na primeira semana de lançamento. Neste período, uma publicação australiana chegou a dizer que a renda do cantor chegava a US$ 2,4 milhões, rendendo o apelido "milionário hippie" ao músico.

Pela primeira vez no Brasil, o vocalista que dá nome ao trio disse, em entrevista ao site da Rolling Stone, estar muito empolgado para conhecer o país. "Toda essa galera que conheço, como Jack Johnson e Ben Harper, já estiveram no Brasil, só nós estamos atrasados. Vivem falando para irmos logo porque vamos adorar. Agora estamos indo, finalmente", disse o cantor, que ainda revelou estar torcendo para o Brasil na Copa do Mundo, agora que a Austrália e os Estados Unidos (país onde nasceu) estão fora.

No show da próxima sexta-feira, 2, o repertório do John Butler Trio será quase todo baseado no disco April Uprising, mas contará com algumas músicas antigas também. "Diria que 51% será do trabalho novo e 49% de todo o resto. Acho que só não terá muito de [segundo disco], Three", revelou.

Mas quem espera ouvir apenas músicas calminhas, do tipo folk praiano, pode se surpreender. O disco mais recente do grupo está "mais forte e um pouco mais rock". As influências passaram por Bob Marley, Stevie Wonder, Pearl Jam, Black Sabbath e até Rihanna e Beyoncé. "Aposto que você não imaginava que eu falaria isso", disse o músico, aos risos, se referindo às cantoras pop. "Elas são boas. Gosto do último disco da Beyoncé. Minha música preferida é 'Diva'", contou, emendando o refrão da canção ao telefone. Grande parte da mudança de som deste disco se deve pela troca de integrantes, em 2009: saíram Shannon Birchall e Michael Barker para a entrada de Byron Luiters, no baixo, e Nicky Bomba, na bateria. "Já trabalhei com Nick antes, ele é ótimo e dá o ar mais pesado, enquanto Byron é mais leve. Fazemos uma ótima música juntos!", completou o compositor.

O nome do disco foi inspirado no programa de TV australiano Who Do You Think You Are, do canal SBS One, do qual Butler participou em novembro de 2009. O show, baseado no programa de mesmo nome da BBC, detalha histórias dos ancestrais de famosos por meio da árvore genealógica. Uma das descobertas de Butler foi que seu bisavô "lutava pela liberdade", fazendo parte de uma revolta chamada April Uprising, de 1876, na Bulgária. Sua bisavó também se manifestava a favor de seus ideais, cantando em pubs da região para apoiar a família. "Descobri coisas incríveis, que são a essência do que sou hoje."

Músico engajado

Certamente o espírito engajado do John Butler Trio se deve ao vocalista, a alma do grupo. Nascido nos Estados Unidos e radicado na Austrália (se mudou para lá aos 11 anos), o simpático Butler escreve todas as letras. O frontman, que criou o grupo em 1998, já foi professor de arte em uma universidade e criou, em 2005, uma fundação com a esposa, Danielle, chamada JB Seed, dedicada a ajudar projetos de música e artes na Austrália.

Em 2002, criou a gravadora Jarrah Records, junto a seu empresário, Phil Stevens, e do grupo The Waifs. Até hoje, o selo independente só possui as duas bandas e é mantido por eles próprios. Se em 12 anos Butler não "se vendeu" para uma grande gravadora, não será agora que vai deixar para trás sua raiz independente. Segundo ele, a ideia "é só fazer música mesmo". "Estamos vivendo um período drástico na história da humanidade, então devemos espalhar a paz, amor e esperança. É empolgante fazer música em uma época de extrema necessidade", disse em um dos vários discursos pacifistas que deu durante a entrevista.

A adolescência de Butler diz muito sobre o que ele aparenta ser. Não, não é de hoje a veia pacificadora que o músico carrega, tão pouco é um legado inconsciente de seus antepassados. Aos 15 anos, estudou em uma escola em Pinjarra, cidade interiorana da Austrália. Lá, não fazia o tipo popular e, na maioria das vezes, era o excluído da turma. "Gostava de andar com os excluídos, eles eram minha galera. Eu não era muito interessado em fazer parte do grupo 'cool'. Acho que sou assim até hoje."

O grupo de amigos de Butler era nada menos que os indígenas da região. "A gente tinha muito em comum. Eu era um norte-americano, em uma cidade pequena com histórico de racismo nos anos 80, sabe?", justificou. "Tudo o que era diferente de uma pessoa branca normal não era bem-vindo. Agora imagina um cara de fora, com um sotaque norte-americano bastante carregado. Eu não poderia ser popular em Pinjarra", disse, rindo. O próprio músico assume que esse fator influenciou sua maneira de pensar: "Tenho problema com injustiça, com a questão das pessoas ou corporações poderosas usando o poder indevidamente. E era isso o que eu via".

FestivAlma Surf 2010

1, 2 e 3 de julho, das 14h às 23h

Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, São Paulo

Válido para um dia: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)

Válido para três dias: R$ 80 (inteira) R$ 40 (meia)

OBS: a compra do ingresso dá acesso a todos os eventos do FestivAlma Surf 2010: VII Mostra Nixon da Arte e Cultura Surf; VI Festival Osklen de Cinema; V Festival Billabong de Música; Salão Internacional do Surf; Casa de Praia; e todas as demais atrações programadas no festival.

Line-up IV Festival Billabong de Música

1/07

21h - Rob Machado e Melali Band (Todd Hanning, Jon Swith)

22h - Falcão (do Rappa) e Os Loucomotivos

2/07

21h - Mallu Magalhães

22h - John Butler Trio

3/07

19h - Edu Marron

20h - Hurtmold

21h - Melali Band (Rob Machado, Todd Hanning, Jon Swith)