Kings of Leon e Paramore espantam a chuva em São Paulo com apresentações poderosas

Circuito Banco do Brasil chega à penúltima cidade e será encerrado no Rio de Janeiro, no sábado, 8

Redação Publicado em 02/11/2014, às 09h05 - Atualizado em 03/11/2014, às 15h53

Kings of Leon no Circuito Banco do Brasil, em São Paulo, em novembro de 2014

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O MGMT subiu ao palco do Circuito Banco do Brasil, realizado neste sábado, 1, no Campo de Marte, localizado na zona norte de São Paulo, e o cenário não era dos mais animadores. A chuva caía já fazia mais de uma hora e raios cortavam o céu como flashes gigantes. O início da noite não parecia promissor, mas mudou assim que o grupo formado por Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden deixou o palco. A água parou de espancar impiedosamente o público e, com isso, o festival chegou ao fim sob a luz da lua, ressurgida entre as nuvens. Bom para os fãs de Paramore e Kings of Leon, aparentemente os responsáveis por levar a maior parte da multidão de 30 mil pessoas.

Com um show pouco envolvente, o Kings of Leon fechou o palco principal do Planeta Terra 2012; lembre como foi.

O curioso é que anteriormente, quando a baiana Pitty se apresentava no mesmo palco, após a banda Helga, vencedora do concurso realizado pelo festival VOZPRATODOS, não havia nenhum indício de que a chuva estava para chegar. O sol havia castigado aqueles que chegaram mais cedo, que exibiam as marcas do excesso de exposição sem a devida proteção para a pele. No palco, Pitty mostrou que a nova fase, comemorada com o recente disco, SETEVIDAS, está fazendo muito bem para as performances dela. Até mesmo “Sete Vidas” e “Serpente”, que integram essa nova safra e as responsáveis por dar início e encerrar a apresentação, foram bem recebidas pelos presentes. Pitty está cantando melhor do que nunca, sabendo o momento certo para extravasar a vertente roqueira. Hits como “Me Adora”, “Na Sua Estante” e “Máscara”, executados em sequencia, foram devastadores para o público.

Entrevista RS: Pitty. Após um ano intenso de mudanças internas e externas, ela converte perdas e ganhos em novo disco e abraça a segurança da maturidade.

Atração com menos peso nas guitarras, mas provavelmente maior dona de hits, o Skank soube lidar com a chuva que despencava com pingos grossos aquecendo os corpos – deles e da plateia. Samuel Rosa não deu descanso, embalando “É Uma Partida de Futebol”, “Uma Canção É Pra Isso”, “É Proibido Fumar”, logo no início, para não perder a atenção para São Pedro. Novo single do álbum da banda Velocia, “Ela me Deixou” provou estar no mesmo nível das outras baladas do grupo. Quando o show já chegava a fim, depois de “Vou Deixar” e “Garota Nacional” e de pedir para que a parte masculina da plateia retirasse as camisetas para rodá-las sobre a cabeça, Rosa e companhia receberam os integrantes da banda gaúcha Cachorro Grande para uma cover da “maior banda de rock de todos os tempos”, conforme definiu o vocalista mineiro. Eram os Beatles, é claro, com “Helter Skelter.”

Sobrevivência pela Experiência: transitando entre várias gerações de fãs, Skank lança Velocia, primeiro disco de inéditas em seis anos.

Com três discos nas costas (no sentido figurado) e um chapéu na cabeça (literalmente), Andrew VanWyngarden foi o vocalista mais distante que o público pode saborear na noite de sábado. Pouca interação e voz escondida e tímida, como se cantasse apenas para si. Por sorte, o MGMT fez dois discos de qualidade acima da média. Oracular Spectacular (2008) e Congratulations (2010), que cederam os principais hits da banda na noite, enquanto o álbum que leva o nome do grupo foi pouco ouvido no Campo de Marte – quando faixas do disco eram executadas, VanWyngarden quase se escondia atrás do microfone. Mas como não dançar ao som de “Time to Pretend”, “The Youth”, “Flash Delirium”, Electric Feel” e “Kids”? Mesmo com a chuva, o MGMT provou da receptividade tão falada do público brasileiro, com mãos jogadas para cima, gritos de aprovação no início e fim de cada canção e muita interatividade.

MGMT promete voltar mais psicodélico do que nunca em novo disco. “Não estamos fazendo música que todos vão entender na primeira audição”, explicou Ben Goldwasser sobre o terceiro álbum da dupla. Leia mais aqui.

Principais atrações da noite – e a Aline

Hayley Williams é exatamente o oposto de VanWyngarden quando o assunto é interação. E é até chocante ver como a baixinha vocalista do Paramore, desta vez com os cabelos com um vermelho bastante intenso e curtos, acima do pescoço, cuida dos fãs do grupo. Praticamente todas as músicas foram introduzidas com extremo cuidado, para que até mesmo os menos conhecedores da obra do grupo se sentissem confortáveis. “Adoro festivais”, disse ela, em certo momento. Em outra oportunidade, perguntou quem ali estava e uma apresentação do Paramore pela primeira vez. Algumas mãos se levantaram. “Sejam bem-vindos!”

Entrevista: Hayley Williams, do Paramore, fala sobre sexismo, karaokê e o gosto por Game of Thrones.

A banda leva o hardcore à zona limítrofe do pop, mas sem aliviar na guitarras. A não ser em alguns momentos, quando “Only Exception” e “Last Hope” embalaram os momentos mais tranquilos da noite. O grande destaque, contudo, foi Aline. Quem é Aline? Também não a conhecíamos até que ela fosse chamada ao palco do Paramore durante o maior sucesso do grupo, “Misery Business”. Aline, oras, era uma garota grudada na grade de proteção, o mais perto do palco possível. Os óculos de grau ainda molhados e embaçados com a chuva que havia encerrado momentos antes, cabelo preso em um rabo de cavalo e uma capa de chuva de plástico. Aline recebeu o microfone e a chance de ser a vocalista da banda favorita dela - pelo menos é o que podemos supor depois do que testemunhamos ali. Ela pulou, jogou os cabelos para cima e para baixo, ocupou o palco como uma veterana – aprendeu, VanWyngarden? “Uau, ela sabia todos os passos de dança”, elogiou Hayley. Aline deixou o palco sob gritos do seu nome, diante de um público embasbacado diante da performance dela.

Edição 86 – Irmãos Remendados: o Kings of Leon já foi a maior banda do mundo – até tudo desabar. Será que os novos azarões do rock vão conseguir recuperar o posto?

O Kings of Leon teve a função difícil de suceder Aline – ops, o Paramore! – e Caleb e a família Followill mostraram o show mais interativo deles por aqui. Falante, o vocalista até disse que ficaria no palco “até me arrancarem daqui”. Brincadeira à parte, a banda mostrou que o novo álbum, Mechanical Bull, lançado no ano passado, ajudou a exorcizar os demônios que pareciam assombrar o quinteto familiar de Nashville. O trabalho encontra o ponto de intersecção entre o garage rock caipira de Youth & Young Manhood (2003) e Aha Shake Heartbreak (2004) com abordagem mais pop e lenta, que teve o ápice com Only By The Night (2008), o quarto disco do grupo. Caleb, com uma vistosa barba, deixou de lado os excessos de egocentrismo e de ingestão de álcool e, concentrado, disparou hits e provou que canções do novo álbum, como “Supersoaker”, “Family Tree”, “Temple” e “Don’t Matter”, agradam tanto aqueles que esperam ouvir “Molly’s Chambers”, do disco de estreia, como quem desejava dançar ao som de “Use Somebody” e “Sex On Fire”, do trabalho de 2008.

O festival itinerante Circuito Banco do Brasil, depois de passar por Belo Horizonte e Brasília, em outubro, chegará ao fim no Rio de Janeiro, no sábado, 8, com uma escalação quase igual a de São Paulo, saindo apenas Skank e entrando Frejat na programação.