Elly Jackson, a voz do La Roux, conta como superou as crises de ansiedade que quase a impediram de cantar

Artista britânica se apresenta em São Paulo neste sábado, 24, no Meca Festival

Bruna Veloso Publicado em 24/01/2015, às 08h52 - Atualizado às 11h53

La Roux
Mark Allan/AP

Elly Jackson, a voz por trás do La Roux, não esperava o êxito estrondoso do primeiro disco da carreira, La Roux (2009). Ver suas composições na boca de pessoas de diversos países, à época, foi bastante prazeroso. No entanto, o sucesso, as viagens e a falta de controle sobre a própria carreira tiveram seu preço: por mais de um ano, Elly teve crises de ansiedade que a impossibilitaram de cantar.

Hoje, cinco anos depois de todo o turbilhão impulsionado por canções como "Bulletproof" e “ In for the Kill”, a cantora está bem mais serena. Resolveu seguir em frente sem a parceria do produtor Ben Langmaid, criou um dos melhores discos dançantes de 2014, Trouble in Paradise, e fez as pazes com a vida em turnê. Tanto que recentemente realizou as primeiras apresentações no Brasil, como atração do itinerante Meca Festival, e hoje encerra sua passagem pelo país no último dia do evento, em São Paulo. “Tem muita gente no Brasil que pedia para que fizéssemos um show aí”, afirma.

Crítica: Trouble in Paradise, segundo disco do La Roux.

A sua relação com a vida na estrada mudou entre a primeira grande turnê que você fez, há cinco anos, e a turnê atual?

Sim, muito. Na primeira turnê, senti que não tinha controle de nada. Se alguém dissesse “você vai cantar aqui e lá”, eu cantava. Agora estou muito mais envolvida com tudo, com a escolha de onde eu quero fazer shows, quando quero estar em turnê. E isso ajuda na minha conexão com a estrada, sinto que é uma coisa que eu e a banda estamos fazendo porque queremos. Antigamente, a sensação era que estávamos fazendo não por nós, mas por outras pessoas. Com isso, eu me sentia estranha – havia momentos em que eu até me ressentia de estar em turnê. Isso não acontece agora.

A rotina de viajar o tempo todo está mais suave, então.

Sim, está mais natural. Eu aceitei essa parte da minha vida. Quando fiz o primeiro disco, nunca pensei na turnês. Eu sabia que teria que fazer shows, mas não imaginava que teria de atravessar o Atlântico; parecia que era algo muito distante. Não tinha me dado conta do quão grande "Bulletproof" tinha se tornado.

O que foi mais difícil para você: a pressão de gravar um segundo disco após sua estreia ter sido extremamente bem-sucedida ou a sua separação musical do Ben?

Foi tudo difícil. Mas acho que não houve tanta coisa para lidar no que diz respeito à saída do Ben – me separar dele foi um alívio, na verdade. Só foi um problema no sentido de que talvez eu tenha sentido uma falta de confiança [no meu trabalho] por parte das pessoas ao meu redor. E, talvez, em alguns momentos, algumas pessoas tenham tentado tirar vantagem de mim e Ian [Sherwin, produtor], por saber que não teriam que lidar com o Ben e que éramos menos experientes. A certa altura, ficamos apavorados – felizes, mas ainda assim apavorados. Sabíamos que não trabalhar com ele era a coisa certa a fazer, mas nunca tínhamos gravados um disco sozinhos.

O espaço de tempo de cinco anos entre os dois discos ajudou ou dificultou o processo?

De certa forma, a melhor coisa que aconteceu foi ter havido um espaço de tempo tão grande entre um disco e outro. Esse espaço de tempo fez as pessoas aceitarem Trouble in Paradise. Se tivéssemos feito esse disco e lançado em 2011, acho que, sendo eu a cantora, ninguém teria comprado, porque o público estaria esperando aquilo que viu no vídeo de "Bulletproof". Se eu for completamente honesta, aquela não sou eu. Aquela sou eu lidando com a situação.

O primeiro disco é meio que só synthpop dos anos 1980. Eu estava preocupada se as pessoas estavam esperando que eu fizesse aquilo novamente. Sabia que não queria fazer aquele tipo de som, e também sabia que, da forma como a música muda rapidamente hoje, mesmo se eu fizesse uma música tão boa quanto “In for the Kill”, no mesmo estilo, não seria bem-sucedida. Fora o fato de que eu não queria fazer uma música naquele estilo.

Quando você teve crises de ansiedade que afetaram a sua voz, chegou a temer ter que desistir definitivamente de cantar?

Sim. O tempo todo. Foi a pior parte. Ainda não consigo cantar como eu cantava antes – mesmo que eu ainda consiga cantar “In for the Kill”, não posso cantar daquele jeito. Foi uma época muito assustadora. Quero dizer, não é a toa que o disco se chama Trouble in Paradise [Problema no Paraíso]. Eu quase não sei como esse disco saiu. Mesmo durante o processo de escrever as letras, eu ainda ficava gravando fitas com os vocais por semanas e semanas, porque eu tinha medo de chegar no estúdio e não conseguir fazer o que eu queria fazer.

Eu sempre consegui cantar de um jeito muito forte e em tons muito altos, e por mais de um ano eu não consegui fazer nenhuma das duas coisas. E ninguém sabia o que havia de errado. Foi provavelmente uma das coisas mais assustadoras que já me aconteceram.

Você já demonstrou que não é o tipo de artista que gosta de se expor a qualquer custo. É esquisito ouvir uma pessoa estranha te perguntando sobre suas crises de ansiedade?

Não, porque eu sou uma pessoa muito aberta. Se eu conhecer alguém e gostar dessa pessoa, e meu julgamento me disser que essa pessoa não é uma filha da puta, eu vou me abrir muito rapidamente. Não sei ser de outro jeito. Já tentei me segurar um pouco, mas acabo não soando autêntica, acabo sendo chata. Já li entrevistas que dei tentando fazer isso, e não faz nenhum sentido, parece que não sou eu. Prefiro que as pessoas me julguem exatamente pelo que eu sou, do que tê-las me julgando por algo que não sou. Mas existem certas áreas da minha vida que mantenho em particular, sobre as quais eu não falaria em público.

Uma canção como “Cruel Sexuality” [Sexualidade Cruel], por exemplo, é bastante explícita. É incômodo ver que o público a percebeu imediatamente como uma canção autobiográfica?

Na verdade, é autobiográfica. Mas o negócio com canções como “Cruel Sexuality” é que as pessoas às vezes parecem não entender que pra mim tudo bem ser tão honesta nas minhas letras – tão honesta que quase chega doer. É por isso que faço música, é um lugar onde me sinto confortável dizendo as coisas mais difíceis para se dizer. Para mim, é fácil falar sobre coisas sobre as quais eu não falaria em uma entrevista. E a única razão para eu não falar sobre isso [sexualidade, o tema da música] em uma entrevista é porque esse é o tipo de coisa sobre a qual eu acho difícil falar mesmo quando estou com meus melhores amigos. Porque são coisas que fazem você se sentir estranha, coisas que fazem você se questionar, questionar as suas motivações.

É para isso que a música deveria servir, e é por isso que às vezes eu não sou muito educada quando falo sobre muitas das composições do pop atual, porque simplesmente não sinto que elas são reais. Não tenho nenhum problema em ser autobiográfica nas minhas músicas, porque é para isso que elas existem, para que as pessoas as ouçam e as interpretem à maneira delas.