Mark Arm fala sobre a volta das bandas grunge

Vocalista retorna ao Brasil com o Mudhoney para apresentações na Virada Paulista e na Clash Club, em São Paulo

Por Patrícia Colombo Publicado em 17/05/2010, às 22h24

Alterada às 15h15

"Acho que esse é o perigo de estar em uma banda, separar por um tempo e retornar em uma direção diferente", diz Mark Arm, sobre o revival das bandas do movimento grunge e a possível alteração da sonoridade original destes grupos nos dias atuais. Em mais uma passagem pelo país, o vocalista do Mudhoney conversou com a Rolling Stone Brasil sobre a banda a qual pertence há mais de 20 anos, o estilo musical e as crescentes reuniões de grupos de Seattle que usufruíram do ápice do sucesso em meados dos anos 90 e que, após separações ocorridas na última década, decidiram voltar a ativa em uma realidade diferenciada vivida atualmente na indústria da música.

O Mudhoney sempre foi o tipo de banda que teve seu trabalho a passos significativos de distância do mainstream. Ao se assemelhar a grupos como Nirvana e Pearl Jam por pertencer ao círculo da cena musical surgida em Seattle, distanciava-se em termos de popularidade, mantendo suas raízes no underground - ou direcionando sua sonoridade aos considerados "poucos e bons" fãs. E talvez justamente este fator tenha contribuído para a própria unidade da banda, que se sustenta em atividade há mais de duas décadas. "Não houve muita pressão em cima de nós, em termos de hits e outras coisas", Arm conta. "Acho que quando se é uma banda underground, você tem um grupo de seguidores que são mais fieis e mais interessados no seu próximo trabalho." Para ele, seus fãs não estão interessados no que é pop.

Pelo fato do Mudhoney nunca ter se separado (houve apenas algumas trocas de integrantes ao longo dos anos), o futuro e o desenrolar das reuniões de grupos como o Soundgarden ganham uma visão embaçada sob olhar de Mark Arm. "No nosso caso, assim como o Pearl Jam, houve uma continuidade, as bandas nunca pararam. Os últimos discos foram feitos com base nos primeiros e tudo faz parte da continuidade. Não sei como é estar em uma banda que terminou e que se reuniu", ele afirma. Contudo, a recomendação acerca dos cuidados que se deve tomar em situações semelhantes - mesmo não tendo as vivido - não fica de lado. "Não dá para repetir algo que já aconteceu", salienta. Ao comentar sobre direcionamentos musicais diferentes e relacioná-los às carreiras solo de alguns dos membros de bandas grunge, não esqueceu de Chris Cornell ao mencionar, em tom de humor ácido, as empreitadas do músico no universo do pop comercial. "Chris Cornell fez algumas coisas que eu não gostaria nem de chegar perto [risos]", recorda Mark. "Você viu o vídeo daquela música dele com o Timbaland?"

Durante a conversa, Mark Arm voltou sua memória aos anos 80, período em que o Mudhoney foi formado (segundo ele, originalmente como um grupo punk), e justificou que a quantidade de bandas talentosas era muito maior do que o número das surgidas na década seguinte. "Tinham muitos grupos horríveis nos anos 90 [risos]" conta. "Os anos 80 era um período mais puro para o rock underground, porque não havia chance de fazer sucesso. Ninguém pensava em estourar. Uma banda bem sucedida vendia 40 mil álbuns. Então, as bandas faziam o que queriam porque não havia a ideia de ser grande." O vocalista diz que o imenso destaque conquistado por nomes como Pearl Jam e Nirvana acarretou uma mudança de foco por parte dos grupos que estavam surgindo. "Nos anos 90, depois que eles abriram as portas para a cena, a sensação era de que as pessoas tinham como objetivo aparecer na MTV, ao invés de ter o intuito de se divertir com os amigos."

O fato de sempre ter estado voltado ao cenário underground não reduziu o valor do Mudhoney, como podem pensar os cérebros mais conservadores, sustentados pelo raciocínio do "só tem qualidade se vira hit mundial." A banda é considerada por muitos como a pioneira no cenário grunge. "Começamos como uma banda punk, no senso do punk pra mim, nos Estados Unidos, em meados dos anos 80. Não eram apenas jaquetas de couro, moicanos e tocar o mais rápido que consegue", defende. "Sonic Youth era considerada uma banda punk, assim como Butthole Surfers e Replacements. E nenhum desses grupos soava igual, mas fazíamos parte da cena underground norte-americana." Sobre o peso do trabalho em termos de influência a outros nomes que surgiram, Mark Arm já avisa: "Não tenho nada a ver com Creed ou Nickelback e se alguma coisa que fizemos os inspirou de alguma forma, então eu sinto muito muitíssimo [risos]"

Música brasileira

"Não tenho tanto conhecimento a respeito, mas tem coisas que eu realmente gosto", conta Arm. O músico, que já veio tantas vezes ao país, tem acumulado cada vez mais informações sobre as produções musicais nacionais das décadas passadas, mas avisa que ainda é leigo no assunto. "Gosto muito dos dois primeiros álbuns da Gal Costa, ouço Liverpool, Mutantes, Gilberto Gil. Mas sinto que ainda estou aprendendo. É diferente. Têm coisas loucas, o ritmo do samba, algumas guitarras distorcidas."

Quando o assunto é o público brasileiro, o frontman não economiza elogios (como a absoluta maioria dos estrangeiros que se apresenta no país). "Pelo menos para nós, o público brasileiro é o melhor do mundo. São muito apaixonados e entusiasmados", diz. "Sempre nos divertimos muito no Brasil."

O Mudhoney tocará na Clash Club, localizada na capital paulista, no dia 21 de maio. Além da apresentação, a banda fará dois shows gratuitos na Virada Paulista, nos dias 22 e 23, em Mogi das Cruzes e São José do Rio Preto, respectivamente.