Metallica se apresenta diante de mais de 65 mil pessoas no Morumbi

Público paulistano cantou em uníssono clássicos da banda de thrash metal neste sábado, 30

Por Bruna Veloso Publicado em 01/02/2010, às 17h09

Onze anos se passaram desde a última vinda do Metallica ao Brasil. Enquanto os fãs da América Latina envelheciam - e novos fãs surgiam -, os integrantes passavam por profundas mudanças, que, em certo ponto, quase levaram ao fim da banda. Agora, renovados e bem-recebidos pelo público com o disco Death Magnetic, o grupo de thrash metal mais popular do mundo voltou ao país, para neste sábado, 30, ser aclamado por mais de 65 mil pessoas no Estádio do Morumbi, em São Paulo.

Às 21h40, depois do show de abertura do Sepultura, as luzes do estádio se apagaram, dando início ao que seria uma apresentação de duas horas, recheada de clássicos e algumas músicas novas. No telão, cenas do filme Três Homens em Conflito (1966), ao som da indefectível trilha "The Ecstasy of Gold". Assim, com ares épicos, os "quatro cavaleiros do apocalipse" surgiram diante do Morumbi lotado, na perna brasileira da World Magnetic Tour. A trinca "Creeping Death", "For Whom the Bell Tolls", ambas do disco Ride the Lightning (1984), e "The Four Horsemen", do álbum de estreia Kill 'Em All (1983), abriu o show com o devido peso. Mais à frente do palco, era possível sentir o corpo pulsar em andamento com o som que saía das caixas.

Kirk Hammett, o guitarrista boa praça, faz solos com rapidez, enquanto James Hetfield gesticula nas pausas entre uma palhetada e outra na guitarra. O vocalista interagiu com o público diversas vezes, gritando "São Paulo!", dedicando o clássico "Sad But True" para o Sepultura e sorrindo muito. "Eu estou sentindo, já estou sorrindo. Nossa missão é fazer vocês se sentirem bem", diz antes de "Harvester of Sorrow", numa espécie de contradição à brutalidade e, muitas vezes, à "maldade" tão associadas ao metal. James envelheceu, e já não é mais apenas um metaleiro beberrão - é, além de um exímio músico e um bom compositor, um profissional que sabe do seu papel como entertainer.

Lars Ulrich, o baterista, dá um show à parte: fazendo com o rosto o que lembram exercícios de fisioterapia, ele esmurra os pratos e a caixa a ponto de nos fazer acreditar que a qualquer momento eles podem se partir. Vestido com uma calça jeans, antônimo de mobilidade para um baterista, Lars é pesado e preciso, mas não faz as vezes de virtuose - nada de viradas extremamente complexas ou longos solos. Robert Trujillo, por sua vez, é um monstro no baixo de cinco cordas. Dono de uma linha rítmica vigorosa, o baixista não fica devendo a Jason Newsted, que deixou o grupo em 2001.

Três telões transmitem imagens ao longo da apresentação: dois laterais e um atrás da banda. James sobe, por uma passarela, para uma porção superior do palco, ficando bem em frente ao telão maior para cantar a suicida "Fade to Black". Depois, seguem-se faixas de Death Magnetic: "That Was Just Your Life", "The Day That Never Comes" e "Broken, Beat & Scarred" representaram a mais recente safra de composições da banda.

As vozes das milhares de pessoas no Morumbi ecoaram por todo o estádio em "Sad But True". A música, ao vivo, simboliza a "pureza" do Metallica: uma banda orgânica, em que tudo que se ouve é produzido pelos instrumentos de seus integrantes - sem efeitos, samples ou qualquer tipo de base pré-gravada. Essa simplicidade se traduz também no palco, já que não há grandes invenções tecnológicas, além dos telões e das labaredas de fogo e baterias de fogos que aparecem pela primeira vez em "One".

"Enter Sandman" fecha a primeira parte da apresentação, antes de a banda retornar para o bis com o cover de "Stone Cold Crazy", do Queen, seguida de "Motorbreath". Para fechar, a música com um dos riffs mais poderosos do metal: "Seek and Destroy", executada com as luzes acesas, a pedido de James. "Vocês ficaram olhando para nós a noite toda, e agora nós queremos olhar vocês." Depois de saírem do palco por poucos minutos, os integrantes voltam jogando palhetas. Como em Porto Alegre, Lars diz ao microfone: "Talvez o Metallica devesse ver vocês com mais frequência, demorar menos que 11 anos". E o público concorda.

O Metallica volta a se apresentar no Morumbi neste domingo, 31. Os ingressos, que custam entre R$ 150 e R$ 500, estão à venda nas bilheterias do local.

Boas vendas no Brasil

Poucas horas antes do show no Morumbi, os integrantes do Metallica concederam uma entrevista coletiva à imprensa. No evento, a banda recebeu disco de ouro pelas mais de 45 mil cópias vendidas do álbum Death Magnetic, e disco duplo de platina pelas 60 mil cópias vendidas do DVD Orgulho, Paixão e Glória.

James, Lars, Kirk e Robert apareceram com cerca de meia hora de atraso (a entrevista estava marcada para as 18h) e responderam a perguntas dos jornalistas por cerca de 20 minutos. Lars explicou as constantes mudanças no setlist de um show para outro. "Temos entre 60 e 70 músicas para escolher para um show. Em turnês anteriores, quando tocávamos sempre o mesmo setlist, percebemos que foi ficando meio mecânico. Trocar de músicas é uma forma de não cair na rotina.".

Em dado momento, James afirmou que a banda costuma produzir novos materiais durante as turnês. Quando questionado sobre os planos para um novo disco, pela reportagem do site da Rolling Stone Brasil, o músico disse que ainda não é possível fazer previsões. "Nós não sabemos até começarmos realmente a escrever. Na estrada, nós não efetivamente compomos músicas completas. Alguém escreve alguma coisa no quarto do hotel, ou começamos uma levada na bateria, mas não sabemos a forma que isso irá tomar até sentarmos e nos concentrarmos nisso. Nesse momento é só a ideia inicial, que gravamos em um computador, iPod, tanto faz, para poder registrar." E essas ideias iniciais se assemelham a Death Magnetic, tido como uma volta da banda às raízes? "Mais para frente elas tomarão forma. Nós amamos o desconhecido, amamos poder escrever para o momento. Então, vamos ver o que acontece."