Morre Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas

Duas décadas antes de dirigir único filme brasileiro a ganhar o prêmio máximo em Cannes, ele foi figurante de Orson Welles em It's All True

Da redação Publicado em 09/11/2009, às 17h19

Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, primeiro e, até agora, único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, morreu à 1h30 do sábado, 7, após 11 das de internação no Hospital das Clínicas (São Paulo) por conta de um acidente vascular cerebral hemorrágico. Ele tinha 89 anos.

O corpo foi enterrado no domingo, 8, no Cemitério Municipal de Salto, sua cidade de origem, a 105 quilômetros de São Paulo.

A carreira de Duarte começou na atuação, entre Atlântida (Rio de Janeiro) e Vera Cruz (São Paulo), os dois grandes estúdios do Brasil em meados do século 20. Entre os filmes que estrelou no período estão Tico-Tico no Fubá, sobre o autor do famoso choro, Zequinha de Abreu, e a chanchada Carnaval no Fogo, com Grande Otelo e Oscarito. Sua trajetória artística começou em 1942: ele foi figurante de It's All True, filme que Orson Welles (Cidadão Kane) rodou no Brasil mas não chegou a terminar. Desse filme se originou o nome do festival de documentários É Tudo Verdade.

Duarte foi para trás das câmeras em 1957, em Absolutamente Certo, no qual também protagonizou. A comédia, que trazia Dercy Gonçalves e Odete Lara no elenco, fala sobre Zé do Lino, um operário dono de memória excepcional que é levado por um malandro para participar de um programa de TV de perguntas e respostas.

Cinco anos depois, Duarte lança seu maior sucesso, O Pagador de Promessas. Baseada em texto de Dias Gomes, a produção faturou o prêmio máximo em Cannes (no ano em que também estavam no páreo Vittorio De Sica e Luis Buñuel) e concorreu na categoria de filme estrangeiro no Oscar de 1963 (perdeu o prêmio para o francês Sempre aos Domingos, de Serge Bourguignon).

O filme traz Leonardo Villar no papel de Zé do Burro, um homem de origem humilde que bate de frente com a Igreja Católica para levar a cabo promessa feita num terreiro de candomblé para salvar seu burro de estimação. Othon Bastos, Norma Benguell e a então estreante Glória Menezes também integram o cast.

Ele se despediu no cinema em Brasa Adormecida, na película de Djalma Limongi Batista na qual atuou ao lado de Edson Celulari, Maitê Proença e Sérgio Mamberti.

De acordo com a produtora Magda Barbieri, há um documentário sobre Duarte no forno. O recheio serão depoimentos coletados pelo jornalista Guilherme Fiúza (autor de Meu Nome Não É Johnny) nos últimos cinco anos.

Tarcísio Meira comentou ao jornal carioca O Globo sobre a morte de Duarte, que dirigiu o já galã da TV no filme de 1969 Quelé do Pajeú: "O legado principal para nós, artistas, é o amor com que ele fazia cada trabalho. Ele era uma pessoa realmente única. Tenho certeza que nunca mais vou conhecer alguém como Anselmo Duarte".

Cerca de 500 pessoas participaram do sepultamento, em Salto.