Futuro esfumaçado

Depois de O Cheiro do Ralo, Lourenço Mutarelli tem segunda obra adaptada às telonas: Natimorto, em que o próprio interpreta um fumante que lê o futuro nos maços de cigarro

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 27/10/2009, às 11h31

Desde agosto é assim: ao primeiro sinal de nuvenzinhas planando sobre a cabeça dos paulistas, o alarme da patrulha antitabagista dispara como se fosse senha para a tocaia do Hell's Angels. Quando Lourenço Mutarelli acabou de escrever O Cheiro do Ralo, a ira contra os fumantes ainda estava nas preliminares. Na época, o governo lançava a primeira campanha no verso dos maços de cigarro. Homens com impotência. Mau hálito. Câncer. Mulheres grávidas e fetos recém-abortados. Filme de horror para Dario Argento nenhum botar defeito.

"Não queria que as imagens me afetassem. Queria ver além delas", contou à reportagem do site da Rolling Stone Brasil o comprador de dois maços de cigarro diários.

Mutarelli tinha duas opções. Na melhor das hipóteses, virava um mural ambulante de adesivos de nicotina. Escolheu o caminho mais difícil: dar à luz O Natimorto - Um Musical Silencioso, sobre um caça-talentos que, hospedado com uma cantora sem voz num quarto de hotel, se afunda numa espiral de fumaça e paranoia.

O livro virou peça em 2008 e, agora, temos o filme de Paulo Machline, com passagem pelo Festival do Rio e exibido pela primeira vez em São Paulo como parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema, no sábado, 24, quando autor e diretor conversaram com a RS Brasil.

Há quem sinta o estômago embrulhar como papel de presente só de pensar nos 20 bastões contra os quais o Ministério da Saúde não cansa de advertir. Mutarelli, que considera a atual lei antifumo "nazista, radical demais", nunca teve vontade de virar sócio desse clube. "Cigarro é uma substância que acalma e estimula ao mesmo tempo. Nunca pensei em parar", ele dá uma baforada no politicamente correto.

Em Natimorto, é o próprio autor que interpreta o protagonista, "personagem com quem eu não quero me identificar", diz, enquanto um riso de canto de boca dá pistas do humor autodepreciativo comum à sua literatura, na ficção e nos quadrinhos. Na peça, foi Nilton Bicudo, indicado ao Prêmio Shell pelo trabalho. Para o cinema, pensou-se em Marco Ricca (que reclinou para dirigir seu primeiro longa, Cabeça a Prêmio) e Matheus Natchtergaele (nova recusa: ele foi para Cannes por conta de A Festa da Menina Morta, também sua estreia na direção).

Até que "começaram a surgir uns nomes meio galãs" (entre eles, o de Wagner Moura) para o papel. Mutarelli tomou isso como um incômodo tão grande àquele de o não-fumante que se senta ao lado de uma chaminé no ônibus. "Tinha que ser feio, sem glamour." Ele era o cara certo para isso. Tinha certeza.

Com uma ponta em O Cheiro do Ralo e alguns curtas no currículo, Mutarelli virou então o agente musical que prevê o futuro a partir dos maços dele de todo dia - o truque é traçar paralelos entre as imagens grotescas e as cartas de tarô (o homem sem fôlego que afrouxa a gravata, portanto, vira "O Enforcado", arcano que supõe culpa e arrependimento). Como parceira de set, teve Simone Spoladore (Lavoura Arcaica, Canção de Baal), a moça que, ao abrir a boca para cantar, só é escutada pelo agente musical.

O casal domina 90% do filme, que contou com participação de luxo de Beth Gofman, a esposa recalcada. A relação entre Agente e Cantora (em momento algum os personagens recebem nomes) pode ser tão viciante - e, depois de certo tempo, doentia - quanto o primeiro cigarro do dia. Canto de Iara para Machline, que não se considera fumante ("um ou outro quando filmo"), mas sabe reconhecer uma história de amor quando ela aparece à sua frente. "Sempre pedi que me encontrassem uma. Aí o Rodrigo [Teixeira, produtor] me mandou este livro. Um caso de amor subversivo. Alguém tão apaixonado que deixa o outro ir embora sem saber se vai voltar", disse o cineasta, para em seguida garantir que seu ator principal fuma mais do que o personagem ("quando o cigarro de cena acaba, ele pede o cigarro da folga").

Mutarelli não aposta em Natimorto como cavalo campeão das bilheterias. Se O Cheiro do Ralo atingiu em cheio as narinas do hype, a segunda adaptação cinematográfica de um livro seu é "algo que, se eu próprio filmasse, não seria tão fiel", o que, acredita, pode espantar a clientela.

Nenhum descrédito em relação ao longa dirigido por Heitor Dhalia e estrelado por Selton Mello. "Cheiro tinha uma opção estética diferente, da qual Heitor me inteirou desde o começo." Acontece que Natimorto foi mais no talo, o que resultou num filme sem muitas soluções engraçadinhas, ainda que os diálogos preservem o tom verborrágico e cáustico típico na obra do escritor, que tem um terceiro título, Miguel e os Demônios, como próximo da fila de adaptações, desta vez com o diretor Tadeu Jungle.

"Alguém já disse que a vida é uma doença fatal e sexualmente transmissível", diz a certa altura o personagem que, de tanto temer a vida, sublima o conceito do ser que não precisou existir mais do que alguns momentos no útero da mãe. Como um cigarro emendado no outro, frases como essa, amparadas por uma plasticidade de closes e sensações, são disparadas até expor a vida como ela é segundo Lourenço Mutarelli - algo tão duradouro como uma nuvem de fumaça.

Natimorto na Mostra de SP

27 de outubro, às 15h40

Cinema da Vila - R. Fradique Coutinho, 361

Informações: 5096-0585

29 de outubro, às 15h30

Unibanco Artiplex - Shopping Frei Caneca - Rua Frei Caneca, 569

Informações: 3472-2362