Nem Anjos, Nem Demônios

Sem ser fiel à obra original, filme baseado em best-seller não agrada nem agride

Por Pablo Miyazawa Publicado em 15/05/2009, às 20h06

Anjos e Demônios é um filme muito mais bem resolvido do que O Código da Vinci, o que não é lá um grande mérito. O longa-metragem de Ron Howard lançado em 2006, baseado na obra do best-seller Dan Brown, foi malhado de maneira quase uniforme pela crítica. Não que merecesse tratamento diferente. O público, apático, também pouco se emocionou.

Mas pelo menos no que diz respeito à fidelidade à obra original, O Código se salva. Anjos, porém, parece até outra história, tantas são as licenças poéticas - em alguns casos, as mudanças são drásticas e até desnecessárias. Quem não leu o livro, é melhor nem se preocupar com isso: o risco de se decepcionar é bem menor. O básico, pelo menos, ficou igual. Sai Paris, entra Roma; sai Audrey Tautou (francesa, no papel de uma francesa), entra Ayelet Zurer (israelense, no papel de uma italiana). Tom Hanks retorna ao papel de Robert Langdom, felizmente com um novo corte de cabelo (o filme se passa anos após a trama de da Vinci, apesar de ter sido escrito anos antes). Assim como no primeiro filme, o estilo divagador e aventureiro do herói-protagonista perde forças na versão cinematográfica. Informações que no papel são obtidas com conhecimento, investigação e intuição, na tela são frutos de golpes de sorte ou são sopradas por coadjuvantes que nem existiam no enredo original. Acaba que a busca pelas soluções dos problemas vira uma atropelada correria contra o relógio, com cenas de perseguição sem sentido permeando cada um dos quatro atos que formam a peça. Tudo se desenrola tão rapidamente que quase não há tempo de se envolver pessoalmente com nenhum personagem, muito menos de questionar se a história é digna de ser engolida.

A trama, se era confusa e cheia de idas e vindas no livro, na visão de Ron Howard (e dos roteiristas Akiva Goldsman e David Koepp) é enxuta como a atual forma física de Tom Hanks. Tudo o que complicava a compreensão foi limado sem dó - personagens, fatos, diálogos, pequenos detalhes. Ficou assim: o papa morreu, os quatro cardeais candidatos à sucessão foram seqüestrados e uma bomba de antimatéria está prestes a explodir o Vaticano (e parte de Roma) pelos ares. Por trás dos crimes, os Illuminati, uma sociedade secreta milenar que se esforça para derrubar a igreja católica e espalhar a descrença pela humanidade. E tudo isso em pouco mais de duas horas de fita. Ufa. E Langdom/Hanks nem se preocupa em cobiçar a bela cientista italiana. Não há nem clima ou tempo hábil para o romance.

Descontadas as tantas licenças poéticas no roteiro e a correria desenfreada, Howard consegue a proeza de ser extremamente fiel à linguagem proposta por Dan Brown, apelativa e amigável comercialmente. O resultado é um filme de aventura para a sessão da tarde, que quase não corre riscos, não causa grandes polêmicas e nem propõe revoluções. Como entretenimento barato, funciona. Como crítica à igreja católica, é fraco e muito pouco contundente. Qualquer barulho que tenha causado no Vaticano, foi por nada. E assim como foi com O Código da Vinci, o público irá se esquecer rapidinho.