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Woodstock, de Pete Fornatele

O radialista e escritor esteve no festival e neste livro, recém-publicado no Brasil, reúne depoimentos de nomes que tocaram na maratona, entre eles Carlos Santana, Janis Joplin e Joan Baez; confira um trecho

Redação Publicado em 15/08/2009, às 14h22

Desde o momento em que o Santana começou a tocar na tarde de sábado, o som foi ficando mais alto e os artistas, mais conhecidos - tanto literalmente quanto figuradamente. Dá vontade de contar as piadas peso-pesado sobre o Canned Heat e o Mountain, mas isso diminuiria o impacto real dos dois grupos no mundo da música. No entanto, se o porte de peso de Bob Hite serviu como teste para a solidez do palco de Woodstock, um teste maior de resistência para aquela madeira fresca aguardava na lateral. Grupo relativamente novo, o Mountain, com Leslie West e Felix Pappalardi, estava para subir ao palco. Era apenas a quarta aparição deles juntos, mas ambos tinham currículos bastante impressionantes.

Felix é mais lembrado hoje como produtor do Cream e membro fundador do Mountain - em última análise, e como o Cream, um power trio frequentemente considerado um dos criadores do heavy metal, então um gênero nascente do hard rock americano. (O termo "heavy metal" saiu da letra de "Born to Be Wild", grande sucesso de 1968 do Steppenwolf.) As credenciais de Pappalardi vêm do boom do folk no início dos anos 60. Nascido no Bronx em 1939, ele estudou literatura musical, orquestração, regência, trompete, viola e baixo na Universidade de Michigan antes de voltar para a efervescente cena musical do Greenwich Village em Nova York. Ele disse à revista ZigZag em 1971:

Felix Pappalardi:O que me levou de volta para lá, em primeiro lugar, foi que os melhores músicos que ouvi eram de lá e moravam dentro de uma área de 20 a 30 quarteirões. No início, ia nos finais de semana, depois passava a noite e, por fim, acabei me mudando. Comecei só tocando violão e cantando, depois toquei um baixo mexicano de seis cordas chamado guitarrón acompanhando gente como Tom Rush e Tom Paxton. Conheci John Sebastian e muitos outros, e nos tornamos músicos de estúdio para a Elektra e a Vanguard, além de acompanhar gente como Fred Neil nos clubes. Foi uma ótima época para mim, adorei.

Felix testou sua mão como produtor e, sem grande surpresa, descobriu que era muito bom naquilo. A joia da coroa foi ser escolhido para produzir dois dos mais inovadores e bem-sucedidos álbums do hard rock de meados dos anos 60 - Disraeli Gears e Wheels of Fire, do Cream. A reputação como produtor lhe valeu a oportunidade de trabalhar com vários outros artistas, incluindo os Youngbloods, para quem produziu o hino hippie "Get Together". Ele também fez a produção de algumas canções para um grupo de Long Island chamado Vagrants. A banda tinha alguma popularidade na região e girava em torno de Leslie West, um "homem-montanha" no sentido literal do termo.

John Morris:O canário psicodélico de 150 quilos. Era assim que ele era conhecido. Leslie e eu remetemos a um dos primeiros shows que fiz. Produzi um lance em Long Island, no Mineola Playhouse, e eles estavam atrasados. Eu já estava no palco avisando que não vinham e que sentia muito, quando de repente vejo aquela massa de 150 quilos entrar correndo cheio de plumas - numa camisa de couro -, se ajoelhar, colocar os braços em torno das minhas pernas e dizer, "Cara! Sr. Cara! Por favor nos deixe tocar, sr. Cara, estamos atrasados mas queremos tocar!" Gary Kurfurst, empresário deles naquela época, era um bom amigo, e, claro, Felix Pappalardi era um músico surpreendente e boa gente. E a música deles era muito boa.

Leslie West é tão bom em contar histórias como é bom na guitarra. E que história ele tem para contar.

Leslie West:Alguns anos se passaram. Meu irmão Larry e eu estávamos no Vagrants. Aí tivemos esse produtor chamado Felix Pappalardi, que produziu nosso single, e meu irmão disse, "Quer saber? Ouça esse grupo". Eu olhei no verso da capa do disco e dizia, "Cream produzido por Felix Pappalardi". Falei para o meu irmão, "Espera aí. O mesmo cara que produziu os Vagrants é o cara que produziu esse grupo?" Ele disse, "O mesmo cara". "Como é que a gente não tem o mesmo som do Cream?". Ele respondeu, "Porque somos uma porcaria! Você não ensaia quando a mãe diz para você ensaiar". Falei, "Você está totalmente errado. Eu ensaiei cinco, seis, sete minutos por dias durante três semanas!".

Depois veio uma daquelas epifanias que fundem a cabeça e mudam a vida:

Leslie West: Bom, eu fui ao Fillmore para ver o Cream, e meu irmão deu uma ideia brilhante, "Vamos tomar um LSD". Era um ácido legal, mas quando a cortina abriu e eu ouvi o Cream, falei, "Que merda! Nós realmente somos uma bosta". Aí comecei a praticar e praticar. E a razão porque acabei tocando guitarra da maneira como toco foi porque estava apaixonado por Eric Clapton. Para mim ele era o máximo, ele e Jimi Hendrix, mas Clapton era o meu favorito. Eu vi o Cream e fiquei, "O que é a guitarra? O que é a voz? O que é a guitarra? O que é a voz? Isso é incrível!" Aquilo mudou a minha vida de uma maneira que acabei tocando com gente com que nunca tocaria na vida.

Com certeza, Felix Pappalardi era um deles. O relacionamento que começou com os Vagrants continuou quando Leslie decidiu seguir carreira sozinho. Felix foi convidado para produzir o álbum solo de estreia, chamado Mountain. No verão de 1969, Felix começou a tocar baixo nos shows, com Leslie na guitarra solo, N. D. Smart na bateria e Steve Knight nos teclados. Este foi o quarteto escalado para tocar em Woodstock, e o grupo não decepcionou. A razão que alegaram para ter um tecladista foi que não queriam uma avaliação desfavorável em relação ao Cream. Existe também uma história, que não consegui confirmar, de que o nome da banda foi sugerido pelo companheiro e ex-aluno de Woodstock Bert Sommer. Verdade ou não, Mountain foi o nome adotado, e o primeiro álbum da banda, intitulado Mountain Climbing, foi lançado meses depois de Woodstock, quando tocaram juntos apenas pela quarta vez. Logo após o festival, o tecladista foi demitido e N.D. Smart foi substituído por um amigo canadense de Leslie, Laurence "Corky" Laing, fechando o trio que até hoje é conhecido como Mountain.

O repertório deles em Woodstock incluía as seguintes músicas: "Blood of the Sun", "Stormy Monday", "Long Red", "For Yasgur's Farm" (então sem título), "You and Me", "Theme from an Imaginary Western", "Waiting to Take You Away", "Dreams of Milk and Honey", "Blind Man", "Blue Suede Shoes" e "Southbound Train".

"For Yasgur's Farm", que obviamente refletia a experiência em Bethel, foi retrabalhada e recebeu um novo título para entrar no disco de estreia. Embora não tenha alcançado o status de hino - como a canção de Joni Mitchell ou "Lay Down (Candles in the Rain)", de Melanie -, se tornou presença constante nos shows e teve uma execução significativa nas FMs de rock. Na entrevista à ZigZag em 1971, Pappalardi respondeu sobre a canção:

Felix Pappalardi:Foi escrita por um longo período de tempo... Tocamos em Woodstock e, pelo impacto emocional que teve na gente, tivemos que mudar a letra para marcar a ocasião.

Aqui está uma amostra:

Happy dreams and somehow through the day

We haven't come so far to lose our way

Muitas recordações de Woodstock estão totalmente misturadas aos cinco sentidos. Uma das lembranças mais vivas de Leslie West envolve o seu olfato tarde da noite e no começo da manhã:

Leslie West:Estávamos na noite de sábado justo quando as luzes acenderam pela primeira vez, porque na noite de sexta choveu e eles só tiveram artistas acústicos. A noite de sábado foi linda. Quer dizer, como Jimi era a atração pricipal - na verdade ninguém era, mas ele era o maior nome -, nos divertimos muito. No começo estava um caos. Inclusive fizeram eu me esconder até escurecer, porque era uma questão de, "Quem está pronto? Quem vai entrar?" Nós fomos no nosso próprio helicóptero - éramos espertos, alugamos um. Infelizmente, como eu era mais pesado na época, o piloto do helicóptero não quis fazer só uma viagem. Então ele levou três caras e mais dois depois. E, eu lembro disso claramente, a mulher de Bud Praeger, Gloria, lhe deu seis galinhas assadas e ele não queria levar. Ele falou, "Eles têm comida lá, eles têm tudo para os artistas - eles têm bagels". Bom, isso acabou na primeira hora. Janis Joplin comeu tudo. E, de repente, lá pras duas ou três da manhã, depois que Sly and the Family Stone entraram, estávamos mortos de fome. Estávamos sentados atrás do palco - não tinha nada lá, e Bud sacou aquelas galinhas. E as pessoas começaram a chegar perto porque cheirava bem demais. Glória, se você está escutando, Deus te abençoe, porque alimentamos umas quarenta e oito pessoas naquela noite.

Em 1972, por brigas internas, o Mountain acabou. Houve reuniões posteriores e novas rupturas ao longo dos anos e, na verdade, existe uma encarnação do Mountain, com West e Laing, que ainda toca de vez em quando no século XXI. Mas um tipo diferente de tragédia do rock - um que não tem a ver com drogas, álcool, carros, quedas de aviões ou doenças fatais - pôs fim a qualquer possibilidade real de juntar os três "montanheiros" para tocar de novo.

No dia 17 de abril de 1983, Gail Collins-Pappalardi, mulher, parceira de composições e diretora de design visual, matou o marido a tiros no apartamento deles em Nova York. Ela foi culpada por homicídio doloso por negligência, com sentença de até quatro anos de prisão, depois dos quais sumiu da vida pública e nunca mais foi vista. Pappalardi está enterrado no cemitério de Woodlawn com outros grandes músicos no lugar onde nasceu, o Bronx.

Em 2007, o Mountain fez parte de uma turnê chamada HippieFest, e uma das paradas foi no novo centro de artes performáticas no local do Festival de Woodstock original. Leslie disse à revista Modern Guitars:

Leslie West:Tocamos naquela turnê, tocamos nos bosques de Bethel e o novo anfiteatro de lá, que é perto do lugar original. Fomos ver o monumento com todos nossos nomes nele. Foi uma boa sensação, e é uma pena que Felix não estivesse por perto.

Perguntado se Woodstock foi tudo que ele tinha esperado, Leslie respondeu com sua habitual sinceridade grosseira:

Leslie West:Não esperei nada. Eu não tinha a menor ideia do que se tratava. Acho que ninguém esperou nada, pensando bem. Todo mundo foi para ficar doidão e ouvir música.

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