O bom e velho Korn

Grupo ícone do new metal fez show cheio de hits nesta quarta-feira, 21, em São Paulo

Por Fernanda Catania Publicado em 22/04/2010, às 10h57

Jonathan Davis mantém a potência vocal que o fez famoso diante do Korn

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Atualizada às 10h57

Não é a toa que o Korn é um dos ícones do new metal. O som do grupo é único: letras pesadas carregadas de sentimento - compostas por um vocalista que tem histórico de depressão - embaladas por uma sonoridade criativa e muito bem executada. Com a saída do guitarrista Head (em 2005) e do baterista David (2006), a sensação era de que a banda iria regredir. Dito e feito: os últimos dois CDs soaram mais comerciais e não agradaram tanto aos fãs. Mas o show que aconteceu nesta quarta-feira, 21, no Credicard Hall, em São Paulo, trouxe a esperança de estar vindo um novo (velho) Korn por aí.

Nem era preciso assistir ao show para saber que a maioria das cinco mil pessoas ali presentes eram fiéis fãs de Korn. Além das quase obrigatórias roupas e maquiagens pretas, era possível encontrar camisetas de várias épocas da carreira da banda, bandanas e tatuagens estampando o logo clássico do grupo (Korn com a letra R ao contrário) e dreadlocks no cabelo inspirados no penteado do vocalista Jonathan Davis e do guitarrista Munky. Ansiosos, os fãs já tentavam se posicionar no melhor lugar da pista antes do início do show e gritavam "Korn" a cada momento em que aparecia alguém da equipe para ajustar os equipamentos.

Às 21h37, uma luz vermelha iluminou o painel preto, que estampava o logo da banda em branco, e, então, começou a música "4 U", sem nenhum integrante presente no palco. Aos poucos, eles foram entrando. Munky, o mais excêntrico do grupo, apareceu com uma máscara branca pintada em torno dos olhos, vestindo um blaser branco. Por último, Jonathan Davis subiu ao palco, vestindo seu conjunto clássico de moletom e calça da marca Adidas, para alegria daqueles que acompanham a banda desde 1994.

Durante as três primeiras músicas, os fãs ainda pareciam não acreditar estar vendo o grupo, que não fazia uma apresentação própria no Brasil desde 2002 (em 2008 eles vieram para abrir o show de Ozzy Osbourne). Enquanto cantavam em coro todas as letras, as pessoas se abraçavam, se olhavam e tentavam se espremer na grade para ver seus ídolos ainda mais de perto.

O volume baixo no som dos vocais não conseguiu abafar a potência da voz de Jonathan Davis. No entanto, a cada duas músicas, o vocalista de 39 anos virava de costas e inalava oxigênio de um aparelho. Durante o show, muitas vezes ele se mostrou cansado e ia descansar atrás da bateria enquanto a banda fazia alguns solos. Mas cansaço não significa falta de animação. Apesar da expressão de sofrimento de Jonathan - o que, na verdade, dá um toque ainda mais melancólico ao clima pesado das músicas -, o líder do grupo se mostrou muito feliz com a multidão enlouquecida a sua frente.

O que Jonathan Davis tem de discreto, Munky tem de extravagante. A todo o momento, o guitarrista pulava, girava, se jogava no chão, fazia caras e bocas, cuspia água para cima, colocava a língua para fora e, claro, balançava o cabelo.

Depois de "Falling Away From Me", sexta faixa do set, Jonathan, que não é de falar muito, deu seu primeiro sorriso, agradeceu a São Paulo e apresentou a próxima música: a inédita "Olidale", parte do novo CD, Korn III - Remember Who You Are.

Nostalgia

Os fãs mais antigos do Korn que sentiram medo de ver uma apresentação só com músicas recentes, provavelmente se surpreenderam. Isto porque o setlist, em grande parte, foi composto por faixas da melhor safra da banda, como "Dead Bodies Everywhere", "Freak on a Leash", "Good God" e "Blind", que foi uma das mais animadas. Assim que começaram as batidas da música, algumas pessoas da pista premium se organizaram para que todos os ali presentes se agachassem no chão. Assim que Jonathan falou a clássica primeira frase da música, "Are you ready?" (em inglês, "você está preparado?"), todos levantaram pulando freneticamente, emendando uma roda de bate-cabeça, algo que aconteceu durante toda apresentação.

O melhor momento do show aconteceu no bis. Jonathan Davis apareceu com o cabelo preso tocando gaita de fole. O instrumento antecipava "Shoots and Ladders", do homônimo disco de estreia da banda, lançado em 1994. Para finalizar com chave de ouro a apresentação de cerca de 90 minutos, o grupo tocou as tão aguardadas "Clown" e "Got the Life".

O repertório do show também contou com alguns hits mais recentes, como "Coming Undone" (com o refrão de "We Will Rock You", do Queen) e "Did My Time", mas a apresentação foi dedicada aos sucessos dos primeiros álbuns, principalmente Korn (1994), Follow the leader (1998) e Issues (1999). As músicas do último disco, Untitled (2007), por exemplo, ficaram de fora.

No fim, Jonathan Davis agradeceu e disse: "Vocês são um público incrível! Espero vê-los novamente em breve". Em seguida, andou por toda a beirada do palco, dando tchau com a mão, mandando beijos e sorrindo. Depois, foi a vez de Munky agradecer e seguir em direção ao público, causando ainda mais alvoroço que Jonathan. Com a maquiagem borrada, Munky jogou palhetas para o público, que se esmagava na tentativa de chegar perto do músico. Por fim, o animado baterista Ray Luzier jogou várias baquetas pra plateia e arremessou a pele da bateria autografada por ele. Já o adeus do quietão baixista Fieldy foi mais discreto - ele nem se aproximou do público próximo ao palco.

A apresentação trouxe uma sensação de nostalgia para aqueles que estavam no show do Korn de 2002. Talvez esta tenha sido mesmo a intenção, já que o grupo indica que vai voltar às raizes no próximo disco, previsto para ser lançado no meio do ano. Além da alusão presente no título Korn III - Remember Who you Are, o disco foi produzido Ross Robinson, mesmo produtor dos dois primeiros álbuns. Parece que o Korn percebeu que o melhor da banda está nos trabalhos dos anos 90. Sem dúvida, a apresentação na capital paulista foi a prova final disso.