“As pessoas usam nossa música como trilha para fazer amor”, diz guitarrista do Explosions in the Sky

Com “rock para a imaginação”, banda instrumental texana estreia em palcos brasileiros

Pablo Miyazawa Publicado em 22/05/2013, às 13h12 - Atualizado às 14h52

Explosions in the Sky
Divulgação

No papel, a receita proposta pelo Explosions in the Sky pode não soar exatamente acessível: rock instrumental feito apenas com guitarras, baixo e bateria, sem nenhum elemento vocal, em canções que facilmente ultrapassam os sete minutos de duração. Surgido no Texas no final dos anos 90, o grupo ganhou o mainstream em 2011 com o álbum Take Care, Take Care, Take Care, uma coleção de climas e arranjos épicos que se contrapõem a belas melodias de caráter intimista.

Passando pela primeira vez pelo Brasil para dois shows com ingressos esgotados – no Sesc Belenzinho, em São Paulo, nos dias 22 e 23 de maio –, o quarteto (que ao vivo conta com um integrante a mais) promete apresentações energéticas e com alto teor emotivo, apesar da ausência de um frontman. “Quando tocamos, queremos que o público acredite na música, então temos que mostrar que também acreditamos na música”, comenta o guitarrista Munaf Rayani. Falando por telefone de Austin (Texas), ele contou sobre o sucesso repentino, revelou como os fãs consomem a música que faz e rechaçou as teorias da conspiração ligadas ao nome da banda. “Vivemos em uma sociedade mundial de sensacionalismo”, diz.

O Explosions in the Sky faz rock instrumental, mas dizer isso não é o suficiente para explicar o som que vocês fazem. Como você próprio descreveria a música que fazem?

É meio difícil para eu dizer. Acho que é mais uma função da pessoa que estiver ouvindo interpretar como quiser... Mas, pensando bem, talvez seja algo como “rock para a imaginação”. É uma música que permite aventura, ideias diferentes, algo para você próprio sentir e interpretar. De certa forma, é algo parecido com um “rock and roll para a mente”. Acho.

Desde que a banda surgiu, há 15 anos, vocês tentaram alguma vez usar um vocalista? Se sim, por que não funcionou?

Não, nunca tentamos. Quando começamos a tocar esse tipo de música, em 1998, 1999, achávamos que as composições eram fortes o bastante para se segurarem por conta própria. Se tivéssemos que adicionar algum tipo de voz, isso talvez tirasse a força de algumas das nossas melodias, ou enfraquecesse a harmonia e a química entre os instrumentos. Pensamos que se estava soando tão potente sem vozes, então não deveríamos ir contra isso.

O disco mais recente, Take Care, Take Care, Take Care (2011), soa melhor produzido do que os anteriores, com arranjos mais grandiosos. Dá a impressão de que vocês pretendiam colocar um pé no mainstream para valer. Foi esse o objetivo durante a gravação?

É isso mesmo. Mas tudo aconteceu naturalmente. O engenheiro de som, um cara chamado John Congleton, foi quem gravou nossos últimos quatro discos. E pelo período de sete, oito, nove anos que estamos juntos, todos crescemos e evoluímos ao mesmo tempo. Então, a ideia que tínhamos quando entramos no estúdio era de que queríamos que o som fosse ainda mais potente, ainda mais triste, e ainda mais significativo. Queríamos expandir os limites do mundo em que vivíamos. Mas não importa o quanto se tenta, no fim, você é você mesmo.

Pretendíamos encontrar ali uma versão amadurecida nossa, mais ampla e bombástica. A ideia era nos permitirmos fazer a música e atirá-la para o espaço, para as estrelas. Tocar e ver até onde poderíamos chegar. E John se tornou um engenheiro ainda mais habilidoso com os anos. A gente podia dizer a ele: “Ok, queremos que essa música soe como se uma árvore estivesse despencando”, e ele entendia o que isso queria dizer e fazia acontecer.

O disco entrou no 16º lugar na parada norte-americana, algo bastante significativo em se tratando de uma banda exclusivamente instrumental. De repente, vocês não eram apenas conhecidos por fãs e pela crítica. Estavam preparados para a repercussão do sucesso do disco? As cabeças estavam no lugar?

Foi uma surpresa tão grande para nós como foi provavelmente para quem estava lendo o jornal. Não mudou nossas mentalidades ou nossas personalidades, mas tivemos uma forte sensação de que é possível essa música ser aceita por um público mais amplo, e não apenas por quem escuta instrumental, indie rock ou coisa parecida. Estávamos alcançando muito mais do que isso. Que coisa linda de se acontecer para qualquer artista - seja um músico, escritor, cineasta -, poder criar um trabalho artístico e ele ressoar através do mundo. Que sorte a nossa. E que sensação maravilhosa. E o crédito é do público que escuta música atualmente. Alguns podem dizer que as pessoas não possuem atenção ou cabeça suficiente para ouvir música desse tipo, mas eles escutam. Você pode escrever uma música de oito, dez minutos, e se ela tiver significado e mantiver sua atenção, ela será ouvida. Foi algo incrível para nós, mas não nos mudou de maneira alguma. Somos felizes de poder tocar música para viver, já que é a única coisa que fazemos. Mas de jeito nenhum somos o Red Hot Chili Peppers, ou o Justin Bieber… Esses caras são o mainstream. E isso não é algo ruim, é apenas assim que é. Para nós, o que fazemos é um tipo de criação artística mais íntima, mas se muitas pessoas estiverem nos ouvindo, então nós somos os felizardos.

Você concorda que a música do Explosions in the Sky exige compromisso e dedicação. Diria então que os fãs hardcore estão, de certa forma, em um nível superior ou diferente do dos fãs comuns de música?

De jeito nenhum dá para dizer que alguém é melhor do que o outro pela música que escuta. Mas dá para dizer que há um detalhe que une e conecta todos os nossos fãs de carteirinha: eles querem sentir. Se você se permite esse luxo, o mundo se torna mais brilhante, os sons ficam mais refinados e agradáveis, as piadas se tornam mais engraçadas. Essas coisas permitem às pessoas curtir a vida um pouco mais. Então, sim, os fãs hardcore se permitem sentir mais. E sem inibições, amarras. Eles não têm vergonha de se sentir tocados pela música.

Que tipos de coisas você já ouviu a respeito de sua música? Melhor dizendo, o que os fãs dizem fazer enquanto estão ouvindo Explosions in the Sky?

É engraçado, as pessoas nos contam sobre as tarefas diárias mais mundanas: limpar a casa, aparar a grama, lavar a roupa. Essas coisas se tornam mais emocionantes para elas [com a música]. Ou coisas lindas, como fazer amor, sair para um encontro, ou caminhar pelo bairro. Nenhum fã é mais ardoroso do que o outro, porque estão todos usando a música para tocar as próprias vidas. Mas a minha favorita é quando as pessoas a usam como trilha sonora para fazer amor. Essa é uma coisa linda de se fazer com a música.

O nome da banda (explosões no céu) esteve relacionado a coincidências e teorias da conspiração publicadas na internet nos últimos anos, principalmente após ataques terroristas como o de 11 de setembro de 2001. Quando esse tipo de comentário deixa de ser engraçado e começa a atrapalhar?

Não faz as coisas ficarem mais difíceis pra nós, mas se torna meio bobo quando as pessoas só querem falar sobre isso. É tanta coisa ridícula, não só no jornalismo em geral, mas principalmente entre esse tipo de gente que gosta de escrever coisas na internet. Vivemos em uma sociedade mundial de sensacionalismo, que quer as histórias sejam mais e mais absurdas. Essa parte não me abala. É a repetição de certas histórias que faz tudo meio um saco. Tipo, ok, agora nós temos de nos explicar sobre tudo. E isso é tão idiota, tipo, nós somos uma banda de rock do Texas! Como a gente vai estar ligado a qualquer coisa desse tipo? Mas de qualquer modo, isso é só coisa de gente espalhando histórias ridículas. Não tem sido um problema para nós, porque cada um diz o que pensa, mas a gente tenta não encanar com isso. Não é algo que passe pelas nossas cabeças.

Os dois shows em São Paulo estão com ingressos esgotados. Daria para imaginar uma situação como essa quando a banda começou, há 15 anos?

É um sonho, né? É com isso que as pessoas sonham. Nós nem sabíamos que esse era nosso sonho, e então, cá estamos nele. De novo, que sentimento espetacular é criar uma melodia e você compreendê-la no Brasil, em um mundo tão distante do nosso. Nós nunca estaríamos conversando se não fosse pelo fato de que colocamos algumas notas musicais em sequência. Nós somos tão gratos por podermos fazer isso da vida... porque muitas pessoas não fazem isso – mesmo músicos que são melhores do que somos, que são mais talentosos do que a gente. Nem todo mundo tem essa oportunidade. Então, criar esse tipo de musica e poder trazê-la para o Brasil? Sim, estamos sonhando. É mesmo um sonho! E se esse é o caso, eu espero que a gente nunca acorde.

Explosions in The Sky no Brasil

Quinta e sexta, dia 22 e 23 de maio

Sesc Belenzinho - Rua Padre Adelino, 1000 – Belém

Ingressos esgotados