Red Hot Chili Peppers fica à sombra de John Frusciante

Em show irregular, mas repleto de hits, banda esbarra em problemas técnicos e de entrosamento com o guitarrista Josh Klinghoffer

Bruno Raphael Publicado em 22/09/2011, às 03h00 - Atualizado às 08h37

O baixista Flea e o vocalista Anthony Kiedis dão inícios aos trabalhos do Red Hot Chili Peppers na Arena Anhembi na noite desta quarta, 21

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Mesmo com a trégua de um céu nublado que ameaçava complicar a noite desta quarta, 21, em São Paulo, o Red Hot Chili Peppers não soube aproveitar o fator clima para reverter o jogo a seu favor. Salvo o carisma e talento do baixista Flea, a banda que pisou no palco da Arena Anhembi apresentou hits da fase mais pop da carreira, sem surpresas e, principalmente, sem a aura despojada que alçou a banda ao papel de uma das mais importantes do rock por mais de duas décadas (veja a galeria de fotos do show, clicando ao lado).

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“Se o Flea sair, não existe Chili Peppers", disse Anthony Kiedis em entrevista publicada na Rolling Stone Brasil do mês de setembro (clique aqui para ler um trecho). Ao vivo, tal frase soa ainda mais verídica: após a abertura do show por conta dos britânicos do Foals, passavam das 21h50 quando o baixista foi o primeiro a aparecer no palco, pulando e animando uma plateia que só precisaria de um aceno de mão para retribuir tamanha demonstração de carisma. Flea, nascido Michael Peter Balzary, é sim a alma do Red Hot Chili Peppers, porém não a essência completa da banda, como o show viria a mostrar.

"Monarchy of Roses", de I'm With You, primeiro disco da banda após a (segunda) saída do guitarrista John Frusciante, foi a escolhida para iniciar os trabalhos na Arena Anhembi. Bigodudo e de poucas palavras, o vocalista Anthony Kiedis lembra de longe o músico que tocou na mesma cidade quase dez anos atrás, em 2002. Após o fim da canção, um tímido "tudo bom?" do cantor mostrou a possibilidade de uma interação com a plateia, que não se intensificou no decorrer do show.

"Can't Stop", de By the Way (2002), é a primeira música a levar ao delírio um público que, mesmo com a liberdade do guitarrista Josh Klinghoffer em interpretar os solos criados por Frusciante à sua maneira, não se incomoda em aproveitar o momento e os hits que tocaram em boa parte da rádios FM na década passada.

"Nós temos muita sorte de estar aqui hoje", disse Flea, antes de tentar criar um laço de proximidade com o público ao dizer aleatoriamente os nomes "Pelé", "Ronaldo" e "Mauro" [Refosco, percussionista de apoio da banda, que é brasileiro]. O público agradece o esforço, antes dos primeiros acordes de "Scar Tissue" serem tocados por Klinghoffer e o público mergulhar na nostalgia anos 90 de Californication (1999). "Tell Me Baby", de Stadium Arcadium (2006), veio logo depois.

É fato que as canções de I'm With You não empolgam com a mesma facilidade que as de outros discos da banda, devido ao curto período de existência do novo trabalho. Após "Look Around", um desinteressado Kiedis, lançou mão de "Otherside". Este foi o primeiro momento crítico de Klinghoffer no show, errando o tempo da introdução na guitarra e confundindo, temporariamente, tanto Flea quanto o baterista Chad Smith.

"Factory of Faith" passou despercebida, enquanto "Throw Away Your Television" agitou o público. Kiedis aproveitou para brincar com Mauro Refosco. "Ei, Flea, esse seu amigo é um filho da puta cruel", disse o vocalista. "Mas, curiosamente, ele é brasileiro." O baixista ainda fez uma piada com a cidade natal de Refosco (Joaçaba). "Aqui neste lugar já tem mais gente que na cidade dele!", disse Flea, que em seguida recebeu como retribuição uma virada irônica de bateria de Chad Smith.

Depois da brincadeira, a banda engatou "The Adventures of Rain Dance Maggie", primeiro e até o momento único single do disco novo, portanto já conhecida do público. "Me & My Friends", de The Uplift Mofo Party (1986), reviveu o amor pelo antigo som da banda, na época em que ainda contava com o guitarrista Hillel Slovak e o baterista Jack Irons.

Talvez no momento que mais denotou o ainda prematuro entrosamento de palco entre Klinghoffer e o resto da banda, "Under the Bridge" teve sua introdução errada duas vezes. Na primeira, uma falha técnica com o roadie faz com que o pedal de Klinghoffer não funcionasse; na segunda, o guitarrista errou a entrada e atrasou o timing da banda. Não, Klinghoffer não é Frusciante e nem pretende ser, mas se esforça: depois disso, o guitarrista se esmerou em solos virtuosos para provar que merece estar no lugar de seu amigo e, porque não dizer, mentor.

Após uma sequência de hits matadora que incluiu a cover de Stevie Wonder "Higher Ground", "Pea" (cantada por Flea), "Californication" e "By the Way" (que novamente contou com problemas técnicos na guitarra de Klinghoffer), o Red Hot se retirou do palco estrategicamente para um bis que aconteceu tão rápido que nem seria necessária a encenação da banda saindo. Antes de apresentar "Dance, Dance, Dance", Chad Smith e Mauro Refosco brincaram em um solo de percussão que ganhou a participação de Flea e Klinghoffer (em posse de um cavaco) no seu final.

A banda seguiu com "Don't Forget Me" antes da previsível despedida com "Give It Away", de Blood Sugar Sex Magik (1991). Kiedis foi o primeiro a se retirar do palco, deixando Flea, Smith e Klinghoffer à vontade para fazer uma pequena jam que durou o tempo suficiente para que o público não se mobilizasse por um pedido de bis.

Veja abaixo o set list do show do Red Hot Chili Peppers na Arena Anhembi. A banda também se apresentará no Rock in Rio no próximo sábado, 24.

"Monarchy of Roses"

"Can't Stop"

"Tell Me Baby"

"Scar Tissue"

"Look Around"

"Otherside"

"Factory of Faith"

"Throw Away Your Television"

"The Adventures of Rain Dance Maggie"

"Me & My Friends"

"Under the Bridge"

"Did I Let You Know"

"Higher Ground"

"Pea"

"Californication"

"By the Way"

Bis

"Dance, Dance, Dance"

"Don't Forget Me"

"Give It Away"