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Um dia inteiro na Virada Cultural: nosso repórter especial conta o que viu durante as 24 horas de evento

Cinema erótico japonês, luta livre, cabaré e uma questão a ser respondida: o buffet livre da cultura serve tudo morno?

Gus Lanzetta Publicado em 20/05/2013, às 14h43 - Atualizado às 17h06

A diversão cheia de testosterona da luta livre

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Este foi meu terceiro ano consecutivo cobrindo a fanfarra que é a Virada Cultural de São Paulo e eu continuo impressionado, mesmo que muitas das atrações passem longe do que eu costumo ouvir e assistir no dia a dia. Por algum motivo, estar na bagunça da Virada com um foco no que preciso ver me dá um ânimo extra. Mas, desta vez, o trabalho era diferente. O pedido: “Por que você não escreve um diário sobre como é ficar 24h na Virada?”.

Para me guiar, pensei que seria bom ter uma questão a responder. A minha pergunta: “O buffet livre da cultura serve tudo morno?” Comecei, como um bom nerd, indo ao I Festival Games Brasil no MIS - Museu do Som e da Imagem, às 17h. Só de ser tão longe do centro já dava para saber que era um daqueles eventos que não chamam muita atenção na Virada. O que pode ser interessante (menos gente, menos riscos) – ano passado, aliás, rendeu uma ótima visita à Exposição de Gatos de Raça. No MIS, havia apenas alguns jovens, crianças e pais olhando e mexendo em uns oito joguinhos independentes brasileiros e algumas mesas com jogos de tabuleiro. Nada de mais... porém, cultural.

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Às 18h15 eu já estava a postos no meu “palco” favorito de todos os anos: o ringue de luta livre da Brazilian Wrestling Federation, na Sé. É incrível como todo ano o evento cresce mais dentro da Virada (cerca de mil pessoas viram as lutas de abertura nesse ano) e pouco se ouve falar sobre ele. Como é de costume, vieram lutadores de outras federações (Argentina, Chile e Peru) se apresentar ao lado dos brasileiros. Tanto as crianças quanto os adultos que se aglomeraram para assistir às lutas torciam, gritavam, estavam totalmente absortos pela mise en scène canastrona que faz parte da luta livre. Houve até provocação usando a bandeira do Corinthians, luta de homem com mulher, três contra três. E o melhor de tudo: ninguém gritando “é de mentira!”. A luta livre, mesmo estando meio fora da cultura mainstream, ainda é algo bem reconhecível para muitas gerações, por isso funciona na Virada. Você vê dois caras com calças de lycra em cima de um ringue e de cara entende por que eles estão lá – para um balé de testosterona com a intenção pura de divertir quem assiste.

Já eram 20h quando o primeiro grupo de lutas acabou e decidi experimentar alguma das barracas de Comida de Rua. Nem todas estavam abertas ainda. Optei por um pastel – que tinha gosto de pastel (nem tudo é surpresa na Virada).

Por volta das 20h30 passei pelo viaduto do Chá e tive um momento que me fez encarar a Virada Cultural como um videogame: um mundo aberto no qual toda rua e praça têm alguma atração, algo para manter você entretido ou com que possa interagir, como em um universo fabricado para ser usado em um jogo. Foi o que pensei quando senti uma grande vertigem sem sequer estar perto de cair – naquele momento, o grupo Acrobático Fratelli tinha quatro de seus membros dependurados sobre o vale do Anhangabaú, indo da cobertura de um prédio à cobertura de outro, no lado oposto. Durante todo o trajeto, os quatro e suas roupas se mexiam de forma hipnótica, e eu não parava de pensar que algum deles poderia cair dali. Ninguém caiu. Foi lindo. Próxima fase.

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Depois, outra cena interessante: uma loja de departamentos tinha improvisado uma placa que dizia “Cerveja R$1,79”. A placa ficava pendurada acima de uma piscina infantil inflável cheia de gelo e latinhas. Ao lado das bebidas, bem na porta da loja, uma vendedora usava um microfone e um amplificador para convidar os transeuntes a “bebemorar”, já que a cerveja estava barata e gelada.

Depois de me perder um pouco pelo centro (algo que faz parte do meu aprendizado anual de como a geografia de São Paulo funciona praqueles lados), cheguei ao Cine Dom José, que tinha na programação uma lista de filmes eróticos japoneses. Vários cinemas da região passam filmes pornográficos todos os dias, mas somente nesse fim de semana é que se poderia ver a quase-pornografia nipônica, com curadoria e tudo. Entrei na sala às 21h12, nos últimos 15 minutos de Segredos Por Trás da Parede. A primeira legenda que li dizia “você viu meu queloide”. Era um homem falando com uma mulher nua que estava na cama com ele. Ao fundo, um retrato de Stalin. Tudo que seguiu era mais confuso para quem não viu o que precedeu, então, esperei pela próxima sessão, surpreso com o fato de a sala estar completamente silenciosa, sem a algazarra juvenil que eu esperava.

Sexo e Fúria tinha bastante nudez, lutas de espada, Yakuza, vingança, uma atriz que falava inglês com sotaque francês (era para ser britânico), muita pieguice, histórias e personagens que aparecem e sumiam do nada. Tinha, basicamente, de tudo. A maioria das 50 pessoas que assistiu ao filme comigo aplaudiu ao fim – o restante parecia ter entrado lá para dormir mesmo.

No caminho para o show do Sidney Magal no Largo do Arouche, por volta das 23h30, na esquina da avenida São João com a Pedro Américo, passei por uma banda que tocava com sistema de som e tudo, no meio da calçada. Não era um palco, não era nada oficial, mas tinha um público cativo e feliz.

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No Arouche, onde morava Caco Antibes, estava tudo absurdamente lotado, parecia estádio de futebol em final de algo importante (pelo que eu vejo de estádios de futebol pela TV, não saberia dizer concretamente). Fui avisado por SMS que estava rolando um arrastão por lá. Foi a desculpa perfeita para dar meia volta e sair dali (eu só conheço uma música do Magal, e não era a que estava tocando).

Perambulei muito em busca de um táxi, já que a bateria do celular estava morrendo e eu precisava ir em busca do carregador, mas isso infelizmente se provou uma tarefa impossível. Fui até o metrô República, não sem antes parar para ouvir um remix de Major Lazer que estava tocando na pista da praça (e sim, eu entendo que neste momento muitos de vocês me odeiam por eu conhecer só uma música do Sidney Magal, mas ter conseguido reconhecer um remix gringo).

Em casa, enquanto o telefone recarregava, eu ponderava se tudo não estava perdido, se o experimento de ficar 24h na Virada não teria sido jogado no lixo por esse respiro. A cama estava ali, ao lado. Eu só tinha tomado dois refrigerantes de cola, nenhum energético – mas o único roubo que tinha sofrido havia sido o do meu troco, em uma máquina de refrigerante no metrô. Então, me mantive firme na decisão de continuar.


Levemente baqueado por conta dos minutos fora da muvuca, rumei ao terreno inóspito da Viradinha. Chegando à Praça da Luz descobri que houve uma mudança de planos e não haveria mais ilusionistas por lá. Sem mágica, me refugiei no resquício de programação que ainda havia nos cantos da Luz - a última apresentação de um grupo pirotécnico que pecava pela técnica. E foi lá, assistindo a pessoas tentarem acender tochas e anéis, que eu percebi o maior perigo desse buffet livre de cultura: a gula.

Com o olho maior que a boca (até pela obrigação de me manter consumindo o que a Virada Cultural oferecesse durante um dia inteiro), eu estava simplesmente tentando deglutir o máximo possível. Foi a partir daí que comecei a perceber outro sintoma da fadiga mental de Virada Cultural: o vomitório cerebral. Depois de certo número de experiências tentando curtir shows, filmes, lutas, etc, tudo que aparece de novo no seu cérebro só entra porque algo ali é regurgitado para o abismo do esquecimento. A falta de atenção trazida pela noite não dormida também não ajudava.

Retornei ao Arouche (agora com menos arrastões) para ver o show da Banda Uó, às 5h da manhã do domingo. Foi quase uma hora de hits e fãs animadíssimos, mas o tecnobrega de hipster – que eu aprecio – dos meninos ficou pálido em comparação com que veio em seguida. Andei até o Palco Júlio Prestes, onde, às 6h, começaria o show de Gaby Amarantos. Cheguei já querendo sentar, sentindo o atrito de horas começar a se manifestar dolorosamente nas solas dos pés. O show da paraense começou tão animado e explosivo que demorei três músicas para me render ao chão. E olha que ela nem tem as coreografias de Power Rangers que os Uó têm, mas conta com uma ótima banda.

As participações especiais eram aguardadíssimas: Emicida, Loalwa Braz (vocalista do Kaoma, dos hits “Chorando se Foi” e “Dançando Lambada”) e Elza Soares. Além de cantar e trocar elogios, deu para o trio formado por Gaby, Emicida e Elza alfinetar Marco Feliciano e puxar um coro de “o jovem no Brasil nunca é levado a sério” como um grito de guerra.

Energizado pela apresentação, saí em busca de algo para fazer até a hora da abertura das barracas dos Chefs na Rua. A banda argentina de ska Satellite Kingston fez um show esquizofrênico para umas duas ou três dúzias de dançantes já totalmente iluminados pelo sol. O show acabou bem na hora de correr para pegar um pedaço do tão aguardado porco à paraguaia. Oito porcos que foram assados durante toda a madrugada sobre carvões em fornos montados com tijolos estavam sendo vendidos com o acompanhamento de um cremoso e bem temperado tutu de feijão. A pele crocante, o tempero caramelizado e a carne se desmanchando por R$ 15 eram todas características dignas de muita apreciação.

Alimentado de porco, fui visitar Nigel Goodman no palco de stand-up, pelo qual ainda não havia passado. Eram 9h da manhã e umas dezenas de pessoas se mantinham compactadas em frente ao palco mais pacífico da Virada. Talvez fosse o poder da comédia, talvez fosse o frio, talvez ninguém quisesse voltar para casa ainda – ou talvez ninguém conseguisse se mexer depois de uma madrugada ali parado, rindo de imitações e piadas de marido e mulher.

Às 10h, conversando com Nigel e outros comediantes no camarim do palco, tomei uma decisão e um energético (a decisão, no caso, era a de sucumbir a uma dessas bombas de cafeína que me acordariam momentaneamente, mas em breve me fariam precisar de mais algumas delas). Com energético no sangue e ideias erradas na cabeça, rumamos para o ringue de luta livre, onde tentamos viabilizar uma luta entre comediantes. Infelizmente, uma luta de verdade estava para começar. O sonho estava morto.

Desprovido de ideias e firmeza nas pernas, voltei ao Cine Dom José, onde decidi sentar por um tempo. O cinema tinha bastante gente roncando, uns cinéfilos desatentos e vociferantes que falavam de tudo que era tópico, menos do filme em questão e, eventualmente, um grupo de jovens que não parava de vociferar sobre o quão bêbados estavam. Um ainda exclamou: “Além de preto e branco, é japonês o filme!” Bem colocado, jovem senhor.

Eu já não estava conseguindo realmente prestar atenção a nada e, para ser justo, o filme que passava parecia mais confuso do que aquele que eu havia enfrentado no início da noite. Quando fui ao banheiro notei, entre outras, uma placa que dizia “proibido fazer programa neste recinto”. Eu soube nesse momento que não era lugar para mim. Não que eu queira frequentar lugares que estimulam os programas no toalete, mas quero frequentar lugares que confiam em mim para não fazê-lo.

Corri de lá para o metrô, onde ouvi um transeunte tocando a canção “Light My Fire”, do The Doors, no piano que adornava a estação. Mas eu estava com pressa: Kleiton & Kledir iriam fazer um show infantil lá no palco da Viradinha na Estação da Luz, o mesmo local que tinha me decepcionado antes.

Bom, eu sabia que o show era um musical para crianças e que nem ouviria músicas famosas da dupla gaúcha, mas me incomodou ouvir versões modificadas de letras que eu conheço só para agradar a seres humanos que um par de chaves e meia bola entretêm por horas. Eu entendo que um projeto desses não altera em nada o trabalho já feito anteriormente, mas existe algo estranho em ver artistas dos quais você gosta servindo a outro mestre... especialmente se ele usa fraldas. Mas minha reação, é claro, tem de ser avaliada considerando: 1) o fato de que eu estava acordado há quase 24 horas; 2) debaixo de sol; 3) eu odeio crianças.

Superada a birra infantil própria da Viradinha, rumei ao derradeiro palco da minha Virada: o Cabaré. No ano passado já havia encerrado toda a cultura de fim de semana por lá vendo Rita Cadillac cantar e rebolar. Neste ano não queria repetir a dose, então iria terminar a maratona com a apresentação de Marisa Orth.

Cheguei ao palco um pouco cedo e conheci o talento de Monique Maion, que cantava com a ajuda de sua banda no melhor estilo clássico de cabaré. Quando Marisa Orth entrou no palco, já eram quase 16h e eu estava tendo lapsos de consciência, daqueles nos quais você deixa a cabeça pesar e quase derruba a câmera no chão. Nesse momento vi que a Virada Cultural tinha vencido e me retirei da batalha como um soldado seguro de si.

Essa é a relação que o “all you can eat” cria: a gente quer o que a Virada tem e a Virada oferece mais do que a gente consegue abocanhar. Aglomerar palcos, pessoas, artistas, recursos, polícia: nunca vai ser o jeito ideal de se organizar um evento de cultura. Mas esse evento é singular. Tem seus defeitos, transforma todos nós em glutões de entretenimento, lota as ruas com amadores que acham que bebem demais porque é Carnaval ou Ano-Novo (ou Virada), cria incríveis gastos e oportunidades para violência e crime. Mas tem seu lado bom: tudo está disponível por lá.

Não entendo nada sobre organizar um evento desses e nem sobre cuidar de uma cidade, mas entendo um pouco de comida. O buffet nunca vai ser o melhor jeito de curtir alguma receita, mas é um ótimo jeito para manter todo mundo alimentado – além disso, cada um pega o que quiser. E que venha 2014.

Gus Lanzetta é comediante e repórter nas horas vagas.