The Velvet Underground & Nico: faixa-a-faixa de um dos discos mais influentes do rock

Sob a liderança de Lou Reed, o álbum traz letras sobre sexo, drogas e morte, e pode ser visto como um retrato da Nova York do fim dos anos 1960

Paulo Cavalcanti* Publicado em 12/03/2019, às 17h15

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(Foto:AP Photo/Mark Lennihan, File)

Lançado em março de 1967, The Velvet Underground & Nico é o nome quase homônimo do primeiro disco da banda de Nova York The Velvet Underground, liderada pelo cantor e compositor Lou Reed.

O álbum foi um fracasso comercial e ignorado por grande parte da crítica da época, mas ganhou um brilho e uma valorização cult ao longo dos anos, e hoje é mundialmente reconhecido como um dos trabalhos mais influentes na história não só do rock, mas da música popular.

Desde a arte icônica da capa, feita por ninguém menos que Andy Warhol (e que acabou rendendo ao disco o apelido de "álbum da banana"), até as composições sobre drogas, sexo, morte e drogas (sim, novamente), preparamos um faixa-a-faixa deste marco composicional que pode ser visto também como um retrato de Nova York do fim dos anos 1960.

Sunday Morning

Com seu jeito barroco, "Sunday Morning" poderia até ter sido gravado por bandas pop da época, como The Monkees ou The Left Banke. Nela, Lou Reed afirma que o domingo de manhã era o momento de redenção depois dos excessos cometidos durante toda a semana. Mas a canção também tem um lado paranoico. “Preste atenção no mundo atrás de você/Tem sempre alguém do seu lado”, ele canta.


I'm Waiting for the Man

O “cara” do título é um traficante. Lou Reed fala que tem U$ 26 na mão para fazer a compra e levar um pouco de heroína para casa. “Lá vem ele/Com sapatos gastos e chapéu de palha/ Nunca chega na hora/ Está sempre atrasado”, ele descreve. Mesmo com um tema tão polêmico, "I'm Waiting for the Man” se tornou popular e hoje é presença constante na programação de rádios de classic rock. O Yardbirds tocou a música em suas última apresentações. David Bowie também a executava em seus shows.


Femme Fatale

Nico entra em cena de forma memorável em "Femme Fatale", canção com sonoridade mais tranquila e com uma batida "pseudo bossa nova". A faixa fala sobre Edie Sedgwick, modelo, socialite e atriz que era um das musas de Andy Warhol. Ela morreu em 1971, aos 28 anos, depois de uma overdose de barbitúricos. O mais irônico e curioso aqui é que Nico parece cantar sobre si mesma, já que no futuro ela também se tornaria outra musa trágica a fazer parte da turma de Warhol.


Venus in Furs

Lou Reed escreveu a faixa definitiva sobre bondage, dominação e sadomasoquismo baseando-se no livro A Vênus das Peles, de Leopold von Sacher-Masoch, o escritor e jornalista austríaco que ficou mais conhecido como Marquês de Sade. O homem que inspirou os termos sadismo e masoquismo ficaria orgulhoso desta faixa com sonoridade oriental e hipnótica. Ao cantar “Beije as botas brilhante de couro/Sinta o gosto do chicote/Agora sangre para mim”, Reed não deixava dúvidas sobre o que rolava no ambiente barra-pesada de Nova York.


Run Run Run

Com imagens religiosas espalhadas por toda a letra, "Run Run Run" mostra a saga de tipos pitorescos do submundo de Nova York como Teenage Mary, Margarita Passion e Seasick Sarah na correria atrás de drogas. É um rock de garagem com um ritmo insistente e também uma das faixas mais acessíveis e grudentas do disco.


All Tomorrow's Parties

O quartel-general e estúdio de Andy Warhol era o Factory. Lá conviviam democraticamente artistas, músicos, famosos, anônimos, bicões, malucos e todas as figuras exóticas de Nova York. Naquele ambiente, a festa parecia nunca ter fim. Lou Reed não fez parte da elite cultural chic da cidade, então olhava a turma de Warhol com distanciamento e isenção. “Eu ficava lá e ouvia as pessoas falarem e fazerem as coisas mais loucas, mais estranhas e mais tristes, também”, disse o compositor. "All Tomorrow's Parties" é sobre a Factory e a atmosfera que lá reinava. Nico canta de forma épica, entoando a letra de Reed com autoridade e melancolia.


Heroin

Em Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), John Lennon cantava sobre o LSD em “Lucy In The Sky With Diamonds”. O Beatle, entretanto, sempre negou que a faixa fosse sobre drogas. Lou Reed não precisou de eufemismos ou desculpas em “Heroin” – a gravação é bem explicita. O andamento tenta simular o efeito da droga no organismo humano. As guitarras emulam guinchos desesperados. “A heroína é minha esposa/É minha vida”, ele canta. Mas Reed não condena ou exalta a substância: é o relato honesto de uma sensação particular e nada mais. A heroína se tornou sombra sinistra no núcleo do Velvet Undergound: Reed e Nico foram viciados na droga por muito tempo.


There She Goes Again

Apesar de o som do Velvet Underground ser uma mistura vanguardista de rock de garagem com música atonal, o primeiro LP também revela o interesse de Lou Reed e do resto da banda pelo R&B. "There She Goes Again" tem a introdução e a melodia decalcadas em “Hitch Hike”, de Marvin Gaye. A canção do soulman da Motown também foi gravada pelos Rolling Stones em seu disco de estreia homônimo em 1964, e este foi o registro que inspirou o Velvet a criar a faixa. Vinda depois do desespero eloquente de "Heroin", "There She Goes Again" pode até ser considerado um passeio pelo parque. Os temas aqui são prostituição e sexo oral.


I'll Be Your Mirror

Quando Andy Warhol colocou Nico no Velvet Undergound, em 1965, os outros integrantes protestaram: afinal, ela era uma pessoa estranha que aparecia do nada para fazer parte do grupo. Com o tempo, ela se integrou. Os conflitos ainda existiam, mas o resto da banda sabia que ela não era "poser". Nico era verdadeira como pessoa e em suas ambições artísticas. Lou Reed admirava a artista e escreveu especialmente para ela "I'll Be Your Mirror". É uma canção folk delicada e destoa um pouco do temas pesados do resto do álbum.


The Black Angel's Death Song

Esta canção escrita por Lou Reed e John Cale revela o lado experimental da banda. A viola elétrica de Cale cria um som agudo e penetrante. Reed e Sterling Morrison mantêm a base dissonante. O cantor falou que a canção "não tinha nenhum significado especial". Mas as imagens da letras são sinistras e descrevem morte, dissipação e escolhas pessoais. 


European Son

O álbum encerra com esta faixa basicamente instrumental: a não ser por um verso cantado por Reed no começo, o resto dos sete minutos da canção é constituída por feedback e dissonância criadas pelas guitarras de Reed e Morrison, já antecipando um poucos os experimentos que a banda iria fazer no segundo álbum, White Light/White Heat (1968). "European Son" é dedicada a Delmore Schwartz, escritor, poeta e mentor de Reed, que havia morrido em 1966, enquanto eles gravavam o trabalho.


* Texto publicado originalmente em 12/03/2017