Virada Cultural 2014: sensação de insegurança, chuva e cancelamentos encerram décima edição do evento com gosto amargo

Ainda há falhas em questões primordiais, como segurança, para fazer com que o público curta a proposta completa: virar a noite perambulando pelo centro da cidade

Pedro Antunes Publicado em 18/05/2014, às 19h33 - Atualizado às 20h09

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Fabricio Vianna

O relógio no alto da torre da estação Júlio Prestes anunciava 17h55. Logo abaixo, todo o palco montado para ser o principal e maior da Virada Cultural 2014 estava vazio. Funcionários desmontavam as estruturas enquanto um grupo de policiais militares confirmava o que a assessoria de imprensa do evento havia noticiado: todos os shows que começariam após as 17h deste domingo, 18, seriam cancelados. Entre eles, o de Martha Reeves & The Vandellas, que se apresentariam em cinco minutos, não fosse a chuva que despencou no centro da cidade duas horas antes.

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Por todo o centro, a cena dos palcos sendo desmontados antes da hora se repetiria. No Arouche, após o show catártico (sim, acredite) de Valesca Popozuda e as três execuções de “Beijinho no Ombro”, debaixo de granizo, a organização anunciou que Roberta Miranda não se apresentaria mais por lá, gerando vaias daqueles que ainda sobraram após a chuva passar.

Já tradicionalmente, o domingo da Virada é sempre mais tranquilo, embora revele as cicatrizes deixadas pela madrugada intensa no centro da cidade. Jovens esparramados pelas ruas lutam para dormir em meio aos passos dos outros pedestres, enquanto vendedores ilegais de cerveja diminuem o preço das bebidas para esgotarem o estoque. O sol deixa o clima mais familiar e menos ameaçador no centro da cidade, como testemunhado pela reportagem da Rolling Stone Brasil diante do palco Libero Badaró durante o show de Tulipa Ruiz, pela manhã, com famílias e crianças dançando ao som das músicas da cantora.

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Ainda assim, os números da madrugada foram alarmantes. De acordo com o jornal Estado de S. Paulo, 59 pessoas foram atendidas na Santa Casa da Misericórdia, sendo que cinco haviam sido baleadas e duas esfaqueadas. Cinco estavam em estado grave. Além disso, a madrugada, principalmente próximo à Rua 25 de Março, foi marcada por furtos e arrastões.

A iniciativa Chefs na Rua, desta vez, pareceu funcionar bem, pelo menos às 12h, ao fazer com que as barracas de comida ocupassem apenas uma das quatro faixas do Minhocão. Os preços, ainda que menores do que aqueles cobrados nos respectivos restaurantes, ainda eram altos, já que as porções normalmente eram pequenas. Um sanduíche de costelinha saía por R$ 15, o mesmo valor do risoto de salmão. A venda de cerveja artesanal, responsável por levar muita gente ao local, foi outra boa sacada: era possível encontrar um copo com bebida de qualidade por R$ 5 – mais vantajoso do que os R$ 6 pelo latão vendido nas ruas. O curioso ali é que o movimento dos esportistas, sejam eles de fim de semana ou não, continuou mesmo com a Virada. Famílias inteiras (pai, mãe, filho e até cachorro) passeavam por lá, entre viradeiros saciando a fome e ciclistas e corredores.

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Musicalmente, nem só de Valesca Popozuda viveu o domingo da Virada Cultural. Grandes shows incendiaram a tarde morna que veio após a madrugada fria. O grande destaque deve ficar com o palco Rio Branco, que trouxe um conceito semelhante àquele exibido no Theatro Municipal, com a execução de discos inteiros ao vivo, com uma diferença: no palco montado na rua, outros artistas dão vida aos álbuns clássicos. Saborosas apresentações como a de Otto interpretando Martinho da Vila, no sábado, e Romulo Fróes recriando Transa, de Caetano Veloso, no domingo, foram memoráveis.

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O mesmo pode ser dito da performance das Mercenárias, grupo ícone do rock paulistano. Unindo guitarra pesada, um baixo suingado e letras contundentes, o grupo reuniu um público considerável diante do palco São João – o único problema ali era o tamanho da área para convidados e imprensa, bastante vazia durante o show delas, deixando o público muito distante.

Depois das intensas 24 horas, de um temporal e, pior, de ouvir uma versão funckeira de “Ilariê”, cantada por Valesca, sair da frente do palco Júlio Prestes sem o encerramento deixou a décima edição da Virada Cultural um tanto melancólica. A Avenida Duque de Caxias voltava a dar espaço para os carros, que respingavam água sobre os poucos que ainda transitavam por ali. Se a escolha por Martha Reeves & The Vandellas como o grande e último show do evento já foi discutível, apesar da grande história da cantora, chegar ao fim sem ouvir “Dancing in the Street”, por exemplo, é ainda mais amargo.

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O roteiro da Rolling Stone Brasil na primeira metade do evento incluiu shows em diversos pontos, cinema e parada para comer. Saiba como foi.