Vocalista do Gorillaz fala da fama dos integrantes virtuais, fazer 50 anos e ainda ficar chapado

Em entrevista, Damon Albarn comenta o mais recente disco da banda, The Now Now

Simon Vozick-Levinson Publicado em 02/10/2018, às 12h41

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Ano passado, o vocalista do Gorillaz, Damon Albarn, estava entediado em turnê, então, ele fez o que mais sabe fazer e começou a esboçar ideias para um disco novo em seu iPad. "Se você está longe de casa por meses, parece criminoso não tentar transformar esse tempo livre em algo tangível", diz o cantor e compositor inglês de 50 anos, que lançou quase que um disco por ano nos últimos 25 anos com Blur, Gorillaz e diversas outras bandas. O resultado é The Now Now, o excelente novo álbum do Gorillaz. Com melodias alegres e poucas participações, como Snoop Dogg, George Benson — guitarrista de "smooth-jazz" de 75 anos — e o veterano de Chicago, Jamie Principle, The Now Now apresenta uma mudança refrescante de ritmo em comparação com Humanz, álbum do Gorillaz lançado no ano passado. "É um disco dentro de um disco, um sonho dentro de um sonho", diz Albarn.

O resto de 2018 está se moldando para ser um momento agitado para Albarn. Em outubro, ele está trazendo sua banda feita de desenho animado para os EUA para uma série de shows, inclusive seu primeiro festival, o Demon Dayz L.A. no dia 20 de outubro. “Os fãs do Gorillaz se sentem como uma grande família por lá”, ele conta sobre se apresentar em solo norte-americano. “Eu sempre tenho essa recepção incrivelmente calorosa dos fãs. Então, eu imagino que será como uma reunião de família.” Ele também está se preparando para lançar um álbum de The Good, Bad & the Queen, em colaboração com Tony Allen, baixista do Clash, Paul Simonon, e o tecladista Verve Simon Tong (seu primeiro lançamento desde a sua subestimada estreia em 2007). "Isso está pronto", revela. "É um registro muito do momento. Um espelho estranho e distorcido do Reino Unido de agora."

Albarn conversou com a Rolling Stone EUA durante uma parada da turnê do Gorillaz em Amsterdã para falar sobre a fama dos integrantes virtuais, como foi fazer 50 anos e por que ele ainda fica chapado.

Rolling Stone EUA: Você e o cartunista Jamie Hewlett tiveram a ideia para o Gorillaz há 20 anos. Você se surpreende que algo que começou meio que como uma piada se tornou um fenômeno tão duradouro?

Albarn: Surpreende sempre. Tenho ondas enormes de desânimo, onde sinto que não posso mais fazer isso. Eu fico muito frustrado. Mas incrivelmente se regenera a cada geração. Nós acabamos de tocar nesse festival chamado Boomtown, na Inglaterra. Era uma multidão muito jovem, de 18 a 23 anos — eles são os únicos que são resilientes o suficiente para se atirarem com entusiasmo no abismo. Não consigo entender como a banda continua encontrando uma audiência, mas é evidente que sim, e esta é uma proposta empolgante.

Com tão poucos convidados, o The Now Now parece muito diferente da maioria dos discos do Gorillaz. Por que não apenas chamá-lo de álbum do Damon Albarn?

Bom, porque não é. É [um vocalista em quadrinhos] em 2-D e que,na verdade, tem uma voz um pouco diferente do Damon Albarn. [Suspiros] Me recuso a me referir a mim mesmo na terceira pessoa.

George Benson é um convidado inesperado para um álbum pop em 2018. Você é um grande fã dele?

O som que ele criou, como "Give Me The Night", dos anos 1980, é comparável com todos os clássicos grooves de Michael Jackson. Está intimamente associado, para mim, com o tempo em que comecei a tentar pedir para dançar com as garotas em baladas. Todo aquele constrangimento envolvido. Eu tinha uns 14 anos e ele era um superstar. Mas a música é ainda mais magnífica porque foi o pano de fundo para isso, sabe?

Existem heróis musicais que você se arrepende de nunca ter se conectado?

Eu adoraria ter trabalhado com John Lennon, mas estava na escola quando ele foi morto. Ele foi uma influência fundamental para mim quando eu era jovem — suas ideias, sua atitude, tudo. Comecei a explorar minhas próprias composições tocando músicas de outras pessoas no piano, e "Imagine" foi uma das músicas mais influentes para mim como compositor. Não é a música mais legal de citar, mas é a mais honesta para mim.

No Humanz, você fez questão de cortar todas as referências a Donald Trump. E quanto a este álbum, você vê uma dimensão política?

Quer dizer, começa com as palavras "chamando o mundo do isolamento". Isso se deve em parte à sensação que você tem quando está constantemente na estrada, mas também é um dos problemas mais desafiadores do nosso tempo. Mudança climática, por exemplo, o isolacionismo não ajuda essa causa.

Você foi criado em uma tradição "Quacker". Isso ainda é parte de como você vê o mundo?

Eu tive essa influência por meio dos meus avós. No fundo, é uma parte muito forte de quem eu sou - essa sensação de tolerância. Eu acho que é a melhor coisa que você pode fazer, como músico, é comunicar o que você acredita ser a esperança.

Você fez 50 anos recentemente. Parabéns! Como celebrou?

Meu aniversário começou quando sai no aeroporto de Bogotá, na Colômbia. Foi principalmente uma experiência noturna em alta altitude. E, depois, eu tive uma comemoração modesta, em família, quando cheguei em casa.

Como se compara com a festa de aniversário de 50 anos com tema de cocaína do seu amigo Noel Gallagher no ano passado?

Ah, a minha foi patética comparada com a dele! A dele era espetacular. Sem comparação.

Você e Noel eram arquirrivais na cena musical do Reino Unido nos anos 1990, quando você liderava o Blur e ele, o Oasis. Como essa amizade funciona hoje?

Ele é como um camarada. É sobre esse momento específico no tempo em que nós dois tivemos mudanças súbitas, e tudo o que você sonhava de repente se torna uma realidade. Eu tinha 22 anos e não conseguia andar pela rua sem que todos me reconhecessem. Foi um momento emocionante, mas aterrorizante, e passamos por isso juntos.

Você se reuniu com o Blur para o disco The Magic Whip, de 2015. Isso foi um caso único, ou você imagina fazer outro álbum com a banda?

Eu não sei! Talvez. Eu nunca vou fechar a porta deste lado da minha vida.

Você falou sobre seu uso de drogas no passado e seus benefícios criativos. Você ainda fuma maconha?

Sim Sim. Se eu estou no estúdio, é quando eu realmente gosto de fumar maconha. Não tanto pelo desempenho, quer dizer, gosto muito do desempenho criativo, mas para algo como o Gorillaz, é melhor estar um pouco mais consciente.

"Microdosing" - quando as pessoas tomam pequenas quantidades de drogas psicodélicas durante a jornada de trabalho - está crescendo em popularidade. Essa ideia atrai você?

O que, como ácido e cogumelos? Trabalhar? [Risos] Não! Se eu fizer isso, não há como, na Terra, eu ser capaz de trabalhar em um escritório.