A Voz de Deus

Sem chuva, Chris Cornell realiza show solo impecável endereçado a velhos grunges

Pablo Miyazawa Publicado em 13/11/2011, às 22h00 - Atualizado às 22h43

Chris Cornell no SWU

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O Soundgarden jamais tocou no Brasil, mas o público do festival SWU teve um gostinho do que seria um show da clássica banda de Seattle, através do set acústico exibido por Chris Cornell no início da noite desse domingo, 13. Dono de uma das vozes mais poderosas do rock moderno, o vocalista de 47 anos trouxe apenas um violão e um punhado de hits no bolso para sua rápida passagem pelo Brasil.

Mesmo com uma carreira solo tão celebrada quanto conturbada - foram três discos solo de 1999 a 2009, além de uma passagem barulhenta pelo Audioslave, que formou com três integrantes do Rage Against the Machine -, Cornell ainda é celebrado como um dos ícones mais constantes do tal movimento “grunge” surgido na chuvosa Seattle em meados da década de 90. A música do Soundgarden, porém, pouco se assemelhava a do Nirvana, principal grupo a despontar por aqueles lados – esteticamente falando, remetia mais ao Pearl Jam e ao Alice in Chains, para citar outros nomes da mesma safra. Na sonoridade, porém, o Soundgarden estava mais para um filhote elegante de Black Sabbath, porém mais veloz e trajando xadrez: pesado, grave (afinações alternativas eram frequentes nas guitarras), melódico e épico, temperado pelos arroubos vocais virtuosos do talentoso Cornell.

Subindo ao palco Consciência com 70 minutos de atraso em relação ao horário marcado, Cornell destilou um repertório que não deixou de lado sucessos do Soundgarden, muito menos do Audioslave, além de ressuscitar faixas do projeto Temple of the Dog (que misturou integrantes do Soundgarden com o Pearl Jam e rendeu um único álbum, em 1991). Dos discos solo de Cornell, as únicas faixas tocadas foram “Can’t Change Me”, do cult Euphoria Morning (1999), e “Billie Jean”, cover de Michael Jackson e destaque de Carry On (2007). Ao vivo, todas as faixas soaram perfeitas somente com voz e violão muito provavelmente porque assim foram escritas por Cornell: compositor prolífico e guitarrista habilidoso, ele conseguiria facilmente manter um show de pelo menos mais uma hora de duração, dada a enorme quantidade de boas canções que escreveu para os projetos dos quais já fez parte.

“Sempre chove quando eu toco ao vivo. Sempre!”, ele exclamou ao subir no palco com “Doesn´t Remind Me”, do Audioslave, seguida por “Wide Awake”. A voz de Cornell soava cristalina e impecável - a cada agudo mais longo, a plateia aplaudia com reverência. Problemas técnicos, entretanto, atrapalharam o que poderia ser uma performance perfeita. Durante “Can´t Change Me”, o som do microfone estourou nos falantes, quebrando o clima intimista. O problema se estendeu por mais algumas faixas, até ser corrigido durante a execução de “Be Yourself”.

Do Temple of the Dog, foram lembradas “Hunger Strike” - que ganhou alta rotatividade na MTV em 1992 - e “Wooden Jesus”. Fãs do extinto Audioslave comemoraram também as performances de “Like a Stone” e “Be Yourself”. Antes de tocar “Fell on Black Days”, o vocalista deu a entender que o Soundgarden deverá tocar completo no Brasil em 2012. Da mesma banda, executou “Black Hole Sun” (de Superunknown, de 1994) e “Blow Up the Outside World” (de Down on the Upside, de 1996). À vontade, ele aparentemente escolhia as músicas na hora (não por coincidência, o repertório foi bastante diferente do divulgado antes do show). Apesar do esvaziamento sonoro proporcionado pelo violão solitário, o timbre poderoso e inconfundível de Cornell compensava os espaços vazios e emocionou grunges sedentos por mais. Funcionou tão bem que, no fim das contas, ninguém mais se lembrou de reclamar da ausência do Soundgarden.

Set list:

“Doesn't Remind Me”

“Wide Awake”

“Can't Change Me”

“Fell On Black Days”

“Be Yourself ”

“Wooden Jesus”

“Like A Stone”

“Black Hole Sun”

“Billie Jean”

“Endless Eyes” (tocada por Alain Johannes)

“Hunger Strike”

“Blow Up the Outside World”