São Paulo Trip: The Who estreia no Brasil dando o sangue e fazendo uma seleção de faixas inspirada

Veteranos músicos demonstraram musicalidade plena em performance que valeu cada minuto

Paulo Cavalcanti Publicado em 22/09/2017, às 03h20 - Atualizado às 04h17

The Who no São Paulo Trip

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O São Paulo Trip, realizado no Allianz Parque, em São Paulo, começou nesta quinta, 21, e vai até a próxima terça, 26, trazendo para a capital paulista shows da porção mais roqueira do Rock in Rio: Bon Jovi, Aerosmith e Guns N' Roses estão entre as atrações. Nesta quinta, 21, quem deu início ao festival foi o Alter Bridge, banda norte-americana que junta grunge e hard rock e que tem nos vocais Myles Kennedy, o vocalista da banda solo de Slash. Foi um show interessante, presenciado por um público apenas razoável, já que ainda faltavam algumas horas para a performance do nome mais esperado da noite: The Who, em seu primeiro show no Brasil.

A banda inglesa The Cult, que já veio algumas vezes ao Brasil, sempre com bastante sucesso, costuma subir ao palco em locais menores, mas funciona bem em grandes arenas também, conforme ficou provado esta noite no Allianz. Os roqueiros veteranos, liderados pelos fundadores, o cantor Ian Astbury e o guitarrista Billy Duffy, fizeram um show coeso e compacto, com mais de 30 anos de hits. São canções que juntam hard rock, metal e rock gótico, sempre com uma assinatura sonora própria.

A apresentação do The Cult começou às 19h55. A performance faz parte da turnê do disco mais recente do grupo, o bom Hidden City (2016), mas o The Cult soube valorizar um passado de glórias. Assim, não faltaram "Wildflower", "Dark Energy", "Sweet Soul Sister", "Fire Woman", "She Sells Sanctuary" e "Love Removal Machine". O frontman, Astbury, estava de bom humor e bem animado, agitando o público, que a essa altura já era mais numeroso, e pedindo que todos entrassem no clima. Trajando preto, ele jogava pandeiros para a plateia. No final, o cantor ainda fez questão de louvar o The Who, que entraria em cena dali meia hora.

Precisamente às 21h30, chegou o momento mais esperado da noite de abertura do São Paulo Trip, com o The Who realizando sua primeira aparição em palcos brasileiros, antes mesmo até do show no Rock in Rio, que acontecerá no próximo sábado, 23. O guitarrista Pete Townshend (72 anos) e o cantor Roger Daltrey (73 anos), os dois únicos membros da formação original do The Who, estão em turnê de despedida. Townshend, inclusive, anuncinou na tarde desta quinta, 21, que pretende se afastar dos palcos em 2018. Então, foi uma oportunidade única para o público paulistano.

Em seu período clássico, de 1964 até 1978, quando morreu o baterista Keith Moon, o The Who não usava músicos convidados. No palco, eram apenas Townshend, Daltrey, Moon e o baixista John Entwistle, que morreu em 2002. Hoje, a banda é uma autêntica e potente mini orquestra, com os dois titulares sendo acompanhados por Simon Townshend, (irmão de Pete, na guitarra e bandolim), Jon Button (baixo), Zak Starkey (filho de Ringo Starr, na bateria), Loren Gold (teclados), John Corey (teclados) e Frank Simes (direção musical, teclados e instrumentos diversos).

A banda entrou com a energética “Can't Explain”, canção de 1965 e o primeiro hit que teve na Inglaterra. Na sequência, veio “The Seeker”, um single “perdido”, lançado no ano de 1970. Os fãs vibraram com “Who Are You”, já que a canção que batizou o LP lançado em 1978 é uma das faixas mais conhecidas por aqui. Depois, a banda retornou célere aos anos 1960, com a balançada “The Kids Are Alright”, hino mod por excelência e que ganhou notoriedade quando batizou o excelente documentário sobre a banda feito em 1979.

"Olá, São Paulo, estamos contentes em finalmente estar aqui", disse Peter Townshend. Ele e Daltrey falaram pouco com o público, mas a emoção deles de estar aqui era visível. Depois deste interlúdio, veio a poderosa e psicodélica “I Can See For Miles”, de 1967, que nunca foi executada ao vivo na época dela, já que necessitava de uma guitarra extra para soar potente e real. Ela só começou a ser apresentada ao vivo no fim da década de 1980, quando o The Who já usava músicos extras para dar um reforço no som. A versão ao vivo não tem a sutileza da clássica gravação em estúdio, e Daltrey não agora canta de um jeito mais grave e soturno. A versão que a banda fez em São Paulo teve todos esses elementos e funcionou a contento.

Na década de 1960, o grande hino “My Generation” encerrava as apresentações da banda em um final climático e apocalíptico, com Peter Towhshend destroçando a guitarra em meio ao um clima de abandono e total caos. Na letra da faixa gravada em 1965, ele falava que “preferia morrer a envelhecer”. Townshend, claro, não pensa mais assim. “My Generation” agora aparece no começo do show, para lembrar que a fúria pré-punk que a canção personificava décadas atrás hoje é mais nostalgia do que ação. No meio dela, eles intercalaram "Cry if You Want", faixa de It's Hard (1982).

Who's Next (1971) é uma autêntica obra-prima. Deste álbum, o The Who veio com versões de respeito para "Bargain" e "Behind Blue Eyes". Canção que sempre funciona ao vivo, "Join Together", um single 1972, teve o refrão cantado com vontade. A banda saltou no tempo novamente, agora executando "You Better You Bet", single de qualidade do apenas razoável álbum Face Dances (1981). Quadrophenia, a célebre ópera-rock de 1973, foi relembrada através de "I'm One" (com vocal de Townshend), o instrumental "The Rock" e "Love, Reign O'er Me". Enquanto os músicos executavam "The Rock", o telão exibia imagens de momentos históricos, como a Guerra do Vietnã e a queda do Muro de Berlim. O momento também serviu para homenagear os falecidos Keith Moon e John Entwistle. O segmento Quadrophenia encerrou com catártica "Love, Reign O'er Me", com Daltrey cantando de forma majestosa.

Pete Townshend entoou "Eminence Front", boa faixa de It's Hard (1982), o derradeiro álbum de estúdio do The Who (até o retorno, com Endless Wire, de 2006). Era evidente o entusiasmo do guitarrista. Logo depois de ela ser concluída, o estádio vibrou quando ressoaram os primeiros acordes de "Amazing Journey", já entregando que chegava um dos momentos mais aguardados da noite: a seleção de faixas da ópera-rock Tommy (1969). O instrumental "Sparks", o mega hit "Pinball Wizard" e o hino "See me, Feel Me" fizeram com que o espírito de Tommy, o garoto cego, surdo e mudo que vira líder espiritual, finalmente desse o ar da graça no Brasil.

Passado esse momento, chegava a hora da apresentação entrar na reta final com a execução de duas faixas de Who's Next que definem a essência do The Who: "Baba O'Riley" e "Won't Get Fooled Again", hinos sobre decepção e distopia. O público não perdeu a deixa e reagiu da forma esperada, cerrando os punhos e berrando os refrãos como se fossem hinos de batalha. Mas este ainda não era o fim. O The Who não costuma dar bis, mas era uma ocasião especial, a estreia no Brasil. Os músicos retornaram para executar "5:15", de Quadrophenia, e a emblemática "Substitute", um dos grandes sucessos da primeira fase da carreira da banda.

Às 23h30, Townshend, Daltrey e seus músicos de apoio finalmente se despediram. "Vão para casa!", gritou Peter Townshend, divertindo-se e em evidente estado de graça. O The Who deu sangue e a seleção de faixas foi impecável, com o show fluindo de maneira notável. O importante é que também demonstraram musicalidade plena e tudo foi feito com integridade, como sempre. Daltrey ainda tem enorme poderio vocal, girou o fio do microfone com um laço e demonstrou enorme presença de palco. E Townshend, cada vez mais benigno, não deixou por menos, executando seus costumeiros power chords, girando o braço como se fosse um moinho. Valeu cada minuto que os fãs tiveram perto desses mitos da era de ouro do rock inglês. O Rock in Rio que os aguarde.