Tássia Reis retoma shows e sonhos com Próspera D+: 'Precisamos de energia, dançar, viver de novo' [ENTREVISTA]

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Tássia Reis revelou como reinventou e ressignificou o disco Próspera (2019) para reconquistar a esperança em tempos de pandemia

Julia Harumi Morita Publicado em 23/10/2021, às 10h00

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Tássia Reis (Foto: Lucas Silvestre)

Tássia Reis encontrou na música o impulso que precisava para atravessar a pandemia de covid-19 e reconquistar a esperança, sentimento que sempre carregou naturalmente, mas perdeu de vista quando os planos da Próspera Tour foram interrompidos.

Sem a possibilidade de shows, os fãs pediram uma continuação do disco Próspera (2019) e ganharam Próspera D+ (2021), um disco completo com novas versões, remixes e inéditas, o qual foi lançado nas plataformas digitais no dia 14 de outubro. 

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O álbum original perdeu oito faixas e ganhou três: "Me Beije," "Dia Bom" e "Bêbada de Feriado." Tássia ainda se aventurou por novos ritmos musicais e trouxe sons mais dançantes. "Preta D+" virou um "trap meio rock and' roll"; "Dollar Euro" foi para o afrobeats; "Shonda (RMX)" se aproximou do drill e eletrônico; "Próspera" se transformou em um house.

O time de colaboradores também aumentou e agora conta com Tulipa Ruiz, Urias, Monna Brutal, Preta Ary, EVEHIVE, Jules Hiero, Theo Zagrae, Th4i, Eduardo Brechó, Jhow Produz, Nelson D e Melvin Santhana.

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Uma semana após o lançamento de Próspera D+, Tássia conversou com Rolling Stone Brasil e, apesar das falhas persistentes de sinal, contou detalhadamente como reinventou e ressignificou o disco de 2019 para reconquistar a esperança em tempos de pandemia. Confira trechos editados da conversa:

Antes dos seus fãs pedirem uma continuação de Próspera, você pensou alguma vez em retomar esse disco?

A priori, não queria ter interrompido o ciclo que estava rolando - ninguém queria, na verdade. Tinha entrado muito em uma pira de que a galera queria coisa nova. Tinha me conformado com essa ideia, mas ano passado a EVEHIVE me pediu para fazer um remix de 'Dollar Euro,' o qual acabou no disco.

Pirei na produção e isso também abriu um pouco meu olhar para obras revisitadas, esse tipo de coisa. Mas a motivação principal foi a galera. Poxa vida, em um momento tão difícil, [o público] podia estar exigindo coisas novas, como muitas vezes exigem, mas estava pedindo para continuar a era e ver outras faixas para poder assistir o show quando retornasse.

Isso me deixou muito feliz, principalmente porque, a gente vive em uma sociedade tão imediatista. Falei: 'Quer saber? Vou juntar o útil ao agradável. Vou expandir esse universo. Assim, não encerro, só aumento e consigo trabalhar algumas faixas de uma nova forma, e trazer inéditas. Brinquei e falei agora pouco que remixei o conceito do disco.

Como foi esse processo de olhar novamente para Próspera e tirar música, trocar a ordem, colocar inéditas?

Foi muito legal, na verdade. Foi um processo gostoso de fazer, porque ouvi Próspera de novo e também escrevi um pouco sobre ele, algumas faixas, assuntos, temáticas, coisas que faziam sentido.

Aí percebi e entendi: 'O que a gente precisa agora?' Para além do conceito do Próspera, que era a busca do nosso melhor 'eu' em todos os âmbitos, falei: 'Bom, acho que é energia, né? A gente precisa de energia, dançar, viver de novo. Então, quis colocar essa energia no disco para poder sentir alegria de viver novamente, voltar a sonhar e poder enxergar um horizonte novo.

A gente ficou sem perspectiva e, para mim, ficar sem perspectiva é algo muito triste. Sou uma pessoa bem positiva, com muita fé no futuro. Mas foi muito difícil ter isso na pandemia, então quis trazer força para iniciar esse possível retorno.

Como surgiram as novas parcerias do disco? Você convidou artistas com os quais já queria trabalhar ou escolheu os colaboradores durante o processo?

Eu participo muito dos projetos das pessoas, mas nas minhas obras, seleciono bastante as pessoas que vão participar. Sempre convido artistas com os quais quero muito trabalhar e tem a ver com o som, sabe?

Começando por 'Shonda D+.' A Preta Ary já estava na outra versão e os versos dela são tão potentes. A produção da EVEHIVE, uma das produtoras, me fez pensar: 'Não, vou manter esse verso. Agora, precisa de outra gata aqui. E tem que vir nervosa.' Aí veio a Urias na cabeça.

A Urias tinha falado [de mim] recentemente em dois veículos de comunicação. Quando perguntavam com quem gostaria de coloaborar no Brasil, ela falava meu nome. Fiquei muito feliz, porque o Brasil tem tantos artistas e ela queria colaborar comigo. Juntou essa vontade de uma querer colaborar com a outra. Na hora, ela arrasou nos versos.

Em uma das faixas inéditas, 'Dia Bom,' convidei a Tulipa, porque o som é a cara dela. Queria ver ela nessa sonoridade. Nos tornamos amigas antes de fazermos música juntas, [mas] foi uma surpresa perceber o quanto temos em comum, inclusive nossas vozes vibram muito juntas, fica até meio confuso no refrão. 'Quem está cantando? [risos].' Além disso, nossos nomes têm iniciais iguais, TR [...]

Você explora diversos estilos em Próspera D+, do vogue beat ao house. Quais artistas e sons influenciaram esse processo?

O Djavan é um artista que sempre me inspira. Sou muito, muito fã. Na sonoridade, a gente foi um pouco atrás do house e pop music. Então, eu visualizo Michael Jackson [...] Vanjess, gosto muito dessa dupla. Eu amo a Ciara, é uma deusa. Fiquei bem mais pop na sonoridade.

Qual foi a maior mudança artística entre Próspera e Próspera D+?

A pandemia é o que divide um do outro. Próspera sugeria um mergulho e autoconhecimento. Com o isolamento, tive que fazer esse mergulho sem querer e muitas vezes na solitude e na solidão também. A diferença é a maturidade que existe nesse momento.

Sempre fui meio workaholic, quem me conhece sabe [risos]. Na pandemia, tive que aprender a descansar. "Dia Bom" é sobre eu aprender a descansar, algo parte do processo. Aprendi, talvez, a ser mais generosa comigo. Algo que estava clamando no disco de 2019 e, talvez, tenha começado a encontrar agora.

Além da música, você tem uma conexão com a moda e audiovisual, né? Você até participou do filme Um Dia com Jerusa (2020), lançado no dia 26 de julho na Netflix. Com a pausa nos shows, você sentiu que se aproximou mais dessas outras áreas?

Sempre fui muito conectada com diferentes tipos de arte. Tudo é arte, claro, existem linguagens diferentes, mas, para mim, [tudo] sempre caminhou junto.

O filme Um Dia com Jerusa saiu durante a pandemia, mas foi filmado antes. E eu vim da dança, antes de escrever e de cantar. Fiz tecnológo em design de moda com 20 anos de idade e isso mudou muito minha percepção de mundo - quando tive contato com museus e história da arte, minha mente expandiu muito.

São coisas que me influenciam desde sempre. Durante a pandemia, cresceu a vontade de estar mais perto dessas outras linguagens, como o filme, por exemplo. O próprio clipe de "Dollar Euro" foi um marco. Lancei antes da pandemia e cresceu muito durante essa época. [Ele] também mostra um pouco de atuação, coisa que já tinha interesse.

Você disse que no começo da pandemia levou um baque por causa do cancelamento da Próspera Tour. E hoje, como você se sente em relação à pandemia e ao retorno das atividades presenciais?

A pandemia foi um baque emocional, porque cresci em números, ouvintes e tudo mais. Percebi que as pessoas estavam precisando ouvir palavras de afeto, o que, talvez, resuma a maior parte das minhas músicas.

No primeiro momento, nem estava pensando em trabalhar. Mas no segundo semestre de 2020, acabei engatando e comecei a trabalhar. Então, em 2021, nos momentos que tinha disponíveis, trabalhei bastante, incluindo o disco e a preparação do lançamento dele.

O mais louco agora é estar com esperança, porque fiquei muito tempo sem esperança. 'Será que vamos voltar? Quando a gente vai voltar? Quantos anos vamos ficar nessa? E a vacina?'

O disco me ajudou a jogar a poeira para cima e retornar aos palcos. Vou fazer meu primeiro show com a minha banda no Sesc Belenzinho neste fim de semana, então estou radiante. Parece que nunca tive um show na minha vida. Quero fazer o melhor show da minha vida - os melhores, no sábado e domingo.

Estou muito animada com esse retorno, mas também muito cautelosa. Escolhemos o Sesc porque sabemos que ele pratica os protocolos de segurança e são bem rígidos com a questão de distanciamento, da máscara, do passaporte da vacina.

Mas não vou negar, estou muito feliz, porque eu não aguentava mais não fazer show.

Eu vi que você estava pronta para começar a trabalhar em um novo disco quando decidiu trabalhar em Próspera. Agora que Próspera D+ saiu, você planeja trabalhar em um novo material?

Enquanto compositora, a gente termina um [disco] e está sempre pensando no próximo [risos]. Isso é um fato. Mas, agora, nesse fim de ano especialmente, ainda tenho um monte de feats para lançar. Então vou focar no desenvolvimento do disco, nos feats e outras coisas legais que vão sair até o final do ano.

Vou sentir um pouco [o clima], mas pode ser que tenha disco o ano que vem de novo [risos]. Estou animada. O gás está tão grande que estou pensando em fazer um disco para o ano que vem, mas acho que está cedo ainda. Agora é o momento de Próspera D+.