A noite do Rei

Roberto Carlos grava especial de fim de ano com Rita Lee (primeira vez dos dois juntos), Zezé di Camargo e Luciano e Neguinho da Beija Flor

Por Cristiane Lisbôa Publicado em 15/12/2008, às 14h37 - Atualizado em 20/02/2013, às 16h14

Você gostando ou não, natal sem especial do Roberto Carlos não é natal. Ao menos nos últimos trinta e quatro anos. A Rolling Stone acompanhou a gravação do especial de 2008, que vai ao ar no dia 25 de dezembro logo após a novela das oito (que na verdade passa às nove). E que você vai ver, talvez comendo um sanduíche de restos de peru e tentando lembrar o que aconteceu depois do último brinde com seu avô.

A gravação estava marcada para começar às nove da última quinta-feira. Os jornalistas chegaram às sete. Na sala reservada aos jornalistas, café, sanduíches, computadores e um colete de gosto duvidoso onde se lia "imprensa". Cerca de trinta repórteres falavam sem parar até que a assessora de imprensa avisou que os convidados do Rei iriam receber os escribas nos camarins. Longos e cansáveis corredores até a primeira parada: camarim da família Lee. Roberto e Beto conversavam em meio a guitarras. Rita jogava paciência. Vendo aquele bando ela fez graça: "Todo mundo vestido de azul, hein?"

Olhando em volta, debaixo do colete todos os jornalistas exibiam roupas azuis ou brancas. Risos nervosos. Rita, colorida, chapéu verde, começou a falar "Na época da Jovem Guarda, havia o Rei e o Príncipe. Os Mutantes ficaram com o Príncipe." Anotações nervosas dos presentes. "Esta vai ser a primeira vez que Roberto e eu vamos tocar juntos." Primeira? "Sim. E nos ensaios eu estava gripada, então usei uma máscara o tempo todo e ficava dizendo: Roberto, por causa desta máscara não posso te dar um beijão na boca." Risos, outro corredor.

Zezé di Camargo e Luciano. Em frentes aos espelhos (muitos) uma enorme quantidade de tons de base, as duas esposas sentadas (uma de azul claro, outra de rosa). "Há 16 anos espero para cantar 'Portão' com o Roberto. Hoje vai." avisou Zezé, já recuperado da falta de voz que quase o tirou do meio artístico.

Outro bege e infinito corredor. Ritmistas fantasiados, mulatas, instrumentos, camarim do Neguinho da Beija Flor. Terno, jeans, sapato branco, corrente de ouro com um beija flor que deve pesar mais que o próprio beija-flor. A sua volta, a filhinha pequena, a esposa se maquiando, amigos. Ele repete "É um sonho estar aqui, um sonho, é um sonho." O último camarim seria o de Caetano. Mas ele não quis receber ninguém, o que fez um dos repórteres pagar aposta a um colega.

"Emoções"

Mais um corredor e, enfim, a arena. Cerca de nove mil pessoas sentadas gritando por tudo e por nada. Nada de vaias. O povo estava ali para celebrar. O show atrasou uma hora e meia. O palco tinha um fundo de céu noturno. O Rei entrou de branco. A arena explodiu em gritos. Ele cantou, obviamente, "Emoções". O show seguiu. O Rei fez piadinhas, chamou os convidados. Rita Lee e ele jogaram bola. Ela mandava "Papai me empresa o carro" e ele respondia com "Splish splash".

A música "Negro Gato" teve problema de áudio. Roberto explicou para os súditos e pediu que todo mundo cantasse de novo. Ninguém reclamou. A magia não se desfez nem com alguns inevitáveis barulhos de microfonia.

Seguiram os outros convidados. Uma brasa, mora? Graciosidades esperadas, elogios mútuos. Roberto Carlos elogiou a platéia, desejou felicidades, sorriu, agradeceu e disse que ia deixar todo mundo com um cara especial. Os primeiros acordes de "Jesus Cristo eu estou aqui". Todas as pessoas ficaram em pé, cantando. Choveu papel picado azul e prata. O Natal do brasileiro estava salvo.